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sábado, 25 de junho de 2016

O desastre da (ausência de) política territorial de Dilma Rousseff

O Instiuto Socioambiental publicou uma série de matérias com balanços da política territorial do governo Dilma, nos últimos seis anos. As análises tratam das Terras Indígenas, Unidades de Conservação do meio ambiente, Territórios Quilombolas e Assentamentos de Reforma Agrária.
O governo da presidente afastada Dilma Rousseff é frequentemente criticado por ser um dos que menos fez nestas áreas. Os números confirmam essa realidade. A paralisação na criação e reconhecimento, segundo os especialistas, guarda relação direta com os acordos firmados por Dilma com sua base parlamentar fortemente ruralista.
O balanço negativo nestas áreas pode ser conferido a seguir:
Os dados não deixam dúvidas: no governo de Dilma Rousseff, apenas 21 TIs foram homologadas, 25 TIs foram declaradas e 44 TIs foram identificadas e delimitadas – segundo dados monitorados pelo ISA. O processo de demarcação de TIs é complexo e demorado, envolvendo várias etapas e órgãos, desde a Fundação Nacional do Índio (Funai), até a Presidência de República, passando pelo Ministério da Justiça.
Quando o assunto é homologações, a última etapa da demarcação de TIs, os atos da presidente Dilma Rousseff ficaram restritos à região em que estão 98% das TIs já demarcadas, a Amazônia Legal. Das 21 TIs homologadas só uma está no centro-sul do país, onde os conflitos são mais intensos: a TI Piaçaguera, do povo Guarani Ñandeva, com 2,7 mil hectares, no litoral sul do estado de São Paulo. A caneta de Dilma trabalhou mais nos anos de 2012 e 2015, que tiveram um total de sete decretos de homologação cada. Em 2014, ano de reeleição, nenhum decreto foi assinado.

Leia sobre Terras Indígenas


Em seis anos de governo Dilma, foram criadas 15 UCs federais: seis na Mata Atlântica, sendo cinco de proteção integral e uma de uso sustentável; e nove na Amazônia Legal, sendo três de proteção integral e seis de uso sustentável. As UCs criadas na Amazônia, no período, somam 3,5 milhões de hectares ou 95% da extensão total das áreas formalizadas por Dilma. Ela também oficializou uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) em Minas Gerais.

Biomas como a Caatinga, historicamente desfavorecidos e menos representados no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), seguiram com pouca ou nenhuma porção de seu território destinada à conservação no dois mandatos de Dilma. Na Caatinga, embora legalmente na jurisdição Mata Atlântica segundo a Lei Federal nº 11.428 (2006) foi criado o Parque Nacional de Furna Feia, com cerca de 8,5 mil hectares. Já a Resex Marinha Mestre Lucindo tem 44% de sua extensão localizados no Bioma zona costeira e marítima.



Em quase cinco anos e meio, o governo Dilma titulou 16 territórios quilombolas, o equivalente a 11,7 mil hectares. Em oito anos, Lula titulou 12 áreas, somando quase 40 mil hectares. Dilma assinou 40 decretos de desapropriação, abrangendo 115,3 mil hectares, e Lula editou número semelhante de decretos, 43, mas desapropriando 465 mil hectares. Portanto, em pouco mais de um mandato, Dilma titulou e desapropriou aproximadamente metade da média de Lula em duas gestões em termos de área reconhecida. Os dados são da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP). Um hectare mede mais ou menos um campo de futebol.
A titulação é a última fase do complexo processo de regularização dos quilombos, implicando o reconhecimento pleno do território, após a retirada de ocupantes não quilombolas. A desapropriação é a penúltima etapa, efetivada por decreto presidencial, quando há necessidade de pagar por propriedade privadas sobrepostas. As extensões abrangidas em cada fase do processo não devem ser somadas – áreas desapropriadas serão depois tituladas, por exemplo. Cada etapa requer diferentes esforços e custos políticos, financeiros e administrativos.



Os números não deixam dúvida sobre a redução drástica na distribuição de terras para reforma agrária no período, processo semelhante ao ocorrido com TIs, UCs e territórios quilombolas, como já mostrado pelo ISA nas reportagens anteriores da série – o que sugere uma tendência geral de declínio na destinação de áreas de interesse coletivo.

Entre 2011 e 2015, a administração Dilma teria fixado 133,6 mil famílias em assentamentos. No 1º mandato de Lula, teriam sido assentadas 232,6 mil famílias e, no 2º mandato, mais 381,4 mil famílias. A média de Lula é de 76,7 mil famílias por ano, contra uma média em torno de 25 mil famílias sob Dilma. Os dados são do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

“A política agrária do governo de Dilma conseguiu ser a pior de todos os governos desde a Ditadura Civil-Militar, incluindo esta”, critica Rubem Siqueira, da coordenação da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Ele acredita que, enquanto o governo Lula ainda fez um esforço para conciliar reforma agrária, agricultura familiar e agronegócio, a gestão de Dilma teria abandonado a ideia de distribuir terras.

Leia sobre Reforma Agrária

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Servidores do Incra em Santarém farão eleição para escolha de novo Superintendente


Os servidores da Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária em Santarém realizarão eleição interna para escolha do novo Superintendente Regional. A decisão foi aprovada em assembleia geral convocada pelos dois sindicatos que representam os servidores do INCRA: o Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público no Estado do Pará (SINTSEP) e o Sindicato Nacional dos Peritos Federais Agrários (SindPFA).

Em 1999, um decreto presidencial (n° 3.135) determinou que os Superintendentes Regionais do INCRA fossem prioritariamente escolhidos entre os servidores efetivos do quadro de pessoal da autarquia, cujos nomes constem de lista tríplice aprovada pelo Conselho Diretor do órgão em Brasília. Somente excepcionalmente, o decreto estabelece o preenchimento do cargo por pessoa sem vínculo com a Administração Pública, ainda assim com “ilibada reputação e comprovada experiência técnica e administrativa”.

No último dia 10, a Medida Provisória n° 731 da Presidência da República determinou que cargos de confiança pertencentes ao Grupo-Direção e Assessoramento Superiores (DAS) de níveis 1 a 4 deverão ser extintos e transformados em funções gratificadas, que deverão ser preenchidas obrigatoriamente por servidores públicos.


A Superintendência do INCRA de Santarém possui um longo histórico de instabilidade administrativa gerada por indicações políticas. Criada em 2005, inúmeros foram aqueles sucessivamente indicados e logo em seguida afastados, seja pela conveniência política do momento, seja por condutas irregulares e até criminosas.

Em 24 de agosto de 2015, o então superintendente Luiz Bacelar Guerreiro Júnior foi preso pela Polícia Federal durante a operação “Madeira Limpa”, acusado de corrupção e de favorecer a entrada de madeireiras em projetos de assentamentos de reforma agrária. Barcelar era indicação política do deputado federal, José Priante (PMDB).

Em 15 de setembro, o servidor do Incra, Claudinei Chalito, assumiu a Superintendência, sendo exonerado em 29 de março de 2016, para acomodar um indicado político do deputado Federal Chapadinha (PTN), Adaías Cardoso Gonçalves. Este, por sua vez, foi exonerado logo após a “mudança de lado” do deputado que o indicou, durante o processo de afastamento da presidente Dilma Rousseff. Desde então, a SR30 encontra-se sem titular, sendo comandada interinamente pela servidora de carreira e Superintendente Substituta, Elita Beltrão.

Neste cenário de grande instabilidade política e sentindo a necessidade de definir os rumos do INCRA em Santarém, os servidores discutiram que não é hora de deixar esta história se repetir mais uma vez e decidiram, por unanimidade, desencadear o processo para escolha do novo Superintendente Regional entre os seus pares.

A Superintendência Regional do Incra de Santarém atua em 19 municípios do Oeste do Pará, em 156 projetos de assentamentos criados ou reconhecidos.
         
              
Veja abaixo como será o processo:

O que é?
– Eleição para formação de lista com três servidores de carreira para escolha do novo Superintendente Regional do Incra de Santarém.

Condução do processo:
 – Comissão eleitoral com 3 membros, escolhidos em assembleia geral dos servidores.

Como funcionará:
- O edital publicado no dia 20 de junho determinou que as inscrições de candidatos ocorram até o dia 23 de junho e as eleições no dia 30 de junho. Poderão se candidatar e votar servidores do Incra lotado na sede da Superintendência em Santarém e nas unidades avançadas situadas em Rurópolis, Monte Alegre e Itaituba, que não possuam condenação ou investigação em processos disciplinares. Os votos serão secretos e depositados em urnas na sede em Santarém e nas unidades avançadas. Cada servidor poderá votar em até três candidatos. Os três candidatos mais votados irão compor uma lista a ser encaminhada para o Incra em Brasília, para escolha do novo Superintendente Regional.

domingo, 19 de junho de 2016

PGR: resolução que flexibiliza licenciamento ambiental para assentamentos de reforma agrária é inconstitucional


Para Janot, afrouxamento das regras pode agravar problema; ação é mais uma iniciativa do MPF em prol do licenciamento
Seguindo a mobilização nacional do Ministério Público Federal (MPF) pela eficácia do licenciamento ambiental e pela proteção do meio ambiente, o procurador-geral da República (PGR), Rodrigo Janot, entrou com ação contra uma resolução que simplificou procedimentos de regularização ambiental em projetos de assentamento de reforma agrária. A Ação Direta de Inconstitucionalidade 5547, oferecida ao Supremo Tribunal Federal (STF), questiona a Resolução 458/2013 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama).

O argumento central da Procuradoria-Geral da República é que a resolução flexibiliza excessivamente o licenciamento, deixando de exigir as licenças prévia, de instalação e de operação, além de uma série de estudos de impacto, essenciais para a proteção ambiental. Além do procedimento simplificado, a norma fragmenta o licenciamento para cada atividade e empreendimento do assentamento, deixando de considerá-lo único. Com isso, diminui-se a visão global do impacto e deixa-se de considerar os efeitos cumulativos do empreendimento. Ainda conforme a ação, o fracionamento impossibilita exame das alternativas para a adequada gestão ambiental.

“Promover o afrouxamento demasiado das regras do licenciamento ambiental para projetos de assentamento de reforma agrária levará o problema a sério agravamento, com consequências desastrosas ao meio ambiente e dados irreversíveis, principalmente na Região Amazônica, onde seguramente haverá acréscimo das taxas de desmatamento advindas desses projetos”, alerta o procurador-geral.

Para o PGR, a norma contraria os princípios constitucionais do meio ambiente ecologicamente equilibrado e a exigência de realização prévia de estudo de impacto ambiental. A resolução fere ainda a obrigação constitucional da União, dos estados e municípios de preservação para a presente e para as futuras gerações. “A resolução afrontou os princípios constitucionais da prevenção, da vedação de retrocesso ambiental, da proibição de proteção deficiente e da exigência de estudo de impacto ambiental para atividades potencialmente poluidoras”, complementa o PGR em sua argumentação.

#PEC65Não
O MPF tem se mobilizado em prol do licenciamento ambiental, atuando contra iniciativas que visam derrubá-lo ou flexibilizá-lo. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65/2012, que dispensa o licenciamento, é um desses casos. A mobilização envolveu tuitaço - que levou a hashtag #PEC65Não a ser o sexto assunto mais comentado na internet mundial - e a realização de uma série de audiências públicas para debater o assunto. Além disso, as Câmaras do MPF de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural; Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais, e a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão enviaram nota técnica ao Senado, que subsidiou parecer contrário à PEC na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Casa.

Íntegra da ação
Fonte: Secretaria de Comunicação Social da Procuradoria-Geral da República

Caso Madeira Limpa: Justiça bloqueia R$ 2,8 milhões de madeireiros por danos ambientais


Eloy e Márcio Vaccaro, André Suleiman e a empresa Polpas do Baixo Amazonas Ltda. são acusados de formar quadrilha de comércio ilegal de madeira e terão que pagar reflorestamento

A Justiça Federal em Santarém determinou a indisponibilidade dos bens dos madeireiros Márcio Vaccaro, Eloy Vaccaro, André Suleiman e da empresa Polpas do Baixo Amazonas Ltda, por danos ambientais. Eles são acusados de formar organização criminosa que fraudou o sistema de controle ambiental para esquentar madeira extraída ilegalmente de assentamentos de reforma agrária. A quadrilha foi desmontada em agosto de 2015, na operação Madeira Limpa, do Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Federal.

Todos os 30 acusados já respondem a processo penal na Justiça e o MPF ajuizou ainda ações civis públicas para exigir a reparação dos danos ambientais causados. O juiz Érico Freitas Pinheiro foi o primeiro a decretar indisponibilidade de bens, no valor de R$ 2,8 milhões, contra os Vaccaro, Suleiman e a Polpas Ltda. O bloqueio objetiva assegurar o pagamento do Plano de Recuperação de Áreas Degradadas que os acusados terão que apresentar no prazo de 90 dias para aprovação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama)

Caso Madeira Limpa 

“Todos os elementos reunidos desvendaram uma verdadeira organização criminosa, estruturalmente ordenada, com divisão – ainda que informalmente – de tarefas, cujas atividades são espraiadas por toda a cadeia da exploração madeireira ilegal até a sua ‘legalização’ a partir de créditos florestais fraudulentos, passando pela corrupção de servidores públicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Estado do Pará (Semas), de Secretarias municipais de meio ambiente (Semmas), Secretaria da Fazenda do Estado do Pará (Sefa) e Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)”, destaca o MPF/PA.

A quadrilha é acusada de coagir trabalhadores rurais a aceitarem a exploração ilegal de madeira dos assentamentos do oeste paraense em troca da manutenção de direitos básicos, como o acesso a créditos e a programas sociais. O prejuízo mínimo estimado ao patrimônio público é de R$ 31,5 milhões.

Segundo as investigações do MPF/PA, iniciadas em 2014, o grupo atuava em três frentes interligadas: um núcleo intermediador e empresarial, um núcleo operacional centralizado no Incra e um núcleo relacionado às fraudes em órgãos ambientais.

Enquanto o primeiro núcleo concentrava os negociantes de créditos florestais fictícios (esses negociantes são conhecidos como “papeleiros”) e empresas que recebiam a madeira extraída ilegalmente, o segundo núcleo atuava diretamente com o desmatamento, sob a permissão de servidores do Incra, e o terceiro núcleo era responsável pela mercantilização de informações privilegiadas sobre fiscalizações realizadas por órgãos ambientais e pela liberação irregular de empresas com pendências nessas instituições.

Íntegra da liminar

Fonte: Ministério Público Federal no Pará - Assessoria de Comunicação

terça-feira, 31 de maio de 2016

Temer transfere Secretaria da Agricultura Familiar e Incra para a Casa Civil

Ações de reforma agrária, regularização fundiária na Amazônia Legal e regularização de territórios quilombolas ficarão a cargo de uma Secretaria Especial

Nesta segunda-feira, o presidente interino Michel Temer publicou no Diário Oficial da União decreto em que transfere o que restou do extinto Ministério do Desenvolvimento Agrário para a Casa Civil. Foi transferida como secretaria especial, a Secretaria de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário e todas as demais secretarias que já existiam no interior do MDA, e que a partir do exercício de Michel Temer, foram transferidas para o recém-criado Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário (MDSA).

As ações de reforma agrária, assim como o INCRA, já estiveram em três ministérios diferentes nas primeiras semanas de governo Temer.

Também foi transferida a Secretaria Extraordinária de Regularização Fundiária na Amazônia Legal que executa as ações de regularização fundiária pelo programa “Terra Legal”, além da ação de regularização de territórios quilombolas, que nos últimos dias saiu do MDA, foi para o Ministério da Educação (e Cultura), MDSA e agora Casa Civil.

A criação da Secretaria é resultado da pressão do deputado federal e presidente da Força Sindical, Paulo Pereira (Solidariedade-SP), que ameaçou romper com o governo caso não tivesse um ministério para chamar de seu.

Conforme noticiou a Folha, Paulinho da Força emplacou os nomes de José Ricardo Roseno, ex-presidente da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais para a Secretaria Especial de Agricultora Familiar e Desenvolvimento Agrário e do servidor Leonardo Goes, para a presidência do INCRA.

As nomeações foram confirmadas nesta terça-feira, 31 de maio, no Diário Oficial da União, assim como a exoneração dos diretores do INCRA Cleide Antônia de Souza e César Schiavon Aldrighi, que acumulava ainda o cargo de Presidente em exercício do INCRA, a partir da exoneração de Maria Lúcia Falcon, ocorrida em 17 de maio.

sábado, 28 de maio de 2016

Pelo menos 24 defensores de direitos humanos foram mortos em 4 meses, diz comitê


Camila Boehm*

Pelo menos 24 defensores de direitos humanos foram assassinados no Brasil nos quatro primeiros meses deste ano. Desses, 21 defendiam direitos agrários e faziam parte de movimentos e organizações de luta pela terra.

Os dados foram levantados pelo Comitê Brasileiro de Defensores e Defensoras de Direitos Humanos – grupo formado por entidades da sociedade civil, como a Artigo 19, Justiça Global, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

O levantamento foi enviado, por meio de denúncia, à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Organização de Estados Americanos (OEA) com o objetivo de pressionar o governo brasileiro na proteção dos defensores e na responsabilização dos culpados pelos crimes. O primeiro documento foi encaminhado às organizações no dia 8 de março. Mas dois foram enviados nos dias 11 e 27 de abril, totalizando o relato de 22 mortes.

É a primeira vez que o comitê faz o levantamento, por isso não há dados do ano passado. Em todo o ano de 2015, foram registrados 50 assassinatos no país relacionados a conflitos fundiários, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), que faz o monitoramento desde 1985. De acordo com a CPT, 90% dos casos ocorreram nos estados do Maranhão, Pará e de Rondônia.

Povo Guajajara
Entre os assassinatos levantados pelo comitê, estão o de quatro indígenas do povo Guajajara, da Terra Indígena (TI) Arariboia, no Maranhão, no intervalo de menos de um mês, entre os dias 26 de março e 22 de abril. O povo protesta contra madeireiros ilegais que exploram a área indígena.

No Dia do Índio, 19 de abril, Isaias Guajajara, de 32 anos, foi assassinado a facadas no município de Amarante do Maranhão, próximo à terra indígena. Poucos dias depois, no Dia da Terra (22), o corpo de Assis Guajajara, 43 anos, foi encontrado, em um riacho, com marcas de violência.

Antes, no dia 11 de abril, Genésio Guajajara, 30 anos, foi morto a pauladas e com um tiro no peito, também na zona urbana de Amarante do Maranhão. Ele estava na cidade para receber a cesta básica distribuída pela Fundação Nacional do Índio (Funai). E com apenas 16 anos, o indígena Aponuyre Guajajara foi morto a tiros no mesmo município.

Segundo o Cimi, há pouca fiscalização no local e os crimes não são investigados. O território, que é demarcado e habitado pelos Guajajara e pelos Awá, sofre pressão dos madeireiros, o que traz clima de insegurança.

“O primeiro motivo que avaliamos para tantos assassinatos e uma crescente violência contra os povos indígenas é justamente a morosidade do Estado em responder às demandas urgentes, que são as demarcações de terras, para sanar os conflitos”, disse Alessandra Farias, assessora jurídica do Cimi. A entidade ressalta que os indígenas são constantemente ameaçados em diversos estados e têm os recursos de seus territórios explorados ilegalmente.

O relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, do Cimi, mostra que a presidenta Dilma Rousseff, atualmente afastada do cargo, não assinou nenhuma homologação de terra indígena em 2014, apesar de pelo menos 21 processos de demarcação de terras estarem aguardando assinatura. Dados sobre a homologação em 2015 devem ser divulgados pela entidade a partir de junho.

Em 2014, o Cimi identificou 118 casos de omissão e morosidade na regulamentação de terras, mais do dobro do que foi registrado em 2013 (51 ocorrências). O Pará é o estado com o maior número de ocorrências de omissões e morosidade na regulamentação de terras (42). “O não reconhecimento das terras indígenas está diretamente ligado às intenções do governo federal de construir grandes hidrelétricas, como no caso da São Luiz do Tapajós que, se construída, alagará aldeias, florestas e cemitérios da Terra Indígena Sawré Muybu, do povo Munduruku”, diz o relatório do Cimi.

Conflitos agrários
Os conflitos agrários atingem não só indígenas, mas integrantes de movimentos sociais. O pesquisador da Justiça Global, Antonio Neto, disse que os assassinatos ocorridos no campo “mostram primeiro uma dívida histórica do Estado brasileiro em resolver o problema agrário”.

“Não adianta pensarmos em políticas paliativas de proteção e cuidado para os defensores de direitos humanos no campo se a gente não resolve essa dívida histórica com a questão agrária no país”, afirmou.

Pesquisador da questão agrária no Brasil, o professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), Ariovaldo Umbelino de Oliveira, atribui a atual violência no campo à ausência de uma real reforma agrária no país e à queda no número de novos assentamentos.

Segundo o professor, houve dois picos de assassinatos decorrentes de conflitos no campo no país: em 1985, durante o governo de José Sarney, na aprovação do 1º Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA). No mesmo ano, latifundiários criaram a União Democrática Ruralista (UDR), a fim de defender seus interesses e se contrapor ao plano.

Neste ano, o número de assassinatos por causa de conflitos no campo chegou a 139. Em 1986, foram 122 assassinatos e, em 1987, 133. Nos anos seguintes, o número foi caindo, chegando a 21 assassinatos em 2001.

Conforme Oliveira, já em 2003, quando foi apresentado o 2º PNRA, os assassinatos voltaram a crescer e atingiram a marca de 73. No ano anterior, foram 43 mortes. “Lá atrás [a ocorrência dos assassinatos] era para inviabilizar a reforma agrária. Aqui [atualmente] é porque a reforma agrária não foi feita. A ausência da reforma agrária é que faz com que os conflitos cresçam”, avaliou Oliveira.

O professor contesta ainda a forma como os dados da reforma agrária são divulgados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Esses dados incluem não só os chamados novos assentamentos, mas também casos de regularização fundiária (quando os posseiros já ocupam a terra e o governo regulariza), de reconhecimento de assentamentos antigos e ainda de situações em que o governo precisou reassentar um grupo em razão de uma obra pública.

“Ele [Incra] conta tudo como reforma agrária. E não é”, discorda Oliveira. “O governo Lula, no primeiro mandato, diz que assentou 381 mil famílias, mas, em verdade, assentou apenas 150 mil famílias em novos assentamentos”, disse o pesquisador em documento da Comissão Pastoral da Terra. No segundo governo Lula, foram 65 mil famílias em novos assentamentos. Já no primeiro governo Dilma, foram 31 mil, “o menor índice comparando até com o tempo dos militares”, segundo o pesquisador.

Incra
Questionado se a violência do campo está ligada à falta de reforma agrária, o Incra respondeu, em nota, que “os conflitos no campo estão relacionados a diversos fatores, como a luta pelo acesso à terra, disputas relacionadas à posse de áreas, desmatamento ilegal e desenvolvimento de atividades econômicas na zona rural” e que não é correto falar em falta de reforma agrária. O instituto informou que não faz o acompanhamento de conflitos agrários e não dispõe de dados para verificar se houve ou não aumento da violência no campo.

Sobre o modelo de divulgação dos dados da reforma agrária, o Incra diz que considera como assentados “agricultores sem-terra, posseiros, assalariados, parceiros ou arrendatários, além de agricultores cuja propriedade não ultrapasse um módulo rural”.
“A reforma agrária não se restringe somente às famílias assentadas em novas parcelas [chamados novos assentamentos]”, disse o Incra, argumentando que a legislação reconhece todos esses como beneficiários do PNRA.

MST
O levantamento Comitê Brasileiro de Defensores e Defensoras de Direitos Humanos cita ainda as mortes de dois integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em 7 de abril, no Paraná.

Segundo o relatório, cerca de 25 trabalhadores circulavam de caminhonete e de motocicleta, dentro da área decretada pública pela Justiça, fazendo uma ronda de rotina quando foram surpreendidos pelos policiais e pelos seguranças privados da empresa Araupel.

De acordo com o MST, os policiais e seguranças começaram os disparos. Conforme o movimento, os camponeses não estavam armados e não houve troca de tiros. O relatório diz que “por quase duas horas a área foi isolada pela Polícia Militar, impedindo o acesso de familiares, o socorro aos feridos bem como o acesso de qualquer pessoa que quisesse documentar a cena do crime”.

Além das mortes de Vilmar Bordim (44 anos) e Leomar Bhorbak (25 anos), mais sete sem-terra ficaram feridos por disparos de arma de fogo. As vítimas eram do acampamento Dom Tomas Balduíno, no município de Quedas do Iguaçu (PR).

Na ocasião, a Polícia Militar informou que duas armas de fogo foram apreendidas no local.
Sobre o caso, a polícia disse que duas equipes da corporação acompanhavam um grupo de funcionários da empresa Araupel no combate a um incêndio dentro de uma fazenda de celulose da companhia, ocupada pelos sem-terra. Eles teriam sido vítimas de uma emboscada organizada por mais de 20 integrantes do MST e teriam reagido ao ataque, o que resultou na morte de dois camponeses e deixou feridos. Em relação ao acesso das famílias ao local, a PM informou que foram enviadas equipes para resgatar os feridos e remover os corpos.

O MST negou que tenha havido um incêndio na região.
Na época, o MST disse ainda que dois integrantes tiveram a prisão preventiva decretada, enquanto estavam internados no hospital, após serem baleados pelas costas. De acordo com o movimento, eles não tiveram acesso a advogado no momento em que estavam hospitalizados.

Recém-operados, um deles chegou a passar um fim de semana detido, enquanto outro passou um dia preso na delegacia. Eles foram acusados de porte ilegal de armas e conseguiram prisão domiciliar. Na ocasião, a defesa dos dois sem-terra disse que não foram encontradas armas com os camponeses.

Em entrevista à Agência Brasil, o advogado dos rapazes, Claudemir Torrente Lima, afirmou que a prisão domiciliar foi revogada em 29 de abril e foi concedida liberdade com restrições, que inclui o uso de tornozeleira eletrônica. Ficou determinado ainda que ambos podem circular em uma área de 15 quilômetros no entorno da residência de cada um e que devem se recolher necessariamente em casa durante a noite.

No entanto, até o dia 13 de maio, os jovens continuavam cumprindo a prisão domiciliar, porque a central de monitoramento local não havia sido notificada da nova decisão. Os dois trabalhadores não quiseram dar entrevista antes do fim de seus depoimentos à polícia.

A fazenda da Araupel foi palco de conflito desde 1996, quando dois integrantes do MST morreram em um confronto com funcionários da empresa. A área, onde o MST está acampado atualmente, foi ocupada há cerca de dois anos e é razão de briga judicial entre a empresa e o movimento.

Programa de Proteção
Para o pesquisador da Justiça Global, Antonio Neto, o Programa de Proteção de Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), do governo federal, é uma ferramenta importante no contexto dos conflitos agrários.

O programa foi criado em 2004, iniciou os trabalhos em 2005 e tem o objetivo de garantir a proteção de pessoas que estejam em situação de risco ou ameaça devido à sua atuação na defesa dos direitos humanos.

“Lutamos para que seja uma política efetiva e que possa ajudar na articulação de medidas que façam com que a atuação dos defensores e defensoras de direitos humanos seja protegida e garantida pelo Estado brasileiro, para que eles possam fazer isso sob a luz da Constituição, que prevê e garante que as pessoas possam atuar com liberdade e segurança sem ter atentados contra sua vida”, disse Neto.

O programa foi instituído por um decreto presidencial em 2007, mas, em abril deste ano, um novo decreto instituiu novos moldes, sob comando da Secretaria Especial de Direitos Humanos do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos. O ministério foi extinto no governo do presidente interino Michel Temer. A Secretaria de Direitos Humanos foi incorporada ao Ministério da Justiça.

A coordenadora da área de proteção e segurança à liberdade de expressão da Artigo19, Julia Lima, ressaltou a importância do mecanismo de proteção dos defensores. No entanto, ela lembrou que o programa completou dez anos no ano passado e que tem ainda problemas estruturais. “A primeira questão é que ele não tem um marco legal, então não é uma política pública fixa e consolidada com as autoridades brasileiras”, disse.

Para a coordenadora, a falta de uma lei deixa o programa vulnerável, podendo ser extinto a qualquer momento, “principalmente nessa situação que estamos passando de conflitos políticos”. O Projeto de Lei (PL) 4575/2009, que institui o programa, está parado na Câmara dos Deputados desde 2011.

O programa dispõe de uma equipe técnica federal, que atende a casos em todo o país. Há ainda equipes técnicas estaduais. Somente os estados do Ceará, de Pernambuco, Minas Gerais e do Espírito Santo têm o programa estadual funcionando.

Na Bahia e no Maranhão, há o convênio, mas a equipe técnica ainda será contratada, por isso não está funcionando. O programa de proteção fica a cargo da equipe técnica federal nos demais estados.

A equipe técnica federal atende atualmente a 193 pessoas, de acordo com a Secretaria de Direitos Humanos. Nos estados, até o mês de março, eram 19 no Ceará, 52 em Minas Gerais, 34 em Pernambuco e 27 casos no Espírito Santo, que tem uma metodologia diferente dos outros três estados e pode incluir mais de uma pessoa em cada “caso”.

Antonio Neto ressalta que, por falta de uma lei específica, a parceria com os estados depende da boa vontade do governo local e da relação com o governo federal. “Não basta só uma canetada para que vire efetivo, também tem um trabalho de discussão e convencimento nos estados para que eles possam implementar a política, mas, sem dúvida, o marco legal é importantíssimo para que essa política se espalhe para outros estados”, acrescentou o pesquisador.

*Fonte:  Agência Brasil - Edição: Carolina Pimentel

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Amazônia ameaçada: No noroeste de Mato Grosso, o último maciço florestal do estado corre risco


Colniza: um retrato do desmatamento em Mato Grosso

Localizada a 1065 km de Cuiabá, Colniza, no noroeste de Mato Grosso, lidera o ranking dos municípios que mais desmatam na Amazônia. A cidade responde sozinha por 19% de todo o desmatamento registrado no estado entre agosto e dezembro de 2015, quando perdeu 74 quilômetros quadrados de floresta. Com 27.949 km2, maior que o estado de Sergipe, o município no extremo noroeste de Mato Grosso retrata a realidade da região.

Entre Colniza e Juína, onde fica a sede do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) que fiscaliza toda a região noroeste, são 319 quilômetros, percorridos em cerca de 7 horas de carro por meio de estradas de terra precárias e por 91 pontes de madeira.

Para dar uma ideia das dificuldades logísticas e de infraestrutura enfrentadas no município de Colniza, a secretária adjunta de Gestão Ambiental da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), Elaine Corsini, lembra que até pouco tempo não havia estradas no município com acesso para Mato Grosso. “A saída era só pelo estado de Rondônia. Há 15 anos, era uma área totalmente isolada em certas épocas do ano.”

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Contra a corrente, guardiões da floresta lutam para manter a Amazônia em pé

A estrada de terra que parte de Colniza em direção à vila do Guariba, distrito do município a cerca de 150 km de distância, é margeada por áreas abertas de pasto, sem vegetação nativa, a não ser a típica árvore de babaçu. Todos na região sabem o motivo: a espécie estraga a corrente da motosserra e é ruim de derrubar, o que explica porque sobreviveram no cenário desmatado.

A cerca de 80 km de Colniza, no extremo noroeste do estado, próximo ao Amazonas e a Rondônia, a paisagem muda com o surgimento de árvores altas que anunciam a Floresta Amazônica densa em áreas conservadas da região.

Do lado esquerdo da estrada fica a Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt, com 138.092 hectares nos municípios de Aripuanã e Colniza, onde vivem cerca de 400 ribeirinhos extrativistas que tiram o sustento da mata em pé. Do lado direito da estrada fica a Terra Indígena (TI) Kawahiva do Rio Pardo, com 411.844 hectares, onde vive um grupo de indígenas isolados da etnia Kawahiva, do tronco linguístico Tupi.

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Problemas fundiários, fiscalização precária e violência são desafios para o fim do desmatamento

O desmatamento ilegal da Floresta Amazônica avança a despeito da importância que a comunidade científica mundial e a sociedade atribuem ao bioma e ao impacto de sua destruição no clima do planeta. Em Mato Grosso, a região noroeste abriga o último maciço da floresta no estado e sofre forte pressão para exploração madeireira e ocupação de novas áreas para a produção agropecuária.

Entre os meses de agosto e dezembro de 2015, 419 quilômetros quadrados de Floresta Amazônica desapareceram do mapa no estado, de acordo com dados do Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD), operado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) com base em imagens de satélite gerados pela plataforma Google Earth Engine (EE).

A derrubada da mata nativa faz de Mato Grosso o único estado da Amazônia Legal a ampliar a área desmatada nos últimos cinco meses de 2015, com aumento de 16% no corte raso da floresta em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com dados do SAD.

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Assentados de Juruena trocam a madeira por renda sustentável em reserva legal comunitária

Situado na região do Arco do Desmatamento, no noroeste de Mato Grosso, o município de Juruena abriga o Vale do Amanhecer, um assentamento com 140 km² de área onde vivem 250 famílias. Implantado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em 1999, o local é um caso raro de sucesso entre assentamentos de reforma agrária na região, tornando-se modelo e referência por conseguir aliar conservação ambiental e geração de renda, com aumento da qualidade de vida das famílias assentadas.

Na etapa de regularização, foi criada uma reserva legal comunitária, com área de 72 km², equivalente a 7,2 mil campos oficiais de futebol. A Floresta do Vale, como é chamada, é um importante reduto da vegetação nativa e tem garantido renda sustentável aos assentados. O local tem alto potencial para o extrativismo, com cerca de 2,5 mil castanheiras.

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Fonte: Especial Amazônia Ameaçada na EBC

terça-feira, 10 de maio de 2016

Paraíba: PF desarticula esquema de fraudes em verba para programas do Incra


Polícia Federal deflagrou ação para cumprir 13 mandados na Paraíba.Desvios em programas de reforma agrária no Incra podem chegar a R$ 80 mi.

Uma operação para cumprimento de 13 mandados foi deflagrada pela Polícia Federal na manhã desta terça-feira (10) para desarticular um esquema de fraude em verbas federais destinadas à aplicação em programas ligados à reforma agrária geridos pela Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) na Paraíba . 

De acordo com a PF, são 11 mandados de busca e apreensão, e dois mandados de afastamento de cargos, todos expedidos pela 16ª Vara da Justiça Federal da Paraíba. A operação ainda ocorre nos estados do Rio Grande do Norte e em Pernambuco.

O esquema funcionava desviando verbas públicas federais em contratos de Assessoria Técnica, Social e Ambiental à Reforma Agrária (Ates). As investigações tiveram início no ano de 2014, a partir de ação de fiscalização da CGU, e prosseguiram na Polícia Federal, revelando possíveis fraudes que superam o montante de R$ 80 milhões.

De acordo com o delegado Fabiano Martins, da Polícia Federal, a suspeita é de que o dinheiro desviado estava sendo usado para bancar o “caixa 2” de campanhas eleitorais no estado. O delegado da Polícia Federal informou que ainda não há comprovação de que sindicatos e partidos políticos estejam diretamente envolvidos com o esquema, mas já há indícios de que o dinheiro desviado servia de alguma forma para beneficiar campanhas eleitorais.

Conforme assessoria do Incra na Paraíba, os dois mandados de afastamento de cargo foram cumpridos no órgão, mas que desconhece atos ilícitos praticados pelos servidores afastados. Além disto, a assessoria informou que foi determinada a imediata suspensão dos pagamentos e dos serviços de todas as entidades prestadoras de Ates no estado até que todos os fatos sejam apurados e esclarecidos.

O Incra afirmou ainda, por meio da assessoria de imprensa, que "sempre acompanhou a execução dos contratos com as entidades prestadoras de Ates na Paraíba através da análise de relatórios comprovando os serviços prestados e desconhece supostas irregularidades".

Além da Polícia Federal, Controladoria-Geral da União (CGU) e o Ministério Público Federal (MPF) participaram na operação. Nas investigações, a Polícia Federal descobriu uma fraude na montagem nos Processos de Chamadas Públicas, participação de servidores e seus parentes na execução dos projetos, pagamentos por serviços não prestados e manipulação de documentos com intuito de esconder irregularidades detectadas em fiscalização da CGU.

A ação envolve aproximadamente 60 policiais federais e nove auditores da CGU. Os envolvidos no esquema deverão responder pelos crimes de fraude licitatória, com pena de dois a quatro anos de detenção; peculato, com pena de dois a 12 anos de prisão; estelionato, com pena de um ano e quatro meses a seis anos e oito meses de reclusão; e por fim pelo crime de associação criminosa, com pena de um ano a três anos de prisão.

De acordo com a Polícia Federal, a Ates é executada em parceria com instituições públicas, privadas (associações e cooperativas), entidades de representação dos trabalhadores rurais e organizações não governamentais (ONGs) ligadas à Reforma Agrária.

Fonte: G1

sábado, 7 de maio de 2016

Dois sem terra são assassinados em Buritis (RO)


Os irmãos Nivaldo Batista Cordeiro e Jesser Batista Cordeiro, membros do Acampamento 10 de Maio, de Alto Paraíso do Oeste, Rondônia, desapareceram no dia 24 de abril. Dois dias depois eles foram encontrados mortos no Rio Candeias.
Depois de ter localizado a moto deles nas proximidades do rio, no Km 25 da Linha C-50, os dois corpos foram encontrados com diversos disparos. O local faz parte do município de Buritis, Rondônia, que forma parte do chamado Vale do Jamari, uma das regiões que desde 2015 concentra o maior número de casos de violência por conflitos em disputas de terras públicas de todo o Brasil.
No dia 28 de abril a Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia e Amazônia Ocidental (LCP) divulgou Nota em que denuncia o assassinato dos dois irmãos, Nivaldo e Jesser, que, segundo a Liga, eram camponeses do Acampamento 10 de Maio. Nivaldo deixou a esposa e quatro filhos pequenos.
Conforme a Liga dos Camponeses, os irmãos foram covardemente assassinados no dia 24 de abril, e já haviam recebido ameaças de morte do fazendeiro Caubi Moreira Quito. O fazendeiro, que tinha posse da Fazenda Formosa, disputa com o Acampamento 10 de Maio, vinculado à LCP, o controle da área, que é terra pública grilada dentro da Gleba 06 de Julho/São Sebastião. No local, no início deste ano, a Justiça Federal suspendeu uma reintegração de posse contra os acampados (14/03/16) a pedido do Ministério Público Federal (MPF), pois a área ocupada pela fazenda é terra pública que já havia sido desapropriada pelo INCRA para reforma agrária.
Há alguns anos o local é palco de uma acirrada e violenta disputa. Após uma reintegração de posse da Justiça Estadual, sofrida pelos acampados em setembro de 2013, o fazendeiro denunciou ter sido atacado em seu carro. Mais tarde, um peão da fazenda teria sido atingido por disparos e a sede da fazenda, em outubro, foi totalmente destruída.
Em 25 de janeiro de 2015, após os acampados resistirem e conseguirem suspender uma nova reintegração de posse da Justiça Estadual, José Dória dos Santos, antigo integrante do acampamento, foi assassinado com vários disparos. Já em 11 de maio de 2015, duas pessoas mortas foram encontradas nas imediações do acampamento. Em abril deste ano, foi encontrada uma ossada humana (ainda não identificada) na mesma fazenda, que pode ser de Valdecy Padilha, camponês do Acampamento 10 de Maio desaparecido desde a manhã do dia 11 de novembro de 2015.
Por outro lado, a LCP acusa o fazendeiro de ter afirmado em várias ocasiões “que iria matar todos os sem terra antigos do Acampamento”. Ainda segundo a Liga, policiais militares de Buritis fizeram diversas tentativas de reintegração de posse na área do 10 de Maio sem ordem judicial. E consta, segundo a Liga, em depoimento do próprio Caubi Moreira Quito, realizado na Polícia Civil de Ariquemes em 29 de dezembro de 2014, que ele mesmo havia contratado 10 policiais militares para fazerem a segurança privada de sua fazenda em troca de terras.
Em relação à morte dos dois irmãos do Acampamento 10 de Maio, a Liga dos Camponeses Pobres (LCP), na Nota do dia 28 de abril, levanta pesadas acusações contra a Polícia Militar de Ji-Paraná, que estaria realizando patrulhas de carro nas estradas e de helicóptero na área do acampamento. “Esse crime tem todas as características dos crimes praticados por policiais. Os camponeses saíram de casa no domingo cedo, à luz do dia, em uma estrada muito movimentada. Foram assassinados em um lugar e seus corpos encontrados em outro. Pistoleiros não teriam como fazer tal operação sem chamar a atenção”, denuncia a Nota da LCP.

Fonte: CPT de Rondônia

MPF quer compromisso de que dados de imóveis rurais no Pará sejam integrados a sistema nacional do CAR

Entre outras utilidades, informações servem de base para autarquias federais combaterem o desmatamento

O Ministério Público Federal (MPF) recomendou à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) do Pará que integre ao Sistema Nacional de Cadastro Ambiental (Sicar) as informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR) dos imóveis rurais do Estado com sobreposição de áreas ou localizados em Unidades de Conservação federais e estaduais, ou em Terras Indígenas.

Também foi recomendada a integração de dados dos registros do CAR relativos a assentamentos da reforma agrária em suas várias modalidades, como os projetos de assentamentos agroextrativistas e projetos de desenvolvimento sustentável.

Portaria publicada pela Semas no início de abril (
http://j.mp/portaria_semas_654) prevê que os dados dos cadastros ambientais, atualmente registrados no Sistema Integrado de Monitoramento e Licenciamento Ambiental (Simlam) da secretaria, deverão ser integrados ao Sicar. No entanto, o MPF quer a garantia de que os dados das áreas citadas na recomendação também serão migrados para o sistema nacional.

Esses dados são públicos e, entre outras utilidades, servem de base para a atuação de autarquias ambientais no combate ao desmatamento, viabilizando a identificação de autores de crimes ambientais, destaca o MPF no documento enviado à Semas.

A recomendação foi encaminhada no final de abril. Assim que receber o documento, a secretaria terá dez dias úteis para se manifestar. Se a Semas não apresentar resposta ou se as informações forem consideradas insuficientes, o MPF pode levar o caso à Justiça.

Cópia do documento foi encaminhada pelo MPF ao Serviço Florestal Brasileiro (SFB), para que o órgão manifeste seu interesse em atuar como coautor de eventual ação a ser encaminhada à Justiça em caso de descumprimento da recomendação pela Semas.

Saiba mais 
O CAR é um registro eletrônico, obrigatório para todos os imóveis rurais, que tem por finalidade integrar as informações ambientais referentes à situação das Áreas de Preservação Permanente (APP), das áreas de Reserva Legal, das florestas e dos remanescentes de vegetação nativa, das Áreas de Uso Restrito e das áreas consolidadas das propriedades e posses rurais do país. Criado pela Lei 12.651/2012 no âmbito do Sistema Nacional de Informação sobre Meio Ambiente, o CAR se constitui em base de dados estratégica para o controle, monitoramento e combate ao desmatamento das florestas e demais formas de vegetação nativa do Brasil, bem como para planejamento ambiental e econômico dos imóveis rurais.

Prazo 
Conforme Medida Provisória publicada no Diário Oficial da União nesta quinta-feira, 5 de maio, foram estendidos até 5 de maio de 2017 os prazos para que os proprietários e possuidores de imóveis de até quatro módulos fiscais façam a inscrição das propriedades no CAR e a adesão ao Programa de Regularização Ambiental (PRA).

Íntegra da recomendação 
AQUI.

Fonte: Ministério Público Federal no Pará - 
Assessoria de Comunicação

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Assentamentos irregulares são os que mais desmatam na Amazônia


Cruzamento de dados feito pela Pública mostra relação entre fraudes e falhas na atuação do Incra e o acirramento dos conflitos sociais e desmatamento na Amazônia

Por Ciro Borges e Iuri Barcelos*

No ato de assinatura do Acordo de Paris, em 22 de abril, na sede da ONU em Nova York, a presidente Dilma Rousseff afirmou que o desmatamento na Amazônia será erradicado até 2030. Mas dados recentes do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) indicam que o desmatamento zero é um grande desafio. Embora tenha recuado acentuadamente ao longo da década passada, o desmatamento na região parou de cair de maneira significativa e manteve-se numa faixa de 5.8 mil a 7 mil km2 entre 2009 e 2015 — apenas no ano passado a Amazônia perdeu uma área equivalente a 583 mil campos de futebol em cobertura vegetal.

E uma das razões para o freio no ritmo de queda é o desmatamento dentro de assentamentos de reforma agrária. Não por outra razão, o Ministério Público Federal (MPF) elegeu, em julho de 2012, o maior desmatador da Amazônia: Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Quatro anos depois, no início deste abril de 2016, o Tribunal de Contas da União (TCU) pediu a paralisação da reforma agrária no país, por irregularidades em quase 500 mil benefícios concedidos pelo órgão ligado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário. Para entender melhor como é o trabalho do Incra na Amazônia Legal e investigar quais são os maiores desafios e limites da atuação do órgão, a Pública consultou diversos documentos produzidos por órgãos de controle e organizações da sociedade civil e entrevistou procuradores, funcionários do Incra, assentados e representantes de movimentos sociais da região. A reportagem compilou e cruzou bancos de dados. E a conclusão da investigação jornalística é que falhas e irregularidades do Incra acabam por alimentar conflitos violentos e impactam diretamente o desmatamento da região.

Um dos fatos identificados pela apuração é uma concentração de homologações irregulares de beneficiários de reforma agrária na Amazônia Legal. A Pública teve acesso a dados desagregados da última fiscalização feita pela Controladoria-Geral da União (CGU) no Sistema de Informações de Projetos de Reforma Agrária (Sipra) e detectou que os estados amazônicos são campeões de homologações indevidas: das dez superintendências do Incra que mais concentram irregularidades na história, apenas uma não está na região amazônica. Com essa prática, o Incra vem regularmente cedendo lotes de reforma agrária a um público sem perfil para recebê-los (como funcionários públicos, políticos, empresários, pessoas de renda elevada etc.), e isso é mais frequente na Amazônia Legal.

Os dados do próprio Incra mostram também um processo acentuado de criação de assentamentos nos anos 2005 e 2006. O Incra nunca criou assentamentos para tantas famílias na região amazônica em toda a sua história como nesse período. Segundo fontes ouvidas pela Pública, esse fato pode estar ligado ao cumprimento das metas do segundo Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), que vigorou entre 2003 e 2007. As homologações irregulares na Amazônia também se concentram no biênio 2005-2006, e os dados analisados na reportagem mostram as consequências dessa alta de criação de assentamentos sem rigor técnico.

A pressão para o atingimento de metas e as irregularidades detectadas pelos órgãos de controle podem estar na origem da alta da participação dos assentamentos no total de desmatamento na Amazônia. O desmatamento caiu 77% na região entre 2004 e 2011. Entretanto, dentro dos assentamentos de reforma agrária, os índices não acompanharam a queda com a mesma intensidade. Isso fez com que sua participação no desmatamento total na Amazônia Legal crescesse a partir da última década.

A Superintendência do Incra em Santarém é um exemplo desse caos fundiário gerado pelas homologações indevidas realizadas em assentamentos criados sem rigor técnico.

Com uma década de experiência no Incra como servidor de carreira, o engenheiro agrônomo Claudinei Chalito da Silva topou abrir mão de um cargo de diretoria no Incra do Paraná para assumir, em setembro do ano passado, uma das superintendências mais problemáticas de todo o Brasil: a SR-30, sediada em Santarém, no Pará.

Chalito vibrou com a ideia de pela primeira vez comandar um núcleo regional do Incra, mas sabia que era um desafio. Seu antecessor no cargo, Luiz Bacelar Guerreiro, que geriu a Superintendência entre novembro de 2012 e agosto de 2015, havia saído do cargo preso na Operação Madeira Limpa, da Polícia Federal. Segundo o MPF, Bacelar permitia que empresários explorassem ilegalmente os assentamentos de reforma agrária e unidades de conservação na região. O prejuízo aos cofres públicos chega, no mínimo,a R$ 31,5 milhões, segundo a PF.
 
Deflagrada em 2015 pela PF, Operação Madeira Limpa em Santarém desmantelou um esquema de exploração ilegal de assentamentos (Foto: Reprodução/Youtube)

O legado da gestão Bacelar, porém, era só uma parte dos problemas que Chalito tinha pela frente. “Encontrei um quadro catastrófico. Se for colocar uma escala de gravidade, eu diria que de 0 a 100, chegou bem perto de 100”, resume.

“Encontrei muitos conflitos internos entre servidores, um clima bem tenso. Havia uma enorme quantidade de processos de criação de assentamentos feitos de forma irregular que estavam, inclusive, na mesa do superintendente só esperando fazer o despacho. Tive de barrar vários processos por vícios em outras etapas. Havia mais de 12 mil beneficiários bloqueados após uma fiscalização feita pela CGU no ano passado. Mais de 15 convênios estavam paralisados por falta de parecer técnico, prestação de contas. Havia irregularidades em praticamente todos os assentamentos, eram bem poucos os que não tinham problemas graves de reconcentração de terra, com ‘fazendeiros’ dentro deles, o que gerava muito conflito e extração ilegal de madeira. Muitos casos de sobreposição de assentamentos com terras indígenas, unidades de conservação ou até outros assentamentos por falta de rigor técnico no processo de criação. Havia mais de 9 mil famílias que moravam em área de várzea, literalmente dentro dos rios, onde o Incra não conseguiu levar créditos de apoio e fomento”, relata o ex-superintendente.

O ex-superintendente, Claudinei Chalito, deparou-se com conflitos e irregularidades durante sua gestão (Foto: Ascom/Incra)
Chalito parece se cansar. Ele retoma o fôlego antes de concluir. “Você precisaria multiplicar aquela superintendência por mais de dez para resolver os problemas de lá. Tem muitos conflitos em que há risco de morte ali dentro, casos em que a floresta amazônica está se transformando em cinzas porque os madeireiros estão tomando conta.

É uma região que não vai se estabilizar em cinco nem em dez anos”, conta.

A fábrica de “assentamentos de papel”
Em dezembro de 2007, quatro procuradores da República propuseram uma ação civil pública contra a Superintendência do Incra em Santarém, a mesma que seria comandada por Chalito anos mais tarde. Na ação, os procuradores constataram que dois terços dos assentamentos da superintendência (144 de um total de 218) haviam sido criados somente nos anos de 2005 e 2006. Esses assentamentos abrigavam 70% das famílias beneficiárias da reforma agrária na região, mais ou menos 51 mil. À época, esse número era equivalente à população da cidade de Santarém distribuída em uma área do tamanho do estado da Paraíba.

O conluio com os madeireiros, escancarado anos mais tarde na gestão Bacelar, já era apontado pelo MPF. Segundo a ação, a superintendência criou nesse período vários projetos de assentamento diferenciados, como PAEs e PDSs (Projetos de Assentamento Agroextrativistas e Projetos de Desenvolvimento Sustentável), em que é permitida a extração de madeira por práticas de manejo sustentável. Muitos desses assentamentos foram criados pela superintendência em área de floresta primária para um público sem perfil de reforma agrária. Das cerca de 14 mil pessoas assentadas nos PDSs, apenas 5 mil teriam de fato o perfil para serem beneficiárias desse tipo de projeto. Entre as demais haveria pessoas ligadas às empresas madeireiras. “Os documentos apontam a ingerência do setor madeireiro no processo de criação de Projetos de Desenvolvimento Sustentável. Dos autos emerge a interferência direta do setor privado na destinação de terras públicas federais da ordem de 2.232.837 hectares, uma área equivalente ao estado de Sergipe”, relata a ação.

Para o MPF, o processo de criação massiva de assentamentos nesses dois anos também passou por cima de vários procedimentos técnicos necessários. “Todos os assentamentos na gestão do atual superintendente foram criados sem a emissão de licença prévia”, afirma, em letras maiúsculas, a ação do MPF. E 72% dos assentamentos também foram criados sem os laudos agronômicos, documentos que asseguram a adequação da área a um projeto de assentamento.

Os funcionários do Incra ouvidos na ação reconhecem as irregularidades em depoimentos. “A depoente dizia ao superintendente que faltavam peças técnicas, mas, como o agrônomo não as entregava, o superintendente dava ordem de publicar as portarias de criação”, diz a servidora Érica Luana Braga. “A procuradoria do INCRA foi omissa a todo momento […]”, relata, em depoimento ao MPF, o servidor Juliano Gallo, que apontou a criação de um PAC — o PAC Nova União – como exemplo de assentamento “criado sem nenhum parecer”. Outro documento, um memorando interno do Incra, afirma que a “criação acelerada de assentamentos no final de 2006, para cumprir as metas estabelecidas para a Superintendência em Santarém, fizeram com que estes assentamentos fossem criados sem que houvesse a devida atenção às áreas anteriormente destinadas à conservação”.

Fontes de vários setores (movimentos sociais, MPF, servidores do Incra) ouvidas pela Pública afirmam que esse processo de criação desenfreada de assentamentos também pode estar relacionado ao cumprimento das metas da segunda Política Nacional de Reforma Agrária (PNRA), que vigorou entre 2003 e 2007. “É uma discussão que depois de dez anos a gente entende que tem três lógicas… Tinha uma lógica que era defendida pela gestão do Incra na época, que era a de ganhar as terras públicas não destinadas para a reforma agrária, mas tinha outra lógica que era a de atender financiamento de campanha, de dinheiro de madeireira. Teve áreas de reserva de madeira nobre em que os madeireiros chegaram a indicar onde seria feito o assentamento”, analisa um servidor do Incra ouvido sob anonimato que em 2006 já trabalhava no órgão. “Outra lógica também era fazer números com os movimentos sociais e com a PNRA.”

Há casos de várias criações de assentamento pela superintendência de Santarém no mesmo dia. Só em 27 de dezembro de 2006, foram criados 20 assentamentos, com uma área equivalente a 528.000 campos de futebol. Só nesse dia, o número de famílias cadastradas é o mesmo que a região Sul inteira assentou em todo o ano.

A ação do MPF foi acolhida pelo juízo federal em Santarém, ainda em 2007. Quatro anos depois, 106 assentamentos criados no período tiveram suas portarias canceladas ou ficaram interditados judicialmente, restringindo a ação do Incra nesses assentamentos.
“Foram criados muitos assentamentos na região nessa época sem licenciamento ambiental e sem o rigor técnico adequado. Mas, quando houve a interdição, os problemas naqueles assentamentos foram crescendo. Os madeireiros foram tomando conta das áreas e o desmatamento e os conflitos se avolumaram demais”, relembra o ex-superintendente Chalito. “O desmatamento ali era descomunal, com queimadas enormes. No mês de novembro, depois que eu fui para lá, a gente sentia o cheiro da fumaça de dentro do Incra. De noite e de madrugada era sufocante aquilo. Houve muita ameaça desses grandes posseiros ligados aos madeireiros, expulsão de beneficiários legítimos. Fora a pobreza com que essas famílias das áreas interditadas tiveram que conviver sem o apoio do Incra. Algumas até abandonaram os lotes. E a gente estava de mãos atadas.”

Dez anos depois, nenhum assentamento criado entre 2005 e 2006 chegou à fase final de desenvolvimento, segundo os critérios do Incra. E eles são líderes de desmatamento na Amazônia Legal.


Fonte: Incra/Imazon

Amazônia Legal, campeã de homologações indevida
O processo de criação de assentamentos da superintendência que Chalito assumiu é semelhante ao de outras regiões. Assim como em Santarém, as outras 11 superintendências do Incra na Amazônia Legal tiveram uma grande alta na criação de assentamentos de reforma agrária em 2005 e 2006. As retificações das portarias de criação de assentamentos também começaram a aparecer com frequência muito maior do que nos anos anteriores, ampliando ainda mais a capacidade dos assentamentos.

Fonte: Incra

A alta nas criações foi acompanhada por um crescimento no número de beneficiários cadastrados de maneira irregular. A Pública teve acesso aos dados da última fiscalização feita pela CGU no Sistema de Informações de Projetos de Reforma Agrária (Sipra). Os estados da Amazônia Legal são campeões de homologações indevidas: das dez superintendências do Incra que mais concentram irregularidades na história, apenas uma não está na região. Os anos com maior número de cadastros indevidos na relação de beneficiários são justamente 2005 e 2006.

Fonte: CGU

Fonte: CGU
Um acórdão divulgado em abril pelo TCU confirma que as superintendências do Incra na Amazônia Legal concentram o maior número de irregularidades. O órgão fez basicamente a mesma fiscalização feita pela CGU no fim do ano passado e determinou a paralisação do Programa Nacional de Reforma Agrária por ter identificado mais de 500 mil beneficiários irregulares.

Desmatamento na Amazônia mudou de perfil
O ritmo do desmatamento na Amazônia Legal apresentou forte desaceleração a partir de 2004, com o início do Plano de Prevenção e Combate ao Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). O PPCDAm, uma iniciativa conjunta de 15 ministérios, nove governos estaduais e 13 ONGs, centralizou seus esforços em atividades de monitoramento e controle ambiental. Nos primeiros anos do plano, o resultado foi um sucesso. O desmatamento caiu 77% na Amazônia Legal entre 2004 e 2011. Entretanto, dentro dos assentamentos de reforma agrária os índices não acompanharam a queda com a mesma intensidade. Isso fez com que sua participação no desmatamento total na Amazônia Legal crescesse a partir da última década. Uma avaliação da segunda fase do plano feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontou o ordenamento fundiário como o principal gargalo a ser enfrentado no combate ao desmatamento na Amazônia Legal.


Esses assentamentos, que eram responsáveis por 18% do desmatamento da Amazônia em 2003, passaram a responder por 30% do total em 2014. Entre 2005 e 2011, houve uma alta de 13% na contribuição dos assentamentos para o desmatamento na região. Os dados são do estudo “Desmatamento nos assentamentos da Amazônia: histórico, tendências e oportunidades”, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Ambiental na Amazônia (Ipam) e lançado em fevereiro.

O estudo também alerta para um desmatamento incomum dentro das áreas dos assentamentos. Segundo o instituto, o desmatamento compatível com as atividades dos beneficiários da reforma agrária seria de até 10 hectares por ano. Apesar desse parâmetro, “quase 72% da área desmatada dentro dos assentamentos está ocorrendo em polígonos maiores que 10 ha (21% em polígonos maiores que 50 ha). O fato de a maioria da derrubada de florestas dentro dos assentamentos ser feita em grandes blocos (polígonos) surge como um forte indicador do processo de reconcentração de lotes dentro dos assentamentos”, afirma o relatório.

Um dos fatores da maior participação dos assentamentos no desmatamento da Amazônia pode estar relacionado à falta de rigor técnico na atuação do Incra na região em 2005 e 2006. Na década de 1990 até 2004, o órgão homologava irregularmente 1.500
beneficiários em média. Nos dois anos seguintes, esse número subiu para 7 mil.


Os assentamentos campeões de desmatamento em oito dos dez anos entre 2001 e 2010 apareciam também nas primeiras posições do ranking de assentamentos com mais beneficiários irregulares.

Fonte: Imazon/CGU

Ao longo do tempo, esses projetos com grande quantidade de irregularidades nos cadastros também registram um desmatamento mais intenso. Comparando projetos de tamanho semelhantes, o grupo de assentamentos com irregularidades apresentou taxas de desmatamento médio sempre maiores que nos assentamentos em geral.

Os prejuízos das irregularidades nas ações do Incra vão além do desmatamento. A exploração de madeira ilegal nos assentamentos da Amazônia Legal também se concentra nos projetos criados entre 2005 e 2006.

Fonte: Imazon/Incra

Um novo diagnóstico surge com crescente importância dos assentamentos de reforma agrária no desmatamento da Amazônia: o perfil do desmatamento mudou. Agora ele acontece em pequenos focos, distribuídos em áreas menores – com capacidade para escapar dos sensores instalados durante as primeiras fases do PPCDAm.

A partir de 2012, durante a terceira e última fase do plano, uma das principais funções do Incra seria reverter esse cenário. Para tanto, o órgão anunciou o Programa Assentamentos Verdes (PAV). O programa apoia práticas sustentáveis e continua com as ações de regularização, monitoramento e controle ambiental em aproximadamente 2.500 assentamentos. Em outra frente de trabalho, o Sistema de Informações de Projetos de Reforma Agrária (Sipra) foi implementado para melhorar o processo de inclusão de beneficiários. Antes do Sipra, o procedimento era feito com menos controle. Hoje, é necessário incluir uma série de documentos no sistema, que é informatizado e unificado. No entanto, segundo o TCU, as irregularidades no cadastro de beneficiários ainda atingem aproximadamente 30% da base total.

Vítima da governabilidade
No último dia 29 de março, Chalito foi exonerado do comando da Superintendência Regional do Incra em Santarém. Segundo ele, sua saída estaria ligada ao recente desembarque do PMDB da base aliada do governo federal. “Minha saída veio no âmbito da crise institucional que nós vivemos. A gente tem informações de que o novo superintendente tem ligações com um deputado federal do município lá de Santarém, que é o deputado Francisco Chapadinha [PTN-PA]. Nesse arranjo de forças dos partidos saindo da base aliada e outros entrando, o meu cargo foi repassado nesse esforço de recompor o governo”, afirma.

Para atrair o PTN (Partido Trabalhista Nacional) e tentar recompor sua base às vésperas da votação do impeachment na Câmara dos Deputados, o governo ofereceu o cargo a Adaías Gonçalves, ligado ao deputado federal Francisco Chapadinha (PTN-PA), o único deputado federal eleito por Santarém. A informação coincide com uma nota do jornal O Globo. Após a divulgação do acordo pela imprensa, Chapadinha negou que estivesse negociando seu voto. “Fui acusado de que votaria a favor da presidente em troca de cargos no governo federal, o que não é verdade. Todos os cargos que indiquei foram feitos desde o início do mandato e somente agora as indicações começaram a sair. Em nenhum momento me foi condicionado o apoio à presidente em troca de cargos”, afirmou o deputado em nota à imprensa paraense. Coincidência ou não, dois dias após o voto favorável de Chapadinha à admissibilidade do processo de impeachment pela Câmara, o governo exonerou Adaías Gonçalves. À frente da SR-30 está agora a servidora de carreira Elita Beltrão.

Em entrevista à Pública, a atual superintendente do Incra em Santarém afirma que o Incra trabalha para sanar os erros apontados pela reportagem. Com relação à ação civil pública dos “assentamentos de papel”, movida pelo MPF em 2007, ela afirma que a superintendência já constituiu um Grupo de Trabalho para regularizar os assentamentos denunciados. “Esse GT já revisou 12 processos de assentamentos citados na ação. Em sete desses 12 processos, os assentamentos já foram até desinterditados judicialmente. A ideia agora é continuar a revisão”, diz. Ela também realça que o órgão trabalha no combate ao desmatamento em assentamentos casando seu planejamento com o Programa Assentamentos Verdes. “Todo o nosso planejamento é para atuar nesses assentamentos em que houve denúncias de desmatamento, em que já houve supervisão ocupacional que identificou ocupantes irregulares que também promovem desmatamento”, garante.

Elita Beltrão também informa que o Incra trabalha para penalizar os envolvidos na antiga gestão Bacelar, acusada de corrupção pela Operação Madeira Limpa, da Polícia Federal. “Instalamos uma comissão para apurar o envolvimento tanto do Bacelar, quanto de outros servidores nessas ações de desmatamento, compra e venda de lotes e outras irregularidades. Há também uma ação penal aberta nesse sentido. Nós pautamos para este ano a supervisão ocupacional de todos os assentamentos que foram alvo de ações dessas pessoas que estão envolvidas na Operação Madeira Limpa. Estamos também reestruturando todas as diretorias da Superintendência”, ressalta. Segundo Elita, todos os procedimentos técnicos para a homologação de assentados e para a concessão de planos de manejo sustentável passarão diretamente pelo gabinete dela para haver mais controle dos procedimentos.

A superintendente afirma, porém, que a SR-30 sofre com a falta de recursos. “A circunscrição da superintendência abrange 19 municípios. São mais de 50 mil famílias. Nós temos uma quantidade de servidores bem aquém a essa demanda. Desde 2012, nós estamos sofrendo com um contingenciamento muito grande de recursos. Boa parte das ações previstas não são realizadas por esses dois fatores”, protesta.

Exoneração “política” de Chalito motivou protestos
Na manhã do dia 4 de abril, representantes de sindicatos, associações de moradores dos assentamentos de Santarém e movimentos sociais ocuparam a sede da SR-30 em protesto contra a exoneração de Claudinei Chalito. “A exoneração do Claudinei Chalito foi completamente sem critério. Nós tememos muito os acordos que estão por trás desta indicação política, que podem ter interesses de madeireiros, latifundiários, grileiros e mineradoras”, afirmou no dia Lígia Fernandes, representante de uma das associações de assentados. No dia 30 de março, quando foi publicada a exoneração de Chalito no Diário Oficial da União, mais de 60 organizações da região divulgaram uma nota de apoio à gestão dele.

Movimentos ocupam a sede da SR-30 em protesto contra a exoneração de Chalito (Foto: Ascom/Terra de Direitos)

“Fico feliz de ter deixado um GT de regularização fundiária junto com o MPF para rever a situação daqueles assentamentos que foram alvo da ação dos ‘assentamentos de papel’ e também que conseguimos formalizar a Ouvidoria Agrária Regional, que vai conseguir mapear melhor a questão da violência da região. Mas infelizmente fomos surpreendidos por essa exoneração”, afirma Claudinei Chalito, que retomará suas funções no Incra do Paraná.

*Matéria da Agência Pública publicada originalmente em 03 de maio de 2016, como parte do Especial Amazônia em disputa