Os conflitos por terra
aumentaram nas últimas semanas no município de Anapu, no Pará. De acordo com
denúncia enviada pela Comissão Pastoral da Terra, CPT, 250 famílias que ocupam
há mais de dez anos uma área conhecida como Mata Preta estão sendo expulsas do
local sob ameaça. A ordem teria partido do homem que reivindica a propriedade
da terra.
Os lotes estão no terreno da
Gleba Pública Federal Bacajá, em Anapu. O local é o mesmo onde há 11 anos a
missionária Dorothy Stang foi assassinada.
De 2015 para cá outras seis pessoas foram mortas em crimes que podem estar
ligados às disputas por terra na região.
Marcial Mota, Ouvidor Agrário Regional, afirmou que na semana passada foi até a
região para averiguar a situação. Durante a inspeção, a Ouvidoria encontrou
homens reunidos na sede da Fazenda Santa Helena, que fica dentro da gleba, mas
nenhum armamento foi localizado.
Por conta de novas denúncias, nessa terça-feira (26), o ouvidor agrário voltou
para o local, acompanhado da Patrulha Rural. Segundo informações das famílias,
a escola pública municipal que atende os moradores da Mata Preta também corre o
risco de ser destruída.
De acordo com a CPT, homens armados ameaçam os moradores.
A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará informou que reforçou
o policiamento na área. Acrescentou que vai instaurar inquéritos, na Delegacia
de Conflitos Agrários de Marabá, para apurar fatos que venham a ser registrados
em lotes da Mata Preta.
Esse mês o programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, abordou os conflitos
que envolvem a posse da terra em Anapu. Para conferir a reportagem “Um sonho: A
terra”, que traz depoimentos de pessoas que vivem sob ameaça na região.
Pedido
foi encaminhado ao Ministério da Justiça para conter conflito na região da Mata
Preta, onde pistoleiros estariam ameaçando trabalhadores rurais A
Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) solicitou nesta
quarta-feira, 27 de julho, ao Ministério da Justiça e da Cidadania o
deslocamento de integrantes da Força Nacional de Segurança Pública para a
região da Mata Preta, no município de Anapu, no Pará.
A
presença da Força Nacional tem como objetivo auxiliar a conter a grave situação
de violência na região – alvo de disputa entre trabalhadores rurais e supostos
proprietários. De acordo com as informações da Ouvidoria Agrária, há um quadro
de forte conflito na região, com presença de “pistoleiros” e ameaças a
trabalhadores rurais para que deixem as terras que ocupam. Não há mandado
judicial de reintegração de posse nas áreas de conflito.
Na
solicitação encaminhada ao Ministério da Justiça, a procuradora federal dos
Direitos do Cidadão, Deborah Duprat, solicita a constituição de uma
força-tarefa, em caráter de urgência, com objetivo de ocupar a região e
garantir a segurança e integridade física das famílias.
Resistir à construção de
hidrelétricas nos rios amazônicos é buscar outra forma de se viver e de se
relacionar com a natureza. Há, por isso, algo de muito poético em se lutar pela
liberdade de um rio. O poeta João Cabral de Melo Neto ensina que quando um rio
corta-se, corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia. E um rio
interrompido equivale a uma palavra em situação dicionária, muda, nada
comunica. Os rios, assim como as palavras, precisam estar livres para comporem
uma poesia.
Por vezes, a nossa
resistência assume uma feição tão profissional que nos tornamos insensíveis a
essa dimensão poética e deixamos de perceber que nada é tão potente quanto o
amor e a poesia para nos mover em nossas lutas. A propósito das resistências em
defesa dos rios amazônicos, dedico as próximas linhas a refletir sobre o valor
das emoções nas lutas que travamos diariamente.
Fotografia: Casa na comunidade tradicional Aritapera, rio Amazonas. Foto: Rodrigo Oliveira.
Em uma de suas palestras
sobre a Hidrelétrica
de Belo Monte, Lúcio Flávio Pinto, renomado jornalista que se consagrou na
cobertura da Amazônia, provocou seus interlocutores: “o amor ao rio não é capaz
parar uma hidrelétrica”. A fala foi dirigida a uma classe média universitária e
tentou chamar atenção para a necessidade de respaldarmos nossas críticas no
conhecimento científico. Suponho que também seja uma crítica ao “tom passional
do debate” e às palavras de ordem. Mas qual é o sentido dessa oposição entre
resistência e amor? Quais são os perigos do discurso cientificista?
O uso da ciência é uma
estratégia recorrente no campo socioambiental. Diferentes grupos mobilizam o
discurso científico, seja para tecer a crítica ou para forjar a legitimação de
empreendimentos. A ciência, sem dúvida, desempenha um papel importante na
produção de informação sobre riscos e impactos, e na formação do convencimento
da população. Deve-se evitar, no entanto, cair na armadilha de crer que a
ciência seja o aspecto central da disputa. Henri Lefebvre nos alerta que o
perigo está em acreditar que a “ciência está na vida”, ao passo que as decisões
centrais são política e economicamente condicionadas.
As milhares de páginas de
livros e artigos dedicadas a criticar a Hidrelétrica de Belo Monte não
pareceram suficientes para arrefecer o ímpeto estatal em barrar o rio Xingu.
Com a barragem em operação, restou a saudade do rio amputado aos povos da Volta
Grande do Xingu, a indignação às famílias que foram expulsas de suas casas, e a
angústia da invisibilidade aos ribeirinhos. Hoje, travam uma luta árdua na
tentativa de reduzir seu sofrimento e minimizar os danos. Não se pode negar a
importância da emoção na construção da resistência.
Por outro lado, a provocação
do jornalista minimiza a importância das múltiplas formas de se relacionar com
os rios e com a natureza, que precisam e devem se expressar na arena pública.
Exigir que a crítica seja construída em termos “cientificamente admissíveis” é
reforçar as expertises de burocratas, cientistas e acadêmicos em detrimento do
conhecimento tradicional dos grupos etnicamente diferenciados. É a recusa
epistemológica da experiência enquanto forma de descrever, analisar e se
apropriar da natureza.
Não nego que a universidade
tenha, sim, o dever de produzir ciência e qualificar o debate crítico, mas é
chegada a hora de abrir o horizonte das possibilidades e de ter a humildade de
reconhecer que talvez o que falte à universidade seja justamente se aproximar
dos grupos a que ela historicamente fechou as portas. As ações afirmativas
representam avanço, mas não basta abrir as portas aos sujeitos, é preciso
respeitar e valorizar os conhecimentos que eles produzem e carregam consigo.
Este intercâmbio transcultural com os povos tradicionais não é apenas
desejável, mas urgente, como aponta o filósofo argentino Enrique
Dussel, pois é a única maneira de salvar a humanidade do suicídio coletivo
que representa a aniquilação das condições ambientais.
Há anos penso em responder
ao jornalista. Mas só consegui levar adiante a ousadia após me mudar para
Santarém, às margens do rio Tapajós. Viver aqui é uma experiência de
encantamento diário. Tomar banho em suas águas azuis, contemplar diariamente o
por do sol, embalar-se ao som ritmado dos motores das embarcações que se perdem
no horizonte, assistir os pescadores se avizinhando pela manhã, escutar as
narrativas de suas gentes... mas nada emociona tanto quanto observar a relação
de afeto dos povos com o rio, que lhes proporciona autonomia (comida,
transporte, renda), sem nunca pedir nada em troca.
Fotografia 02: Amanhecer na aldeia Takuara, rio Tapajós. Foto: Rodrigo Oliveira.
O rio Tapajós é uma das regiões
mais diversas do mundo, cultural e socialmente. É morada de dezenas de povos
indígenas, comunidades afrobrasileiras e tradicionais. No entanto, a região
está sob ameaça. Se outrora a bacia do rio Tapajós despertou a cobiça em razão
da borracha e do garimpo de ouro, atualmente ela está na mira de um arrojado
plano logístico e de infraestrutura. São planejadas hidrelétricas, portos,
rodovias, ferrovias, exploração minerária e florestal.
A concretização destes
projetos significaria uma alteração profunda nas formas de se viver na região.
Estou convencido de que não serão os cientistas ou acadêmicos que oferecerão a
resistência necessária ao avanço da fronteira capitalista sobre o rio Tapajós,
mas os povos indígenas e comunidades tradicionais, cujos modos de viver
representam uma alternativa ao projeto que está sendo imposto; cujo amor ao rio
sinaliza a disposição em seguir lutando até o fim, se preciso for.
Quisera ser capaz de
expressar em palavras o que é viver no rio Tapajós, assim conseguiria convencer
os leitores mais indiferentes ou longínquos a embarcarem nesta luta, para que a
que a nossa ciência não negue o afeto ou menospreze a sensibilidade, para que a
luta não nos embruteça, para que a tragédia do Xingu não nos baixe a cabeça,
para que a nossa resistência se faça com poesia, para que o amor nos mova e nos
una em defesa dos nossos rios, para que esta ode ao Tapajós não se transforme
em uma elegia.
* Rodrigo Oliveira é Mestre em Direitos Humanos pela Universidade Federal do Pará e assessor do Ministério Público Federal em Santarém, Pará. Publicado originalmente em inglês, espanhol e português no sítio Amphibious Accounts: Human Rights Stories from the Global South
Na última semana (10 a 17 de
julho), o sítio e o jornal O Estado de São Paulo trouxe uma série especial de reportagens,
que expõe a violência enraizada em várias partes do interior do país, nos estados
de Mato Grosso, Amazonas, Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará, Rondônia e
Tocantins.
Entre setembro de 2015 e março
deste ano, o Estado percorreu 15 mil quilômetros de estradas federais
e trilhou um mapa ignorado pelo governo federal, num universo composto por
tortura, incineração de corpos, chuvas de veneno, suicídios de índios,
violência contra mulheres, ônibus escolares na mira de fuzis, esquema de venda
de licenças, pistolagem paga por planos de manejo e tabelas de execuções.
O preço do hectare e da
madeira acirra a concorrência entre guaxebas, tradicionais matadores de
aluguel, e catingas, milicianos que surgem no mercado do terror. A repercussão
da chacina de Eldorado do Carajás, em que 19 camponeses foram mortos há 20 anos
no Pará, não puxou para baixo a curva da barbárie. O cruzamento de acervos do
poder público e de entidades da sociedade civil revela que pelo menos 1.309
pessoas foram mortas em conflitos rurais no Brasil desde 1996. É como se um
massacre da mesma proporção ocorresse a cada 100 dias. O número de assassinatos
equivale ao volume de árvores cortadas na Amazônia a cada 30 segundos,
ininterruptamente, nas duas últimas décadas. A lista dos mortos inclui a
geração nascida em agrovilas fracassadas, canteiros de obras inacabadas e
aldeias sufocadas no tempo do Brasil Grande, projeto de desenvolvimento da
ditadura militar.
Trata-se de um levantamento
inédito de assassinatos em conflitos rurais por terras e madeira. Eles ocorrem
geralmente em áreas afastadas, onde não há proteção institucional ou apoio da
rede de advogados ligados à questão do campo. As vítimas são, em sua maioria,
pequenos agricultores e índios, mas também há fazendeiros, seguranças e
pistoleiros. Parte considerável dos assassinatos é cometida por grileiros e
grandes proprietários de terra. Os dados apontam que 97% das mortes são de
camponeses e indígenas.
Os principais caminhos
escolhidos pela reportagem foram traçados ainda no regime militar e se
transformaram em canteiros de obras do governo federal. Rotas da investigação,
as BRs 060, 070, 364, 163, 230, 242, 319, 158 e 155 foram desenhadas sobre
antigos caminhos de bandeiras e monções que partiam do litoral para a conquista
do interior no século 17.
O material divulgado pelo
Estado, além de possuir detalhado levantamento de campo, trás fotografias de
Dida Sampaio e Hélvio Romero, além de gráficos, vídeos e mapas interativos que
completam e ilustram o texto de André Borges e Leonencio Nossa.
Na defesa da floresta, os
extrativistas Éder Chaves Dias e João Coelho tentam impedir a passagem de
invasores pelo Vale do Jamari, em Rondônia. Estão marcados para morrer. Como
eles, há centenas de outros na lista do crime organizado que avança sobre as
terras da União rumo à Amazônia, maior reserva tropical do planeta. Ao mapear a
grilagem em sete Estados do Norte e Centro-Oeste do País, o Estado identificou
482 focos ativos de tensão e violência conflagrados sob incentivo dos últimos
governos e do Judiciário em 143 municípios, uma realidade descolada das
mudanças de poder na política nacional.
Uma bandeira do Movimento
dos Sem-Terra (MST) foi estendida na entrada da Fazenda União Recanto Cinco
Estrelas, uma terra da União em Novo Mundo, Mato Grosso. É um disfarce. Os
homens armados que vigiam a área de 9,6 mil hectares, uma área três vezes maior
que a do centro da cidade de São Paulo, são milicianos, os chamados catingas,
pagos por fazendeiros, advogados, topógrafos e servidores das prefeituras da
região para ocupar a fazenda, que estava para virar um assentamento do Incra.
O fazendeiro Carlos Raposo,
de Nova Guarita, norte de Mato Grosso, contratou uma empresa aérea para lançar
agrotóxico nas terras de famílias do Assentamento Raimundo Vieira III, vizinho
de sua propriedade. Ele ainda é acusado de intimidações e quebra de cercas. Os
assentados cortavam palha de fazer vassoura quando viram um avião amarelo com
letras azuis se aproximar no céu, em voo baixo. Pensaram que era uma aeronave
da Polícia Federal, que vinha resolver os “problemas”. O avião passou por eles,
adiante aumentou a altitude e deu novo rasante. Daí veio um cheiro forte. “É
veneno”, gritaram Rudinei Ribeiro, de 36 anos, e a mulher dele, Creuza da Silva
Dutra, de 49. O aparelho despejou agrotóxico nos agricultores, nos telhados das
casas e nas plantações.
Em Eldorado do Carajás, no
Pará, as covas das 19 vítimas do massacre ocorrido duas décadas atrás viraram
miragem. Firmas de segurança atuam como milícias, contratadas para proteger
grileiros. Do massacre até hoje, 197 pessoas foram assassinadas em conflitos no
sudeste e sul do Pará. Um dos focos de tensão fica a 40 quilômetros da Curva do
S. Famílias de sem-terra disputam a posse da Fazenda Cedro, de 8,3 mil
hectares, sendo 80% da União. Histórias de terror marcam o Acampamento Helenira
Resende, nome de uma guerrilheira morta pelo Exército em 1972. Ali vivem 450
famílias. A maioria dos adultos trabalha como peão e consertador de cercas nas
fazendas próximas.
A repercussão do assassinato
da missionária americana Dorothy Mae Stang, em Anapu (PA), em 2005, tornou-se
uma barreira ao avanço de madeireiros no rumo do oeste da Amazônia. O crime
organizado continua, no entanto, matando defensores da floresta. Para camuflar
os homicídios, pistoleiros executam vítimas em ruas e bares de pequenas cidades
da região. Colega de Dorothy, a também missionária americana Jane Dwyer aponta
sete mortes por conflito de terra e madeira ocorridas em Anapu no ano passado.
Ela rejeita a versão da Polícia Civil, que investiga apenas uma morte no
período causada por disputa no campo. "Eles inventam. Matar na cidade é
estratégico. Dizem que é por causa de mulher, bebida, vingança. Não é. É por
terra.”
No dia 5 de dezembro de
2014, uma sexta-feira, um registro inusual apareceu na tela do sistema de
Documento de Origem Florestal (DOF) do Ibama, programa utilizado pelos Estados
para oficializar processos de extração de madeira em todo o País. Com apenas um
clique, a Secretaria Ambiental de Rondônia havia liberado uma “autorização de
exploração florestal” (Autex) para a derrubada de 17.613 metros cúbicos
madeira, em benefício de Paulo Firmino da Silva. Era um volume abissal. Em
condições normais, essas autorizações costumam envolver quantidades bem
menores, algo em torno de 3 mil ou 4 mil metros cúbicos. A retirada de toda
aquela madeira, que seria feita em uma única área de “plano de manejo florestal
sustentável”, equivalia a enfileirar 880 caminhões abarrotados de toras. Mas o
problema não era só a dimensão do pedido, e sim como e por quem foi liberado.
Da Serra do Roncador (MT) à
Ilha do Bananal (TO), o gado avança sobre áreas sensíveis de Cerrado e
floresta. Sopés dos grandes granitos do norte do Mato Grosso e terras da maior
ilha fluvial do mundo viraram pasto. Embora seja proibido criar gado em área
indígena, na reserva dos carajás, no Tocantins, fazendeiros já mantêm mais de
93 mil cabeças de gado. Pressionados pela ocupação descontrolada do solo,
índios passaram a fazer parte do negócio, arrendando terras para invasores que
pagam pequenas quantias para ter acesso à ilhabanhada pelos Rios Araguaia e
Javaés. Vice-cacique da Aldeia Santa Isabel do Morro, onde vivem 900 índios,
Txiarawa Karajá conta que a tribo recebe de R$ 30 mil a R$ 40 mil por ano para
não impor resistência. O dinheiro, rateado entre 15 fazendeiros, é repassado
aos índios em duas parcelas. “A gente sabe que não é legal, mas aceita essa
situação porque precisa do recurso. Eu acho que é pouco, não dá para resolver
nada. Mas, como a Funai não tem dinheiro, precisamos fazer isso.”
Os tratores se movimentam
entre a plantação e um pedaço de mata na Fazenda Brasília do Sul, em Juti, a
320 km de Campo Grande (MS). A poucos metros dali, uma família guarani-caiová,
acampada num canto da propriedade, tenta se concentrar nas orações diante de
uma cova improvisada. Duas semanas antes, Virgílio Veron, de 47 anos, cometeu
suicídio ao saber que a Justiça havia determinado nova retirada dos índios. A
possível chegada de tropas para despejar as famílias deixou a comunidade em
estado de tensão. Naqueles dias, Virgílio não escondia o temor. “Ele não
conseguia dormir ou comer. Deixou seis filhos, não suportou”, diz Valdelice
Veron, sua prima.
Homens armados em quatro
caminhonetes e um trator atacaram violentamente os indígenas Guarani e Kaiowa
acampados no tekoha Guapoy, na Terra Indígena (TI) Dourados-Amambaipeguá I, na
noite desta segunda, 11, no município de Caarapó (MS), no mesmo local onde foi assassinado o agente de saúde
Clodiodi de Souza no mês passado.
Três pessoas foram atingidas por tiros de
armas de fogo: um adulto de 32 anos e dois jovens, um de 15 e outro de 17 anos.
Um deles está em estado grave, e ainda não foram encaminhados para o hospital.
O ataque ocorreu sob a presença na região da Força Nacional de Segurança.
Este não é o primeiro ataque
contra Guapoy. Em 19 de
junho, indígenas relataram ter sido atacados a tiros por homens em
caminhonetes, mas ninguém havia ficado ferido.
O último ataque, contudo,
foi mais violento. Os Kaiowa relatam que, por volta das 9 da noite de segunda,
11, as famílias do Guapoy estavam dançando guaxiré e rezando, quando
visualizaram um trator do tipo pá-carregadeira e quatro caminhonetes rondando a
área do equipamento, além de sons de disparos.
Cerca de uma hora depois, os
veículos se aproximaram do acampamento. “Eles vinham bem devagarzinho. Na
frente, a ‘concha’ [trator] com os faróis acesos. Atrás, as caminhonetes, de
luzesapagadas. Aí eles começaram a gritaram ‘sai daí, seus vagabundos!’, e
vinham na nossa direção”, relata C., um dos sobreviventes.
“Aí desligou as luzes da
‘concha’, e ligou das caminhonetes. Foi aí que dois homens dentro da ‘concha’
apareceram e começaram a atirar, e outros das caminhonetes também saíram
atirando, e a gente saiu tudo correndo”, continua outro indígena, R., também
atingido pelos tiros.
No ataque, três indígenas –
um adulto, O., de 32 anos, e dos menores de idade – C., de 17, e R., de 15 anos
– foram atingidos por tiros. O. levou um tiro que atravessou seu braço, e R.
levou um tiro no joelho. O tiro que atingiu C. atravessou seu braço e também o
tronco – a bala agora está alojada no tórax, e ele corre risco de complicações.
E não se trata de munição de borracha.
As duas afirmações – sobre o
estado de saúde e o tipo de munição que atingiu os indígenas – vem da equipe
médica do posto de saúde da reserva Tey’ikue, onde estão sendo atendidos os
indígenas, na manhã desta terça, 12. Segundo eles, os projéteis que atingiram
os indígenas aparenta ser ao menos de calibre 38. C. apresenta sinais de
atelectasia e precisa ser levado a um hospital com urgência.
Indígenas que sofreram o
ataque afirmam reconhecer ao menos quatro dos homens que os atacaram à noite
como proprietários e funcionários de fazendas da região.
Caminhos da
Reportagem (TV Brasil) relembra os conflitos que envolvem a posse da terra em
Anapu (PA), onde a missionária Dorothy Stang foi morta a mando de fazendeiros,
há onze anos.
Os religiosos que dão continuidade ao trabalho de
Dorothy, em defesa da reforma agrária, vivem sob ameaça. Padre Amaro (José Amaro Lopes de Sousa), um dos
entrevistados do programa, é considerado pela ouvidoria agrária nacional o defensor de direitos humanos mais ameaçado do Brasil.
Em 2015, segundo a Comissão
Pastoral da Terra, sete pessoas envolvidas na luta pela reforma
agrária foram assassinadas em Anapu entre julho e novembro. Um deles foi Zé da Lapada, líder de um grupo de trabalhadores
sem-terra. Em um vídeo inédito, gravado um mês antes de sua morte, ele comenta
a presença de pistoleiros na região.
Várias lideranças das famílias acampadas nas
estradas, ao longo da cerca das fazendas, relatam as mazelas de quem espera a
desapropriação dos lotes vendidos pelo governo militar a partir dos anos 70, ao
redor da rodovia Transamazônica. A aquisição dos terrenos se dava por meio dos
Contratos de Alienação de Terras Públicas, que exigiam investimentos que tornassem
a área produtiva. De acordo com o procurador da república Felício Pontes, as condições não foram cumpridas dentro
do prazo e, portanto, os lotes devem ser considerados propriedade da União, na
maioria dos casos
Caminhos da Reportagem ouve
supostos donos de terra cujos títulos estão sendo analisados pelo Incra.
Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Anapu, Silvério Fernandesacusa os acampados de causar
danos às propriedades e confirma ações conjuntas de fazendeiros para proteger
os lotes. “Enquanto tivermos recursos e nós pudermos defender o que é nosso,
vamos defender sim, porque quem não defende o que é seu não merece ser dono.”
Entre as medidas para tentar resolver os conflitos
está a patrulha rural. Mas ainda não é suficiente, de acordo com pesquisadores
e autoridades entrevistados pelo programa. Eles cobram mais ações do Estado
para combater a violência no campo.
Reportagem:Ana Graziela Aguiar Imagens:Rogério Verçoza Auxílio
técnico:Daílton Matos Apoio
às imagens:Edivan Viana, Sigmar Gonçalves Produção:Beatriz Abreu, Pollyane Marques Edição
de texto:Ana Maria Passos, Flávia Lima Edição
de imagem:Henrique Correa, Márcio Stucket Arte:André Maciel Agradecimentos:Flávio Pachalski, Ivan Marx
Terra Indígena Alto Turiaçu. Desmatamento acumulado no entorno da TI até 2014
Por: Tatiane Klein e Victor
Pires*
Lutando
para proteger a Terra Indígena Alto Turiaçu (MA) do assédio de madeireiros e
fazendeiros, o povo indígena Ka’apor teve um líder assassinado, em 2015.
Agora, Iraúna Ka’apor, de apenas 14 anos, desapareceu. Ela foi
vista pela última vez em um acampamento de madeireiros
Há
meses, o povo indígena Ka’apor, que vive em uma das últimas fronteiras
florestais do estado do Maranhão, enfrenta um novo drama. Depois de ver o
líder Eusébio Ka’apor assassinado, em abril de 2015, por lutar contra a
exploração ilegal de madeira na Terra Indígena (TI) Alto Turiaçu, as
comunidades agora tentam descobrir o paradeiro de uma jovem de 14 anos,
desaparecida desde fevereiro de 2016 e avistada pela última vez em um
acampamento madeireiro no Pará.
O
sequestro da jovem Iraúna, que vivia na aldeia Axiguirendá, levou o Conselho
Estadual de Direitos da Criança e do Adolescente do Maranhão a espalhar
cartazes por todo o município de Centro do Guilherme, no noroeste do Maranhão,
onde estão localizadas várias madeireiras e serrarias, abastecidas por madeira
de alto valor comercial extraída ilegalmente da TI. Todos os cartazes sumiram,
assim como Iraúna.
Essa
e outras graves violências compõem uma denúncia apresentada no dia 24 de junho
ao Ibama, ao Ministério Público Federal no Maranhão e à Polícia Federal pela
ONG Greenpeace. Segundo o documento, a região vive clima de guerra, fomentado
pelo aumento das ameaças de madeireiros e fazendeiros aos Ka’apor. Graças a
ações autônomas de proteção à terra, os índios já conseguiram fechar 24 ramais
de exploração madeireira abertos ilegalmente e criar sete “áreas indígenas de
proteção” no interior da TI.
O
desaparecimento da jovem já havia sido denunciado pelos Ka’apor em uma nota
divulgada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em abril deste ano. Mas
de abril até agora, segundo um dos indígenas que compõe o Conselho de Gestão
Ka’apor, nenhuma medida foi tomada (confira a entrevista completa abaixo).
A
situação também foi denunciada pela ONG Global Witness, que acaba de lançar um
relatório, mostrando que, em 2015, o Brasil foi o país com maior número de
ambientalistas assassinados. O documento destaca a morte de Raimundo dos Santos
Rodrigues, um dos defensores da Reserva Biológica do Gurupi, próxima à TI Alto
Turiaçu.
Crimes sem castigo
Procurada
pela reportagem do ISA, a assessoria de imprensa da Polícia Federal no Maranhão
afirma que as informações não haviam chegado formalmente à delegacia
responsável. “Chegando, será instaurado inquérito policial e tomadas as medidas
investigatórias cabíveis para apurar eventuais crimes praticados contra os
indígenas”, alega. Já o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) informa
que tem realizado ações de combate ao desmatamento ilegal no estado do
Maranhão, mas não pode comentar sobre eventuais investigações em curso.
Em
entrevista ao ISA, o procurador da República no estado do Maranhão Alexandre
Silva Soares explica que, assim que recebida, a denúncia do Greenpeace foi
encaminhada à Superintendência de Polícia Federal, mas até o fechamento desta reportagem
o ofício não havia sido respondido. Soares também informa que já tinha
conhecimento do conteúdo das denúncias e que outras já haviam sido encaminhadas
pelo MPF, ensejando operações de fiscalização feitas pelo Ibama e PF.
Ainda
segundo o procurador, correm em segredo de Justiça duas ações civis públicas
questionando a ausência de proteção da área pelo Poder Público. Em 2014, a
Justiça Federal condenou o Ibama, Funai e União a apresentar um plano de
fiscalização das Tis Alto Turiaçu, Awa e Caru no prazo de 120 dias – o que não
foi efetivado. “Sem a ocupação dessas áreas por agentes do Estado brasileiro,
essas áreas ficam desprotegidas”, avalia Soares.
Trabalhando
há oito anos com os Ka’apor, o antropólogo José Mendes avalia que os órgãos
governamentais, especialmente os do Maranhão, têm sido omissos com relação às
ameaças aos indígenas. O Programa de Defensores de Direitos Humanos, da
Secretaria de Direitos da Presidência da República, também já foi acionado
inúmeras vezes, mas, segundo Mendes, os Ka’apor ainda não foram incluídos nele.
Ações próprias
A
região já foi alvo de diversas operações do Ibama e da PF, como Hiléia Pátria,
Nuvem Preta e Lignum, fechando serrarias e madeireiras. Mas, na opinião dos
pesquisadores e dos Ka’apor, elas surtem pouco efeito para coibir esses crimes.
Por isso, a partir de outubro de 2013, os indígenas fortaleceram suas próprias
ações de proteção e fiscalização do território. Hoje, os antigos ramais de
exploração ilegal de madeira se tornaram kaar husak ha, como são chamadas as
“áreas protegidas” na língua Ka’apor, onde vivem entre seis e oito famílias
indígenas. Por conta da intensificação das ameaças, revela o Greenpeace, essas
famílias estão proibidas de circular pelas estradas que cortam a TI e que levam
às vilas.
Segundo
Mendes, Iraúna foi provavelmente abordada em uma dessas estradas, no caminho
entre a Axiguirendá e o município de Centro do Guilherme. “Além de ser
adolescente, [Iraúna] não fala português. As pessoas suspeitam que ela tenha
sido abordada em um povoado chamado Nadir, a dois ou três quilômetros do limite
da TI, onde existe um histórico de garimpo, de usuários de drogas e de
plantação de maconha. E a maioria dos envolvidos nesses ilícitos também está
envolvido na [extração ilegal] madeira”, denuncia Mendes.
“Esse
trabalho de coibir a invasão realizado pelos Ka’apor é um dos motivos que vem
levando a ameaças e à escalada de violência”, avalia Rômulo Batista, que é
pesquisador do Greenpeace e esteve na área recentemente. Mendes concorda. Após
o fechamento de um dos principais ramais de extração de madeira, em outubro de
2014, passou a circular pelas vilas da região uma lista com nomes de oito
lideranças indígenas ameaçadas de morte. No início de 2016, foram os Ka’apor
que elaboraram uma lista, entregue ao MPF, denunciando os nomes de madeireiros,
fazendeiros, pistoleiros e traficantes ou pessoas aliciadas por eles,
envolvidos em invasões de aldeias e agressões aos indígenas.
Décadas de ameaças
Na
região do Gurupi, a TI Alto Turiaçu compõe um conjunto de Terras Indígenas e
Unidades de Conservação contíguas que faz a transição da floresta amazônica
maranhense para áreas de Cerrado e Caatinga, onde há décadas o povo Ka’apor
sofre com atos de violência perpetrados por madeireiros e fazendeiros. E a
extração ilegal de madeira não fica restrita a essa TI, ocorrendo em toda a
região, onde estão as Tis Alto Rio Guamá, Awa e Caru, além da Reserva Biológica
do Gurupi. Todas essas Terras Indígenas já chegaram ao último estágio do
processo de demarcação, a homologação.
As
ações dos indígenas para retirar os invasores de suas terras levaram a outros
graves ataques em anos recentes. Em 16 de maio de 2010, Hubinet Ka’apor, 38
anos, foi brutalmente assassinado por madeireiros; em março do ano seguinte,
Tazirã Ka’apor, de 20 anos, também foi morto. Reportagens compiladas pelo
Sistema de Áreas Protegidas do ISA mostram que, pelo menos desde a década de
1970, os índios no Maranhão enfrentam ataques. Em 1979, por exemplo, cinco
indígenas Awá-Guaja foram mortos por envenenamento. Apesar de recorrentes
operações de fiscalização, amplamente noticiadas pela imprensa, invasões e
ataques sempre voltam a ocorrer (confira na linha do tempo abaixo).
Mais
recentemente, no final de 2015, um incêndio de grandes proporções atingiu as
Tis Alto Turiaçu, Awa e Caru. Centenas de Guajá e cerca de 60 indígenas
isolados ficaram em situação de risco. As suspeitas são de que o fogo teve
origem criminosa, represália de madeireiros após uma operação de fiscalização
contra a venda ilegal de madeira.
Os
especialistas são unânimes em apontar que as operações de fiscalização são
insuficientes, ainda mais numa região onde a perseguição contra quem defende o
meio ambiente não é a única mazela e o poder público praticamente inexiste: “A
falta de uma política efetiva de proteção territorial das TI e Ucs faz com que,
após as operações, o modus operandi dos madeireiros se repita”, critica
Batista.Para o procurador Alexandre
Soares, as ações de repressão são superadas pela lógica econômica da região: “A
questão não é apenas um caso de polícia, é também social e econômico. O
problema é que a economia da região gira em torno da economia ilegal. Temos que
atacar não somente esses agentes que atuam na extração ilegal de madeira, mas
também de propiciar meios dessas pessoas se inserirem no mercado de trabalho de
atividades lícitas”, afirma.
“São
os pequenos se conflitando. São os indígenas e aquelas pessoas que vivem da
agricultura familiar. Quem não vive da agricultura familiar, é aliciado pela
exploração de madeira ilegal”, aponta o antropólogo José Mendes, pontuando que
logo após as fiscalizações e apreensões feitas pelo Ibama, as madeireiras e
serrarias quase sempre voltam a funcionar. “Não existe vontade política. Só
existe um interesse muito grande dos indígenas em proteger esse território e
eles têm nos dado grandes lições de como viver mantendo a floresta em pé. Os
Ka’apor estão fazendo um grande bem para a sociedade”, conclui.
“A gente protege a mata e ela dá comida para gente”
O
ISA entrevistou um dos membros do Conselho de Gestão Ka’apor, que preferiu não
se identificar. Ele fala da realidade vivida pelas mais de 1,8 mil
pessoas que vivem hoje na TI Alto Turiaçu, em dez aldeias do povo Ka’apor e uma
do povo Guajá
Instituto Socioambiental – Como está a situação na TI Alto Turiaçu agora?
I.
A gente continua sendo ameaçado. Principalmente, nas áreas de proteção Ka’apor.
Não podemos ficar andando pelas cidades. Lideranças das áreas de proteção estão
sendo impedidas de sair. Me perseguiram de moto esses dias. Falam meu nome e de
outras pessoas nas cidades. Em duas áreas de proteção ficam oferecendo bebidas
para indígenas. Há dois meses, levaram Irauna Ka’apor, de 14 anos. A Polícia
Civil e Militar do Maranhão não fizeram nada.
ISA – No começo da semana passada, o Greenpeace protocolou uma denúncia
na PF, MPF e Ibama sobre a situação. Alguma medida já foi tomada?
I.
– Enviamos documento para o MPF com nome de agressores, dos donos de bares,
madeireiros nas entradas das aldeias. O procurador falou que passou para a
Polícia Federal, Ibama e Funai, mas não fizeram nada. Greenpeace é nosso
apoiador. Estiveram com a gente nas aldeias e viram a situação. Mandaram
documento para MPF e os órgãos não fizeram nada. Este final de semana, na
entrada da aldeia Ximborenda, município de Maranhãozinho, num povoado chamado
Buraco do Tatu – perto de onde mataram Eusebio Ka’apor – foram vistas pessoas
armadas bebendo nos bares e, ontem, roubaram a moto de um indígena. Fizemos
denúncia na delegacia de Santa Luzia do Paruá.
ISA – Desde quando essa pressão acontece?
I.
– A pressão aumentou depois que nos fizemos nossa assembleia em 2013 e
decidimos proteger juntos nosso território. Fizemos um acordo de convivência
interno para a vivência dentro do nosso território, como não deixar branco
entrar sem permissão do Conselho de Gestão Ka’apor. Nosso povo de todas as
aldeias se uniu, fortalecemos nossa vigilância do território em grupos em
várias partes do território. Entramos e fechamos os principais ramais de
madeireiros. São sete áreas de proteção. Temos uma guarda agroflorestal, desde
2014, que coordena a vigilância e proteção territorial e dá apoio a nossas
áreas de proteção.
ISA – Alguém presenciou o sequestro da Irauna Ka’apor? Como está a
família dela?
I.
Ninguém da aldeia viu quando ela foi levada. A família está muito triste na
aldeia. O Conselho de Gestão Ka’apor está acompanhando isso junto com MPF.
Estamos preocupados porque são quase três meses e ninguém deu notícias. O
governo do Maranhão não faz nada aqui na região. Nunca fez pra proteger nosso
território e as pessoas. Tem muito roubo nas cidades. Nosso Conselho de Gestão,
nossos guardas florestais e quem apoia a gente aqui no trabalho estão sendo
muito perseguidos. Eles querem matar a gente. O assassino de Eusébio tá solto
aqui em Santa Luzia do Paruá. A Polícia não faz nada.
ISA – E essas ameaças estão sendo só contra os Ka’apor ou também contra
os outros povos que vivem na região?
I.
– Aqui só moram os Ka’apor e um grupo Guajá bem pequeno, mas eles ficam mais
protegidos, porque os Ka’apor moram perto dos limites. Nossa terra tem 530.524
hectares, pega seis municípios de nossa região, na divisa com o Pará. Tem
perseguição também contra os quilombolas. Como a gente não deixou madeireiros
entrar aqui, eles estão tirando madeira do território dos quilombolas. E tiram
também da Reserva Biológica do Gurupi.
ISA – Vocês conseguiram afastar todos os invasores na Terra Indígena Alto
Turiaçu?
I.
– As áreas são afastadas das cidades. Fica longe, de 35 km pra frente.
Não são perto da cidade. Estradas [são] ruins. Agora, não tem
madeireiro dentro porque estamos dia e noite espalhados nos limites, fazendo
vigilância. Por isso querem matar os guardas e as lideranças. Só
[tem] caçador e capoeiras. Hoje, nosso povo tem mais saúde. Tem
mais comida. Onde tinha sido derrubado, está se recuperando. As
caças não escutam barulho de motosserra. Temos mais caça. A gente
protege a mata e ela dá comida pra gente.
O
Instiuto Socioambiental publicou uma série de matérias com balanços da política
territorial do governo Dilma, nos últimos seis anos. As análises tratam das Terras Indígenas, Unidades de Conservação do
meio ambiente, Territórios Quilombolas e Assentamentos de Reforma Agrária.
O
governo da presidente afastada Dilma Rousseff é frequentemente criticado por
ser um dos que menos fez nestas áreas. Os números confirmam essa realidade. A
paralisação na criação e reconhecimento, segundo os especialistas, guarda relação
direta com os acordos firmados por Dilma com sua base parlamentar fortemente
ruralista.
O balanço
negativo nestas áreas pode ser conferido a seguir:
Os
dados não deixam dúvidas: no governo de Dilma Rousseff, apenas 21 TIs foram
homologadas, 25 TIs foram declaradas e 44 TIs foram identificadas e delimitadas
– segundo dados monitorados pelo ISA. O processo de demarcação de TIs é
complexo e demorado, envolvendo várias etapas e órgãos, desde a Fundação
Nacional do Índio (Funai), até a Presidência de República, passando pelo
Ministério da Justiça.
Quando
o assunto é homologações, a última etapa da demarcação de TIs, os atos da
presidente Dilma Rousseff ficaram restritos à região em que estão 98% das TIs
já demarcadas, a Amazônia Legal. Das 21 TIs homologadas só uma está no
centro-sul do país, onde os conflitos são mais intensos: a TI Piaçaguera, do
povo Guarani Ñandeva, com 2,7 mil hectares, no litoral sul do estado de São
Paulo. A caneta de Dilma trabalhou mais nos anos de 2012 e 2015, que tiveram um
total de sete decretos de homologação cada. Em 2014, ano de reeleição, nenhum
decreto foi assinado.
Em
seis anos de governo Dilma, foram criadas 15 UCs federais: seis na Mata
Atlântica, sendo cinco de proteção integral e uma de uso sustentável; e nove na
Amazônia Legal, sendo três de proteção integral e seis de uso sustentável. As
UCs criadas na Amazônia, no período, somam 3,5 milhões de hectares ou 95% da
extensão total das áreas formalizadas por Dilma. Ela também oficializou uma
Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) em Minas Gerais.
Biomas
como a Caatinga, historicamente desfavorecidos e menos representados no Sistema
Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), seguiram com pouca ou nenhuma
porção de seu território destinada à conservação no dois mandatos de Dilma. Na
Caatinga, embora legalmente na jurisdição Mata Atlântica segundo a Lei Federal
nº 11.428 (2006) foi criado o Parque Nacional de Furna Feia, com cerca de 8,5
mil hectares. Já a Resex Marinha Mestre Lucindo tem 44% de sua extensão
localizados no Bioma zona costeira e marítima.
Em
quase cinco anos e meio, o governo Dilma titulou 16 territórios quilombolas, o
equivalente a 11,7 mil hectares. Em oito anos, Lula titulou 12 áreas, somando
quase 40 mil hectares. Dilma assinou 40 decretos de desapropriação, abrangendo 115,3
mil hectares, e Lula editou número semelhante de decretos, 43, mas
desapropriando 465 mil hectares. Portanto, em pouco mais de um mandato, Dilma
titulou e desapropriou aproximadamente metade da média de Lula em duas gestões
em termos de área reconhecida. Os dados são da Comissão Pró-Índio de São Paulo
(CPI-SP). Um hectare mede mais ou menos um campo de futebol.
A
titulação é a última fase do complexoprocesso de
regularização dos quilombos,implicando o
reconhecimento pleno do território, após a retirada de ocupantes não
quilombolas. A desapropriação é a penúltima etapa, efetivada por decreto
presidencial, quando há necessidade de pagar por propriedade privadas
sobrepostas. As extensões abrangidas em cada fase do processo não devem ser
somadas – áreas desapropriadas serão depois tituladas, por exemplo. Cada etapa
requer diferentes esforços e custos políticos, financeiros e administrativos.
Os
números não deixam dúvida sobre a redução drástica na distribuição de terras para
reforma agrária no período, processo semelhante ao ocorrido com TIs, UCs e
territórios quilombolas, como já mostrado pelo ISA nas reportagens anteriores
da série – o que sugere uma tendência geral de declínio na destinação de áreas
de interesse coletivo.
Entre
2011 e 2015, a administração Dilma teria fixado 133,6 mil famílias em
assentamentos. No 1º mandato de Lula, teriam sido assentadas 232,6 mil famílias
e, no 2º mandato, mais 381,4 mil famílias. A média de Lula é de 76,7 mil
famílias por ano, contra uma média em torno de 25 mil famílias sob Dilma. Os
dados são do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
“A
política agrária do governo de Dilma conseguiu ser a pior de todos os governos
desde a Ditadura Civil-Militar, incluindo esta”, critica Rubem Siqueira, da
coordenação da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Ele acredita que, enquanto o
governo Lula ainda fez um esforço para conciliar reforma agrária, agricultura
familiar e agronegócio, a gestão de Dilma teria abandonado a ideia de distribuir
terras.
Para os ativistas do meio ambiente e
os povos indígenas que lutam contra a apropriação e a destruição de suas
terras, de suas florestas e de suas águas, 2015 foi um ano funesto. Foi o que
revelou o relatório "On Dangerous Ground" (Em terreno perigoso) publicado,
na última segunda-feira (20), pela ONG Global Witness, especializada na
denúncia de conflitos, de corrupção e de violações dos direitos humanos
associados à exploração dos recursos naturais.
Em todo o planeta, o relatório
levantou nada menos que 185 assassinatos associados a questões ambientais —ou
seja, uma morte a cada dois dias— perpetrados em 16 países, um número 59% maior
que em 2014 e jamais atingido desde que a ONG começou a fazer esse levantamento
macabro, em 2002.
O balanço real "certamente é mais
elevado", ressalta a Global Witness, uma vez que a coleta de informações é
muito difícil.
"Para cada assassinato que
conseguimos documentar, outros não puderam ser verificados ou não foram
notificados", relata a ONG. "E para cada vida perdida, muitas outras
são arruinadas pela onipresença da violência, de ameaças e da
discriminação."
"Grilagem
de terras"
No ano passado, o maior número de
mortes entre defensores do meio ambiente foi no Brasil (50 mortes), nas
Filipinas (33) e na Colômbia (26). Eles foram mortos em conflitos associados em
sua maior parte à extração de minérios, mas também a atividades
agroindustriais, madeireiras, hidrelétricas ou de caça ilegal.
Quanto aos autores desses
assassinatos, o relatório indica que grupos paramilitares são "suspeitos"
de envolvimento em 16 casos; o Exército, em 13; a polícia, em 11, e
serviços de segurança privados, em outros 11.
"Enquanto a demanda por produtos
como minérios, madeira e óleo de palma continua, governos, empresas e bandos
criminosos se apropriam de terras ignorando as populações que ali vivem",
denuncia Billy Kyte, responsável pelas campanhas na Global Witness.
Só que o relatório aponta que
"poucos elementos indicam que as autoridades tenham investigado plenamente
os crimes, ou tenham tomado medidas para que os responsáveis sejam
punidos."
Diante desse crime quase organizado,
as populações indígenas são as mais vulneráveis.
"Devido à insuficiência de seus
direitos à terra e a seu isolamento geográfico, elas ficam particularmente
expostas à apropriação de suas terras para a exploração de recursos
naturais", aponta a ONG.
Quase 40% das vítimas registradas em
2015 pertenciam a comunidades indígenas. "Estas se encontram cada vez mais
ameaçadas pela expansão territorial das empresas mineradoras ou
madeireiras", constata Billy Kyte.
Os Estados amazônicos do Brasil, em
particular, viveram "níveis de violência sem precedentes".
"Fazendas, plantações ou gangues
de madeireiros ilegais invadem terras de comunidades," descreve o
relatório da Global Witness. "A floresta tropical deu lugar a milhares de
acampamentos ilegais, enquanto a fronteira agrícola está sendo empurrada para
dentro de reservas indígenas que antes permaneciam intactas."
A pressão é muito forte: 80% da
madeira proveniente do Brasil seria extraída ilegalmente, e essa madeira
representaria um quarto dos abates ilegais que alimentam os mercados mundiais,
destinados sobretudo aos Estados Unidos, à Europa e à China.
O fim brutal de certos defensores do
meio ambiente foi coberto pela mídia. Em setembro de 2015, na ilha de Mindanao
(sul das Filipinas), a jovem ativista Michelle Campos assistiu um grupo
paramilitar assassinar seu pai e seu avô —líderes da comunidade autóctone— e um
diretor de escola, na frente do Exército regular.
Eles se recusavam a ser expropriados
por companhias mineradoras que cobiçavam o carvão, o níquel e o ouro do
subsolo. Cerca de 3 mil indígenas tiveram de fugir de seus vilarejos, onde 25
assassinatos foram registrados só nesse ano. Mas muitas pessoas que morreram
por suas terras permanecem anônimas.
Segundo dados coletados pela Global
Witness, a África continua relativamente livre desses abusos, com exceção da
República Democrática do Congo, onde 11 guardas de parques nacionais foram
mortos.
É uma constatação "ainda mais surpreendente
pelo fato de que muitos países africanos estão sujeitos a uma violência
profunda, e que os conflitos parecem muitas vezes ligados à terra e aos
recursos naturais", observa a ONG. A explicação poderia ser uma falta de
informações provenientes de zonas rurais isoladas, onde as organizações
humanitárias são pouco representadas.
"Escolha
dos consumidores"
No entanto, o relatório ressalta um
"aumento no número de casos de criminalização de ativistas em toda a
África", como a prisão do diretor de uma ONG em Camarões que combate a
extração do óleo de palma; ameaças na República Democrática do Congo contra o
coordenador de uma ONG que atua na proteção de florestas comunitárias; prisão
de um ativista ambiental em Madagascar que denunciava o tráfico de pau-rosa;
condenação em Serra Leoa do porta-voz de uma associação de proprietários de
terras afetados pelo domínio das palmeiras para extração de óleo, etc
A situação no continente africano não
é a única a ser mal documentada. "As informações são falhas para países
como a China e a Rússia, onde ONGs e a mídia sofrem repressão", explica
Billy Kyte.
Para ele, "as agressões que
vitimam os defensores ambientais são sintoma de uma repressão mais ampla que
atinge os atores da sociedade civil, em países onde os interesses dos governos
e os das companhias privadas entram em conflito."
Como proteger mais os ativistas da
causa ambiental? "Os governos e as empresas precisam acabar com os
projetos que desprezam os direitos das comunidades de usufruir de suas terras,
para conter a espiral da violência", alega a Global Witness.
"Os assassinatos que continuam
impunes nos vilarejos mineradores remotos, ou em pleno coração das florestas
tropicais, são alimentados pelas escolhas que os consumidores fazem do outro
lado do planeta."