Caminhos da
Reportagem (TV Brasil) relembra os conflitos que envolvem a posse da terra em
Anapu (PA), onde a missionária Dorothy Stang foi morta a mando de fazendeiros,
há onze anos.
Os religiosos que dão continuidade ao trabalho de
Dorothy, em defesa da reforma agrária, vivem sob ameaça. Padre Amaro (José Amaro Lopes de Sousa), um dos
entrevistados do programa, é considerado pela ouvidoria agrária nacional o defensor de direitos humanos mais ameaçado do Brasil.
Em 2015, segundo a Comissão
Pastoral da Terra, sete pessoas envolvidas na luta pela reforma
agrária foram assassinadas em Anapu entre julho e novembro. Um deles foi Zé da Lapada, líder de um grupo de trabalhadores
sem-terra. Em um vídeo inédito, gravado um mês antes de sua morte, ele comenta
a presença de pistoleiros na região.
Várias lideranças das famílias acampadas nas
estradas, ao longo da cerca das fazendas, relatam as mazelas de quem espera a
desapropriação dos lotes vendidos pelo governo militar a partir dos anos 70, ao
redor da rodovia Transamazônica. A aquisição dos terrenos se dava por meio dos
Contratos de Alienação de Terras Públicas, que exigiam investimentos que tornassem
a área produtiva. De acordo com o procurador da república Felício Pontes, as condições não foram cumpridas dentro
do prazo e, portanto, os lotes devem ser considerados propriedade da União, na
maioria dos casos
Caminhos da Reportagem ouve
supostos donos de terra cujos títulos estão sendo analisados pelo Incra.
Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Anapu, Silvério Fernandesacusa os acampados de causar
danos às propriedades e confirma ações conjuntas de fazendeiros para proteger
os lotes. “Enquanto tivermos recursos e nós pudermos defender o que é nosso,
vamos defender sim, porque quem não defende o que é seu não merece ser dono.”
Entre as medidas para tentar resolver os conflitos
está a patrulha rural. Mas ainda não é suficiente, de acordo com pesquisadores
e autoridades entrevistados pelo programa. Eles cobram mais ações do Estado
para combater a violência no campo.
Reportagem:Ana Graziela Aguiar Imagens:Rogério Verçoza Auxílio
técnico:Daílton Matos Apoio
às imagens:Edivan Viana, Sigmar Gonçalves Produção:Beatriz Abreu, Pollyane Marques Edição
de texto:Ana Maria Passos, Flávia Lima Edição
de imagem:Henrique Correa, Márcio Stucket Arte:André Maciel Agradecimentos:Flávio Pachalski, Ivan Marx
Terra Indígena Alto Turiaçu. Desmatamento acumulado no entorno da TI até 2014
Por: Tatiane Klein e Victor
Pires*
Lutando
para proteger a Terra Indígena Alto Turiaçu (MA) do assédio de madeireiros e
fazendeiros, o povo indígena Ka’apor teve um líder assassinado, em 2015.
Agora, Iraúna Ka’apor, de apenas 14 anos, desapareceu. Ela foi
vista pela última vez em um acampamento de madeireiros
Há
meses, o povo indígena Ka’apor, que vive em uma das últimas fronteiras
florestais do estado do Maranhão, enfrenta um novo drama. Depois de ver o
líder Eusébio Ka’apor assassinado, em abril de 2015, por lutar contra a
exploração ilegal de madeira na Terra Indígena (TI) Alto Turiaçu, as
comunidades agora tentam descobrir o paradeiro de uma jovem de 14 anos,
desaparecida desde fevereiro de 2016 e avistada pela última vez em um
acampamento madeireiro no Pará.
O
sequestro da jovem Iraúna, que vivia na aldeia Axiguirendá, levou o Conselho
Estadual de Direitos da Criança e do Adolescente do Maranhão a espalhar
cartazes por todo o município de Centro do Guilherme, no noroeste do Maranhão,
onde estão localizadas várias madeireiras e serrarias, abastecidas por madeira
de alto valor comercial extraída ilegalmente da TI. Todos os cartazes sumiram,
assim como Iraúna.
Essa
e outras graves violências compõem uma denúncia apresentada no dia 24 de junho
ao Ibama, ao Ministério Público Federal no Maranhão e à Polícia Federal pela
ONG Greenpeace. Segundo o documento, a região vive clima de guerra, fomentado
pelo aumento das ameaças de madeireiros e fazendeiros aos Ka’apor. Graças a
ações autônomas de proteção à terra, os índios já conseguiram fechar 24 ramais
de exploração madeireira abertos ilegalmente e criar sete “áreas indígenas de
proteção” no interior da TI.
O
desaparecimento da jovem já havia sido denunciado pelos Ka’apor em uma nota
divulgada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em abril deste ano. Mas
de abril até agora, segundo um dos indígenas que compõe o Conselho de Gestão
Ka’apor, nenhuma medida foi tomada (confira a entrevista completa abaixo).
A
situação também foi denunciada pela ONG Global Witness, que acaba de lançar um
relatório, mostrando que, em 2015, o Brasil foi o país com maior número de
ambientalistas assassinados. O documento destaca a morte de Raimundo dos Santos
Rodrigues, um dos defensores da Reserva Biológica do Gurupi, próxima à TI Alto
Turiaçu.
Crimes sem castigo
Procurada
pela reportagem do ISA, a assessoria de imprensa da Polícia Federal no Maranhão
afirma que as informações não haviam chegado formalmente à delegacia
responsável. “Chegando, será instaurado inquérito policial e tomadas as medidas
investigatórias cabíveis para apurar eventuais crimes praticados contra os
indígenas”, alega. Já o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) informa
que tem realizado ações de combate ao desmatamento ilegal no estado do
Maranhão, mas não pode comentar sobre eventuais investigações em curso.
Em
entrevista ao ISA, o procurador da República no estado do Maranhão Alexandre
Silva Soares explica que, assim que recebida, a denúncia do Greenpeace foi
encaminhada à Superintendência de Polícia Federal, mas até o fechamento desta reportagem
o ofício não havia sido respondido. Soares também informa que já tinha
conhecimento do conteúdo das denúncias e que outras já haviam sido encaminhadas
pelo MPF, ensejando operações de fiscalização feitas pelo Ibama e PF.
Ainda
segundo o procurador, correm em segredo de Justiça duas ações civis públicas
questionando a ausência de proteção da área pelo Poder Público. Em 2014, a
Justiça Federal condenou o Ibama, Funai e União a apresentar um plano de
fiscalização das Tis Alto Turiaçu, Awa e Caru no prazo de 120 dias – o que não
foi efetivado. “Sem a ocupação dessas áreas por agentes do Estado brasileiro,
essas áreas ficam desprotegidas”, avalia Soares.
Trabalhando
há oito anos com os Ka’apor, o antropólogo José Mendes avalia que os órgãos
governamentais, especialmente os do Maranhão, têm sido omissos com relação às
ameaças aos indígenas. O Programa de Defensores de Direitos Humanos, da
Secretaria de Direitos da Presidência da República, também já foi acionado
inúmeras vezes, mas, segundo Mendes, os Ka’apor ainda não foram incluídos nele.
Ações próprias
A
região já foi alvo de diversas operações do Ibama e da PF, como Hiléia Pátria,
Nuvem Preta e Lignum, fechando serrarias e madeireiras. Mas, na opinião dos
pesquisadores e dos Ka’apor, elas surtem pouco efeito para coibir esses crimes.
Por isso, a partir de outubro de 2013, os indígenas fortaleceram suas próprias
ações de proteção e fiscalização do território. Hoje, os antigos ramais de
exploração ilegal de madeira se tornaram kaar husak ha, como são chamadas as
“áreas protegidas” na língua Ka’apor, onde vivem entre seis e oito famílias
indígenas. Por conta da intensificação das ameaças, revela o Greenpeace, essas
famílias estão proibidas de circular pelas estradas que cortam a TI e que levam
às vilas.
Segundo
Mendes, Iraúna foi provavelmente abordada em uma dessas estradas, no caminho
entre a Axiguirendá e o município de Centro do Guilherme. “Além de ser
adolescente, [Iraúna] não fala português. As pessoas suspeitam que ela tenha
sido abordada em um povoado chamado Nadir, a dois ou três quilômetros do limite
da TI, onde existe um histórico de garimpo, de usuários de drogas e de
plantação de maconha. E a maioria dos envolvidos nesses ilícitos também está
envolvido na [extração ilegal] madeira”, denuncia Mendes.
“Esse
trabalho de coibir a invasão realizado pelos Ka’apor é um dos motivos que vem
levando a ameaças e à escalada de violência”, avalia Rômulo Batista, que é
pesquisador do Greenpeace e esteve na área recentemente. Mendes concorda. Após
o fechamento de um dos principais ramais de extração de madeira, em outubro de
2014, passou a circular pelas vilas da região uma lista com nomes de oito
lideranças indígenas ameaçadas de morte. No início de 2016, foram os Ka’apor
que elaboraram uma lista, entregue ao MPF, denunciando os nomes de madeireiros,
fazendeiros, pistoleiros e traficantes ou pessoas aliciadas por eles,
envolvidos em invasões de aldeias e agressões aos indígenas.
Décadas de ameaças
Na
região do Gurupi, a TI Alto Turiaçu compõe um conjunto de Terras Indígenas e
Unidades de Conservação contíguas que faz a transição da floresta amazônica
maranhense para áreas de Cerrado e Caatinga, onde há décadas o povo Ka’apor
sofre com atos de violência perpetrados por madeireiros e fazendeiros. E a
extração ilegal de madeira não fica restrita a essa TI, ocorrendo em toda a
região, onde estão as Tis Alto Rio Guamá, Awa e Caru, além da Reserva Biológica
do Gurupi. Todas essas Terras Indígenas já chegaram ao último estágio do
processo de demarcação, a homologação.
As
ações dos indígenas para retirar os invasores de suas terras levaram a outros
graves ataques em anos recentes. Em 16 de maio de 2010, Hubinet Ka’apor, 38
anos, foi brutalmente assassinado por madeireiros; em março do ano seguinte,
Tazirã Ka’apor, de 20 anos, também foi morto. Reportagens compiladas pelo
Sistema de Áreas Protegidas do ISA mostram que, pelo menos desde a década de
1970, os índios no Maranhão enfrentam ataques. Em 1979, por exemplo, cinco
indígenas Awá-Guaja foram mortos por envenenamento. Apesar de recorrentes
operações de fiscalização, amplamente noticiadas pela imprensa, invasões e
ataques sempre voltam a ocorrer (confira na linha do tempo abaixo).
Mais
recentemente, no final de 2015, um incêndio de grandes proporções atingiu as
Tis Alto Turiaçu, Awa e Caru. Centenas de Guajá e cerca de 60 indígenas
isolados ficaram em situação de risco. As suspeitas são de que o fogo teve
origem criminosa, represália de madeireiros após uma operação de fiscalização
contra a venda ilegal de madeira.
Os
especialistas são unânimes em apontar que as operações de fiscalização são
insuficientes, ainda mais numa região onde a perseguição contra quem defende o
meio ambiente não é a única mazela e o poder público praticamente inexiste: “A
falta de uma política efetiva de proteção territorial das TI e Ucs faz com que,
após as operações, o modus operandi dos madeireiros se repita”, critica
Batista.Para o procurador Alexandre
Soares, as ações de repressão são superadas pela lógica econômica da região: “A
questão não é apenas um caso de polícia, é também social e econômico. O
problema é que a economia da região gira em torno da economia ilegal. Temos que
atacar não somente esses agentes que atuam na extração ilegal de madeira, mas
também de propiciar meios dessas pessoas se inserirem no mercado de trabalho de
atividades lícitas”, afirma.
“São
os pequenos se conflitando. São os indígenas e aquelas pessoas que vivem da
agricultura familiar. Quem não vive da agricultura familiar, é aliciado pela
exploração de madeira ilegal”, aponta o antropólogo José Mendes, pontuando que
logo após as fiscalizações e apreensões feitas pelo Ibama, as madeireiras e
serrarias quase sempre voltam a funcionar. “Não existe vontade política. Só
existe um interesse muito grande dos indígenas em proteger esse território e
eles têm nos dado grandes lições de como viver mantendo a floresta em pé. Os
Ka’apor estão fazendo um grande bem para a sociedade”, conclui.
“A gente protege a mata e ela dá comida para gente”
O
ISA entrevistou um dos membros do Conselho de Gestão Ka’apor, que preferiu não
se identificar. Ele fala da realidade vivida pelas mais de 1,8 mil
pessoas que vivem hoje na TI Alto Turiaçu, em dez aldeias do povo Ka’apor e uma
do povo Guajá
Instituto Socioambiental – Como está a situação na TI Alto Turiaçu agora?
I.
A gente continua sendo ameaçado. Principalmente, nas áreas de proteção Ka’apor.
Não podemos ficar andando pelas cidades. Lideranças das áreas de proteção estão
sendo impedidas de sair. Me perseguiram de moto esses dias. Falam meu nome e de
outras pessoas nas cidades. Em duas áreas de proteção ficam oferecendo bebidas
para indígenas. Há dois meses, levaram Irauna Ka’apor, de 14 anos. A Polícia
Civil e Militar do Maranhão não fizeram nada.
ISA – No começo da semana passada, o Greenpeace protocolou uma denúncia
na PF, MPF e Ibama sobre a situação. Alguma medida já foi tomada?
I.
– Enviamos documento para o MPF com nome de agressores, dos donos de bares,
madeireiros nas entradas das aldeias. O procurador falou que passou para a
Polícia Federal, Ibama e Funai, mas não fizeram nada. Greenpeace é nosso
apoiador. Estiveram com a gente nas aldeias e viram a situação. Mandaram
documento para MPF e os órgãos não fizeram nada. Este final de semana, na
entrada da aldeia Ximborenda, município de Maranhãozinho, num povoado chamado
Buraco do Tatu – perto de onde mataram Eusebio Ka’apor – foram vistas pessoas
armadas bebendo nos bares e, ontem, roubaram a moto de um indígena. Fizemos
denúncia na delegacia de Santa Luzia do Paruá.
ISA – Desde quando essa pressão acontece?
I.
– A pressão aumentou depois que nos fizemos nossa assembleia em 2013 e
decidimos proteger juntos nosso território. Fizemos um acordo de convivência
interno para a vivência dentro do nosso território, como não deixar branco
entrar sem permissão do Conselho de Gestão Ka’apor. Nosso povo de todas as
aldeias se uniu, fortalecemos nossa vigilância do território em grupos em
várias partes do território. Entramos e fechamos os principais ramais de
madeireiros. São sete áreas de proteção. Temos uma guarda agroflorestal, desde
2014, que coordena a vigilância e proteção territorial e dá apoio a nossas
áreas de proteção.
ISA – Alguém presenciou o sequestro da Irauna Ka’apor? Como está a
família dela?
I.
Ninguém da aldeia viu quando ela foi levada. A família está muito triste na
aldeia. O Conselho de Gestão Ka’apor está acompanhando isso junto com MPF.
Estamos preocupados porque são quase três meses e ninguém deu notícias. O
governo do Maranhão não faz nada aqui na região. Nunca fez pra proteger nosso
território e as pessoas. Tem muito roubo nas cidades. Nosso Conselho de Gestão,
nossos guardas florestais e quem apoia a gente aqui no trabalho estão sendo
muito perseguidos. Eles querem matar a gente. O assassino de Eusébio tá solto
aqui em Santa Luzia do Paruá. A Polícia não faz nada.
ISA – E essas ameaças estão sendo só contra os Ka’apor ou também contra
os outros povos que vivem na região?
I.
– Aqui só moram os Ka’apor e um grupo Guajá bem pequeno, mas eles ficam mais
protegidos, porque os Ka’apor moram perto dos limites. Nossa terra tem 530.524
hectares, pega seis municípios de nossa região, na divisa com o Pará. Tem
perseguição também contra os quilombolas. Como a gente não deixou madeireiros
entrar aqui, eles estão tirando madeira do território dos quilombolas. E tiram
também da Reserva Biológica do Gurupi.
ISA – Vocês conseguiram afastar todos os invasores na Terra Indígena Alto
Turiaçu?
I.
– As áreas são afastadas das cidades. Fica longe, de 35 km pra frente.
Não são perto da cidade. Estradas [são] ruins. Agora, não tem
madeireiro dentro porque estamos dia e noite espalhados nos limites, fazendo
vigilância. Por isso querem matar os guardas e as lideranças. Só
[tem] caçador e capoeiras. Hoje, nosso povo tem mais saúde. Tem
mais comida. Onde tinha sido derrubado, está se recuperando. As
caças não escutam barulho de motosserra. Temos mais caça. A gente
protege a mata e ela dá comida pra gente.
Como
se não bastasse a usina de Belo Monte bem ao lado, estudo ambiental do maior
projeto de mineração do país foi feito pelo mesmo engenheiro indiciado por
homicídio pelo rompimento da barragem de Mariana (MG)(assista).
O
programa Fantástico, da Rede Globo, mostrou, no último domingo (19), o maior
projeto de mineração de ouro do país, vizinho da hidrelétrica de Belo Monte
(PA). A mina tem o estudo de viabilidade ambiental assinado pelo mesmo
engenheiro indiciado por homicídio pelo rompimento da barragem de Mariana (MG).
O
ISA apresenta outras 7 informações que não aparecem na reportagem e você
precisa saber:
1 – Montanha de lixo de mineração com
duas vezes o tamanho do Pão de Açúcar
A
empresa Belo Sun pretende instalar uma mina de ouro com uma barragem de rejeitos
maior que a que rompeu e causou a tragédia de Mariana (MG). Apesar de
qualificar como alto o risco de ruptura da represa, a mineradora não informa as
possíveis consequências de uma possível ruptura aos índios e ribeirinhos que
vivem na região. Em 12 anos, a estimativa é que serão extraídas 600
toneladas de ouro. Ao final da exploração, a iniciativa prevê deixar duas
pilhas gigantes de material estéril, que somadas terão área de 346 hectares,
com altura média de 205 metros e 504 milhões de toneladas de rochas. Uma
montanha duas vezes maior do que o Pão de Açúcar, recheada de material
quimicamente ativo, à beira do Rio Xingu (veja abaixo animação produzida pelo
ISA).
2 –Sai o ouro, fica o ônus
O município de Senador José Porfírio irá
arrecadar R$ 235 milhões em impostos durante o tempo de duração do projeto.
O município será capaz de arcar com o passivo que representam as
montanhas de lixo da mineração? Os Estudos de Impacto Ambiental de Belo
Sun não preveem sua remoção. Os detritos são uma ameaça eterna ao Xingu e
aos povos que vivem na Volta Grande.
3 – Cadê o Ibama?
Por que um empreendimento com alto
risco socioambiental, a 11 quilômetros de Belo Monte, às margens de um rio
federal e vizinho de duas Terras Indígenas já atingidas pela hidrelétrica não
será fiscalizado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama)? Uma
nota técnica do ISA conclui que o licenciamento da mineradora deveria ser
responsabilidade do governo federal, e não do Estado do Pará, assim como o
licenciamento da usina(leia aqui). O Ministério Público Federal (MPF)
também briga na Justiça para que o projeto seja avaliado pelo Ibama.
4 –
Índios querem ser consultados
Em junho de 2014, a Justiça Federal
suspendeu o licenciamento ambiental do projeto de mineração até que a Belo Sun
entregasse os estudos de impactos sobre as populações indígenas. A
empresa conseguiu derrubar a decisão, mas os índios querem ser consultados
sobre o projeto antes que o licenciamento avance. Uma das preocupações é
com o risco de contaminação do rio (leia mais).
5 – Em
seis anos, tudo pode mudar
Os Estudos de Impacto Ambiental da Belo
Sun foram realizados em 2009, quando a instalação de Belo Monte sequer havia
começado. A realidade da Volta Grande do Xingu foi completamente alterada. O
MPF já determinou que a Secretaria do Meio Ambiente do Pará exija da empresa
uma atualização dos estudos que considere as mudanças ocorridas no Xingu.
6 –
Tinha uma hidrelétrica no meio do caminho
A oscilação natural do nível das águas
na Volta Grande deixará de existir, permanecendo sua cota mínima, por causa do
represamento no reservatório principal de Belo Monte. Diversas espécies
de peixes estão ameaçadas de desaparecer. Por isso, durante seis anos, a
Norte Energia, empresa responsável pela hidrelétrica, será obrigada a monitorar
a área sob avaliação do Ibama. Se outro empreendimento gigantesco se
instalar na região, será impossível determinar os impactos dos dois
empreendimentos e a sociedade brasileira jamais irá conhecê-los.
7-
Barrados no baile
Depois de marcar uma cerimônia para
anunciar a instalação do projeto de mineração, a Secretaria de Meio Ambiente do
Pará decidiu voltar atrás e adiar o evento por causa da repercussão negativa,como informou o jornal O Estado de S.Paulo.
Mais de 100
mil pessoas assinaram uma petição pública na internet pedindo que o governador
Simão Jatene (PSDB) não dê a licença de instalação neste momento. Se você
ainda não assinou, agora tem mais 7 motivos para fazer isso. Assineaqui.
Em vídeo, índios que sobreviveram ao ataque no Mato Grosso do Sul contam que fazendeiros usaram fogos de artifício para disfarçar o som dos tiros
Índios que sobreviveram aoataque em uma
fazenda no Mato Grosso do Sulafirmam que fazendeiros que tentavam expulsá-los do local
usaram fogos de artifício para mascarar o som dos tiros. Na última terça-feira,
Clodiode Aquileu Rodrigues de Souza, um guarani-kaiowá de 26 anos, foi morto
depois que um grupo de produtores rurais cercou uma fazenda que havia sido
ocupada dois dias antespor indígenas que reivindicam a área. Outros cinco
índios, incluindo uma criança de 12 anos, ficaram feridas com balas de armas
letais, segundo o hopital que os atendeu.
Os depoimentos
estão em um vídeo feito por Ana Mendes e Ruy Sposati, doConselho Indigenista Missionário
(CIMI), e publicado com exclusividade pelo EL PAÍS. Nele, os
indígenas que haviam entrado dois dias antes na fazenda Yvu, em Caarapó, a 273
km da capital Campo Grande, afirmam que os fazendeiros chegaram ao local
atirando. "Começou às 10h o tiroteio e acabou às 14h", diz um deles.
"Chegaram com o rojão dando para cima e embaixo do rojão já atirando nas
pessoas", confirma outro.
A fazenda Yvu
é alvo de uma disputa territorial. Ela faz parte da área já estudada pela
Fundação Nacional dos Índios (Funai) para compor a Terra Indígena Dourados
Amambaipeguá I, que está em processo de demarcação. Segundo um relatório
publicado pelo órgão federal em 13 de maio, os guarani-kaiowá foram expulsos
dessa área há décadas pelo próprio Governo, para que fossem feitas fazendas. Os
fazendeiros possuem a titularidade da terra e dizem que não saem do local sem
serem indenizados plenamente, o que o Governo Federal afirma que é impedido de
fazer pela Constituição. Os índios, muitas vezes vivendo em situação de
precariedade em reservas superlotadas ou acampamentos improvisados, cansaram de
esperar pela resolução do impasse e passaram a fazer a chamada
"retomada" dessas terras habitadas por seus ancestrais. Entram nas
fazendas, onde montam acampamentos, e acabam sendo expulsos por grupos de
fazendeiros, muitas vezes com truculência.
Foi o que
aconteceu nesta última terça-feira. Os índios afirmam que tiveram motos,
bicicletas e roupas queimados por fazendeiros e enterrados em um buraco, cavado
com a ajuda de um trator. Josiel Benites, de 12 anos, e Jesus de Souza, de
29 anos, foram feridos a bala no abdômen. Vaudilho Garcia, de 26
anos, no tórax. Os três passaram por cirurgia. Lubésio Marques, de 43 anos, recebeu
três tiros: um no ombro, um no tórax e outro no abdômen. E Norivaldo Mendes, de
28 anos, também foi atingido no tórax. "Passava bala por cima denós. Foi terrível. Não sei
como é que eles não acabaram com nós.
Porque armamento eles tinham. Arma pesada eles tinham".
Diariamente, toneladas de areia são retiradas da
Terra Indígena Tupinambá de Olivença (sul da Bahia) e destinadas à construção
civil. Na região do Sirihiba, as operações do Areal Bela Vista Ltda. têm
acarretado severos impactos socioambientais, como a destruição da mata nativa,
inclusive de piaçabais, explorados economicamente pelos indígenas; a expulsão
de animais ameaçados de extinção, como o mico-leão-dourado; e o acelerado
assoreamento dos rios Ipanema e Sirihiba, de onde provém a água consumida por
indígenas de algumas comunidades. No sítio Ipanema, localizado ao lado do
areal, as famílias já estão ficando sem água para o consumo. A retirada de
areia impacta, ainda, a religiosidade dos Tupinambá, já que a atividade vem
destruindo um lugar sagrado: a mata de onde os indígenas retiram, todos os
anos, o tronco de madeira utilizado para a construção do mastro de São
Sebastião, no festejo conhecido como Puxada do Mastro.
Em outubro de 2015, o acesso ao areal Bela Vista
foi bloqueado pelos indígenas. Porém, em abril de 2016, a retirada de areia foi
reiniciada, por decisão judicial. No quadro da disputa, duas lideranças
indígenas foram presas, José Aelson da Silva e Rosivaldo Ferreira da Silva
(Cacique Babau). Eles foram encarcerados dois dias depois de uma audiência de
conciliação no marco do processo movido pelo Areal Bela Vista contra os
indígenas, ocasião em que estes rechaçaram a possibilidade de "composição
amigável do litígio", exigindo, ao contrário, que cessem as atividades
predatórias. Nesse mesmo areal, em abril de 2011, um indígena foi alvejado por
um policial federal à paisana, e teve sua perna amputada na altura do joelho. A
destruição tem que parar! Os Tupinambá exigem o fechamento imediato dos areais
situados em seu território.
Pequeno grupo de comunidades
tradicionais do Pará conseguiu suspender licenciamento até que moradores locais
sejam escutados sobre impactos da obra
Por Piero Locatelli*
Mais de quatrocentas famílias
quilombolas eram invisíveis para os produtores de soja que pretendem construir
um porto nas margens do Rio Amazonas, no trecho em que suas águas banham o
estado do Pará. Os estudos ambientais do Porto do Maicá, em Santarém, afirmavam
“não existir nenhum território quilombola na área diretamente afetada do
empreendimento”. Mas, a menos de cinco quilômetros do local previsto para o
porto, sete comunidades quilombolas dependem do rio para sobreviver.
Até então ignoradas, essas comunidades
conseguiram obrigar o empreendimento a enxerga-las. O licenciamento da obra foi
suspenso até que quilombolas e outras populações tradicionais da região do lago
do Maicá sejam ouvidos pelo governo e pela empresa construtora do porto, a
Embraps (Empresa Brasileira de Portos de Santarém). Eles foram obrigados a
fazer o processo de consulta às comunidades da região, conforme estabelece a
Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.
Quilombolas vivem da pesca no rio Amazonas, onde deve ser construído o porto. Foto: Mikaell Carvalho/Repórter Brasil
Os quilombolas de Maicá formam um
grupo pequeno, mas conseguiram um feito grande. Apesar de ter sido assinada
pelo Brasil há quatorze anos, a aplicação da convenção ainda é uma novidade, e
pode mudar a forma como todas as comunidades são tratadas por empreendedores no
país inteiro. O documento determina que comunidades tradicionais sejam
consultadas “cada vez que sejam previstas medidas legislativas ou
administrativas suscetíveis de afetá-los diretamente”.
João Lira, um dos líderes da
comunidade Murumuru, explica o que a letra fria da convenção significa para os
quilombolas: “Eles [empresários] acham que ainda está no tempo de empurrar tudo
goela a baixo, que a gente tem que aceitar calado. Mas nós sabemos que eles
precisam nos ouvir, nos respeitar, e nos consultar.”
Depois de serem ignoradas pelos
estudos de impacto do empreendimento, as comunidades reivindicaram o direito de
serem consultadas ao Ministério Público Federal. Pedindo a suspensão do
licenciamento enquanto não houvesse a consulta, duas procuradoras entraram com
uma Ação Civil Pública contra o estado do Pará, a empresa, a Fundação Palmares
e o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
[NOTA BLOG: A Ação Civil Pública citada é movida pelo Ministério Público Federal e Ministério Público do Estado do Pará, assinada pela Procuradora Fabiana Keylla Schneider e pela Promotora Ione Missae da Silva Nakamura, contra a Embraps - Empresa Brasileira de Portos de Santarém; a Antaq- Agência Nacional de Transporte Aquaviários; o Estado do Pará e a União. O INCRA e a Fundação Palmares não fazem parte da Ação.]
As procuradoras questionam se a
empresa ignorou os quilombolas por “mera incompetência” ou vontade de deixá-los
invisíveis. Na ação, consta que “informações apresentadas pela Embraps
demonstram o completo desconhecimento da temática […] e discurso carregado de
uma visão colonialista e ultrapassada.” Um juiz federal aceitou o pedido em 12
de abril de 2016, e o processo da obra está parado desde então.
Os quilombolas do Maicá só conseguiram
ser consultados graças a um processo que começou há mais de uma década, quando
os descendentes de escravos dessa região começaram a reivindicar as suas
origens e, consequentemente, os seus direitos.
Desde a Constituição de 1988, os
“remanescentes das comunidades dos quilombos” têm direito à propriedade
definitiva das suas terras. Mas foi só no começo da década passada que as
comunidades do Maicá começaram a ter conhecimento dos seus direitos. João Lira
diz que, antes disso, eles possuíam vergonha do seu passado, e se reconheciam
somente como ribeirinhos. “No passado, a sociedade tentava colocar na nossa
cabeça que nós tínhamos que esquecer o sofrimento do nosso povo. Com o surgimento
do movimento quilombola, resgatar o passado se tornou um [motivo de] orgulho,”
diz João Lira.
As comunidades começaram a ser
reconhecidas pelo Estado graças à sua organização. Desde o final da década de
1990, eles formaram associações de moradores e começaram um diálogo maior com
comunidades de outras regiões. Entre 2003 e 2007, sete delas foram certificadas
pela Fundação Palmares, órgão do Governo Federal. Dentre elas, duas já foram
delimitadas pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e
aguardam o decreto que desapropria os terrenos de fazendeiros e outros
posseiros que se encontram nas suas terras.
O movimento de resgatar a identidade
quilombola não é restrito ao local, mas representa uma dinâmica de diversas
comunidades no país, intensificado desde 2003, quando foi regulamentado o
processo de demarcação das terras quilombolas pelo governo federal. Um
movimento que costuma provocar uma pergunta polêmica: por que, afinal, um grupo
se considera quilombola?
Para Mário Pantoja, os quilombolas começaram a viver a “cultura de terceiros” ao longo do tempo. Foto: Mikaell Carvalho / Repórter Brasil
O simples fato da pergunta ser feita
já incomoda Mário Pantoja de Souza, líder da associação da comunidade Murumuru.
Ele explica: “se você é negro, você é olhado com preconceito. Se você é moreno
ou claro, então você não é quilombola, porque você não é negro”. As casas onde
eles moram, muitas vez de alvenaria e com luz elétrica, e a música mais ouvida
no local, o arrocha, tampouco se encaixam em um estereótipo ligado à escravidão
do passado. “Ao longo do tempo, nós
aprendemos a viver a cultura de terceiros,” diz Mário. Ele conta que, hoje, a
sua comunidade educa os mais jovens, para que eles tenham orgulho de serem
quilombolas.
Em sua maioria, as comunidades foram
formadas por escravos que fugiram de fazendas de cacau e se estabeleceram nas
margens do rio Amazonas. Hoje, os quilombolas que moram naqueles mesmos lugares
vivem principalmente da subsistência, complementada por programas sociais e a
venda do peixe, açaí e farinha. Esse modo de vida, que é distinto dos
habitantes das cidades, é o que buscam proteger se opondo ao projeto do porto.
O desenvolvimento dos outros
O modo de vida dessas comunidades está
em risco por um desejo alheio às necessidades delas: a busca por um caminho
mais curto para a soja brasileira sair do país. Com a construção do porto,
seria possível diminuir em cerca de 800 quilômetros o trajeto feito por terra
pelos grãos que saem do Mato Grosso e, atualmente, necessitam passar pelo Porto
de Santos. A alternativa de passar pelo Porto do Maicá, em Santarém, encurtaria
em sete dias o tempo que os barcos levam para chegar à Europa. “Isso
significa muito para o produtor e para o país, para a redução do custo Brasil.
Você acaba investindo esse dinheiro em outra coisa, e vai gerar renda,
emprego”, argumenta Pedro Riva, produtor de soja e dono de 75% da empresa que
pretende construir o porto. Riva estima que serão gerados 700 empregos diretos
na construção, e outros 70 posteriormente.
Caminho que será feito pela soja antes de ser exportada. Foto: Reprodução/Embraps
O porto é parte de uma série de
projetos com o mesmo objetivo: escoar a produção agrícola brasileira para o
mercado internacional. Duas empresas estrangeiras já mostraram interesse em
construir outros terminais em Santarém, o que complementaria outras rotas
abertas na região. Uma delas é a construção de uma ferrovia paralela à BR-163,
que permitiria levar a soja por trilhos do Mato Grosso até a cidade de
Itaituba, noroeste do Pará. A outra seria uma hidrovia pelo rio Tapajós, que
permitira transportar os grãos mato-grossenses pelo rio até Santarém, de onde
podem ir direto para outros continentes.
As promessas de renda e emprego para a
população local, que acompanham todas essas obras, são vistas de forma cética
pelos quilombolas da região. “O que a gente reivindica é que o empreendedor
venha não somente mostrar as coisas boas. Nós queremos saber as coisas ruins
que vão acontecer com a construção desse e de outros portos” diz Mário.
“Coisas ruins”
Boa parte das ‘coisas ruins’ ficaram
de fora do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) da Embraps, onde os impactos já
deveriam ter sido detalhados. Advogada da ONG Terra de Direitos, que presta assessoria
jurídica às comunidades, Layza Queiroz afirma que os quilombolas navegam hoje
um “mar de incertezas” sobre o projeto, mas algumas das consequências da
construção já são previsíveis.
Um deles seria o impacto sobre a
pesca. O estudo não afirma que medidas serão tomadas para a preservação dos
peixes, responsáveis pela sustentação diária das comunidades. A empresa se
resume a dizer que serão tomadas medidas de proteção às espécies em risco de
extinção no rio Amazonas, ou seja, somente duas das mais de 150 que vivem ali.
Os quilombolas ainda temem que a área
aterrada pelo porto possa afetar a reprodução dos peixes, já que o lago
funciona como um berçário. “A preocupação não é agora, é daqui a dez anos: como
é que vamos alimentar nossos filhos, nossos netos?”, pergunta João Lira. O
advogado da empresa, Andrew Raseira, afirma que as obras “não devem assorear” o
terreno e impactar a reprodução dos peixes.
O estudo da empresa também não
fala sobre como a obra afetará a navegação dos quilombolas. Zé Maria, morador
da comunidade de São José do Itaqui, só possui acesso à sua casa pelo rio. Com
a construção, ele teme não conseguir chegar mais à cidade pelo seu caminho
diário. “Assim como a gente vai levar alimentos, a gente também vai buscar,”
diz o líder da comunidade, preocupado. Ele receia que o porto o faça desviar
pelo braço mais forte do rio Amazonas, um caminho mais longo e perigoso para
pequenas embarcações. O advogado da empresa afirma que, como as esteiras serão
suspensas, e as embarcações poderão passar por baixo dela, a obra não deve
afetar a navegação dos quilombolas.
Outra preocupação é com a estrada que
será aberta pela prefeitura para levar uma grande quantidade de caminhões ao
local. Quilombolas entrevistados pela reportagem temem que o tráfico de
caminhões tenha consequências para as comunidades, como poluição ambiental e
sonora. Somente o pátio de triagem tem capacidade de receber 938 caminhões por
dia.
Pedro Martins, advogado da Terra de Direitos, afirma que a falta de titulação agrava os outros problemas dos quilombolas. Foto: Mikaell Carvalho/Repórter Brasil
Os estudos da empresa afirmam que a
estrada não provocará “impactos significativos nas populações residentes do
entorno da área do empreendimento.” Eles também argumentam que “todos os
equipamentos com alta capacidade de emissão de ruídos serão alvo de isolamento
acústico”.
A promessa é vista com ceticismo. João
Lira acredita que o projeto não irá trazer “nenhum benefício” para as
comunidades da região. Ele faz um paralelo com o porto da empresa multinacional
Cargil, construído em 2003. “Foram empregos só no início das obras. Depois,
eles trazem a mão-de-obra especializada, gente de outros estados, de outras
regiões ou até de outros países. Aí a
gente só vai ficar com o desemprego e com as mazelas que o projeto vai trazer.”
A construção do porto também deve agravar outro problema no local: a falta de
titulação das terras das comunidades. Com a construção, a expectativa é
de que o preço da terra suba na região. Isso tornaria mais difícil a retirada
de fazendas que estão dentro de áreas quilombolas. De acordo com o processo de
titulação, essas fazendas ainda devem ser indenizadas pelo poder público a
valores de mercado, explica o advogado Pedro Martins, da Terra de Direitos.
Depois que o porto for construído, essa indenização deve ficar ainda mais cara,
e portanto, improvável de ser quitada pelo governo federal.
Como será a consulta?
Todos esses problemas jamais foram
apresentados às comunidades, e a aplicação da Convenção 169 surge justamente
como uma garantia de que a população local tenha conhecimento detalhado dos
impactos, possam opinar sobre a obra, contribuindo com seu conhecimento do
local,além de reivindicar compensações para quem for afetado por elas , propor
mudanças fundamentais no projeto e até mostrar uma posição contrária à
construção.
Quilombolas tem forma de organização própria que deve ser respeitada na consulta. Foto: Mikaell Carvalho/Repórter Brasil
Mas, dependendo da forma como ela for
feita, a consulta pode se tonar inócua. A decisão judicial não estabelece
detalhes sobre o processo, resume-se a afirmar que o licenciamento deve ser
suspenso “até que seja demonstrada a efetiva realização do procedimento de
consulta livre, prévia e informada às populações quilombolas e tradicionais
situadas na sua área de influência direta”.
Para a procuradora Fabiana
Schneider, responsável pelo caso, são as próprias comunidades que devem dizer
como a consulta deve ser feita. Segundo ela, só assim a forma de se organizar
de cada uma delas será respeitada. Para isso, deve ser elaborado um protocolo
de consulta: documento com detalhes sobre como, onde e de que forma eles devem
ser ouvidos. “Cada comunidade vai ter uma forma de decisão. Uma decisão
coletiva, ou uma forma de decisão centrada na sua liderança, seja um cacique,
seja uma liderança quilombola, então essa é a forma que não é dita por nós. Não
somos nós que vamos decidir por eles,” diz a procuradora. Atualmente, a
Federação das Organizações Quilombolas de Santarém já elaboram um protocolo
de consulta.
Já a Embraps se adianta à elaboração
das regras pelas comunidades. Pedro Riva afirma já ter contratado uma empresa
para a consulta. Sem detalhar como ela será feita, ele conta que os trabalhos
“já foram iniciados”, e somente aguarda uma autorização da Fundação Palmares. “Está
tudo prontinho. Aí espero que o Ministério Público nos libere para marcar essa
audiência pública e fazer acontecer,” diz o produtor de soja.
Presidente da Federação das
Organizações Quilombolas de Santarém, Dileudo Guimarães não acredita que a
consulta proposta por Riva possa funcionar. Assim como a maioria dos
quilombolas ouvidos pela reportagem, ele vê o processo como uma oportunidade de
descobrir e mostrar porque eles serão prejudicados pela obra.
O maior desafio da consulta é
equilibrar, na mesma balança, forças díspares. De um lado, um dos maiores
setores econômicos do país com o argumento do desenvolvimento. De outro,
comunidades que vivem de modo sustentável e que, devido aos impactos do
empreendimento, seriam obrigadas a deixar o local onde vivem para engrossar as
periferias das cidades.
A decisão passa por um elemento
delicado que as populações das cidades costumam ter dificuldade em entender: a
sobrevivência de um modo de vida. Mesmo assim, Mário explica e espera ser
ouvido: “se a gente perder isso aqui, é praticamente perder a nossa vida”.
*Fonte: Repórter Brasil - Colaborou Mikaell Carvalho
Esta publicação foi realizada com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo com
fundos do Ministério Federal para a Cooperação Econômica e de Desenvolvimento
da Alemanha (BMZ). Leia
também:Desconfiança de investidores adiou leilões portuários, diz Moreira Franco(Agência Brasil)
Massacre. A palavra resume o resultado
do ataque sofrido na manhã desta terça-feira, 14, pelos Guarani e Kaiowá da
terra indígena Dourados-Amambai Peguá, município de Caarapó (MS). Conforme informações
de lideranças indígenas e da Fundação Nacional do Índio (Funai), o Kaiowá e
agente de saúde indígena Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, 23 anos, foi
assassinado com ao menos dois tiros, morrendo ainda no local. Até a tarde desta
terça, seis indígenas foram encaminhados ao Hospital São Matheus, na mesma
cidade, alvejados por disparos de arma de fogo, entre eles uma criança de 12
anos, atingida com um tiro no abdômen.
Três Guarani Kaiowá foram removidos
para o Hospital da Vida, em Dourados, e dois aguardam remoção. Todos correm
risco de morte. Apenas uma mulher, atingida no braço, deverá receber alta ainda
nesta terça.
No entanto, de acordo com servidores
da Funai, o número de feridos deve ser ainda maior porque os indígenas se
dispersaram pelo território, em fuga, com a chegada de cerca de caminhonetes,
motocicletas, cavalos e trator usados por pistoleiros, capangas e homens que
chegaram atirando contra o acampamento em que os Guarani e Kaiowá estavam na
Fazenda Yvu, incidente sobre a terra indígena, atualmente em processo de demarcação
pelo Minitério da Justiça (MJ).
Em filmagens feitas pelos próprios
Guarani e Kaiowá é possível ver uma centena de homens armados, queimando motos
e demais posses dos indígenas. A maioria dos indivíduos está vestida com um
uniforme preto; nas filmagens, é possível ouvir gritos de: “Bugres! Bugres!”,
forma pejorativa usada para se referir aos indígenas na região sul do país.
Caminhonetes circulam como moscas ao redor dos homens de preto e das enormes fogueiras
usadas para incendiar tudo o que antes era o pouco que estes Guarani e Kaiowá
possuíam, além da terra tradicional pela qual mais um massacre contra o povo se
registra.
Os Guarani e Kaiowá não saíram da área
retomada. Refugiaram-se de forma dispersa em outros rincões do território e na
própria reserva que compõem a terra indígena.
Na porta do Hospital São Matheus, em
Caarapó, a preocupação maior de familiares das vítimas, que vivem em reservas
vizinhas, era sobre a segurança dos indígenas que ainda seguem na área do massacre.
O clima de tensão é tamanho que viaturas da Polícia Militar foram para a
Fazenda Yvu ajudar a socorrer as vítimas, mas acabaram atacadas pelos
indígenas; temiam que os policiais chegassem para atacá-los, posto que na
região a polícia é associada pelos Guarani e Kaiowá aos fazendeiros.
Operação
Massacre
O ataque foi uma resposta à retomada
realizada pelos indígenas de Tey’i Kue na Fazenda Yvu, vizinha à reserva.
Segundo S.T., liderança indígena que estava no local e pediu para não ser
identificada, no último domingo, 12, um grupo de 100 famílias reocupou o
território chamado de tekoha Toropaso, onde incide a Fazenda Yvu. “Quando
chegamos lá, não tinha ninguém na fazenda, só um funcionário que era indígena.
Explicamos nossa luta e ele se propôs a ficar com nós”, relata S.T.
No dia seguinte, os indígenas
receberam a Polícia Federal (PF) no local, acompanhada da Força Nacional,
Polícia Militar e Polícia Civil, além de duas caminhonetes em que estavam,
segundo a liderança, alguns fazendeiros da região.
Após a saída da polícia, um grupo de
carros se aglomerou num ponto a cerca de três quilômetros do acampamento
indígena, e os observou por cerca de quatro horas. Na terça-feira, por volta
das sete da manhã, cerca de 200 carros se concentraram no mesmo local do dia
anterior.
“Às sete da amanhã, começamos a
avistar carro chegando no mesmo local de ontem”, relembra. “Vinha mais de
duzentos carros. Fizeram uma divisão, dois grupos: um veio de um lado, pela
divisa da aldeia, fizeram um cerco na gente. Do outro lado, veio pá cavadeira
[tipo de trator] e arrebentou a cerca, e começaram a entrar pelo campo. Vieram
atirando, atirando, tiroteio feio mesmo, arma pesada”.
A liderança segue no relato: “A gente
foi empurrado de volta pra aldeia. Eles continuaram atrás e entraram na
reserva, atacando. No meio desse ataque o filho da nossa liderança caiu morto,
as pessoas foram feridas”, conta S.T.
Tudo indica que a operação massacre
desencadeada contra a comunidade está longe de um fim. “Estamos cercados aqui.
Tá tudo rodeado, os fazendeiros estão em volta. Não podemos nem entrar nem
sair”, diz S.T. Ainda, os indígenas afirmam saber quem são produtores rurais
responsáveis pelos disparos.
Relatório
publicado e manifestações públicas
Em maio, os indígenas estiveram em
Brasília,pressionando pela publicaçãodo relatório da terra indígena Dourados-Amambai
Peguá. Sob pressão,a Funai assinou o relatório.
Dessa forma, a demarcação da terra indígena teria prosseguimento e o massacre,
para as lideranças indígenas, é uma forma criminosa e covarde de intimidar as
autoridades públicas e expulsar os Guarani e Kaiowá de uma terra que lhes
pertence.
Em nota, o Conselho Indigenista Missionário
categorizou como “paramilitar” a ação, e afirma que, no último semestre, foram
registrados ao menos vinte e cinco casos similares entre os Guarani e Kaiowa do
estado.