Por
Marcio Zonta*
Na última
semana mais duas mortes ocorreram em circunstância de conflito agrário no
sudeste paraense. Dessa vez, o palco foi a cidade de Bom Jesus do Tocantins,
cerca de 70 quilômetros de Marabá.
O líder camponês, Jair Cleber dos Santos, foi alvejado pelo gerente da Fazenda
Gaúcha, conhecido como Neném, após a tentativa de um acordo para que o
funcionário da propriedade liberasse a entrada de tratores para melhoria da
vicinal, onde acampam 300 famílias há mais de seis anos.
No meio da confusão, mais cinco trabalhadores rurais foram baleados pelos
pistoleiros contratados pelo gerente, e o tratorista da prefeitura, Aguinaldo
Ribeiro Queiróz, que esperava uma definição para iniciar o trabalho, também foi
assassinado por Neném.
A Fazenda pertence a Jacundá Agro Pastoril LTDA, cujo presidente é o empresário
e pecuarista paulista Lucas Carlos Batistela.
Segundo informações da Comissão Pastoral da Terra de Marabá (CPT), a área da
fazenda foi grilada e pertence à União. Há seis anos tramita uma ação civil
pública ingressada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
(Incra) na 2° Vara Federal de Marabá, sem decisão.
As mortes, que seguem todos os elementos triviais nos assassinatos de
trabalhadores rurais no sul e sudeste paraense, campeões de óbitos no campo do
Brasil, suscitam rumores sobre o que estaria ocorrendo na maior
superintendência agrária do país. O Incra de Marabá assiste aproximadamente 400
assentamentos no Pará.
A superintendente
A julgar pelos três, talvez, mais emblemáticos superintendes do Incra de Marabá
nos últimos anos, pode- se imaginar porque os trabalhadores rurais têm pagado
com a própria vida o objetivo de conquistar um pedaço de terra.
A atual deputada estadual Benadete Ten Caten (PT-PA), foi superintendente
regional do Incra de Marabá entre os anos de 2003 e 2006. Nesse período, a
deputada teria montado seu esquema de sustentação política e financeira.
Disso, inclusive, resultou-lhe processo por desvio de verba na Justiça Federal,
onde foi condenada em 1ª e 2ª Instâncias, tornando-a inelegível.
Já nos anos 2012 e 2013, o marido de Bernadete, Luis Carlos Pies, esteve na
superintendência como secretário, com fortes indícios de dar continuidade a
trama de Bernadete.
"Penso que vem daí o financiamento, envolvendo presidentes de associações
de lavradores e sindicatos beneficiários com a atuação dela em toda a região”,
ressalta o advogado Ademir Braz, que vem acompanhando os casos de corrupção do
Incra.
Este ano, o Ministério Público Federal (MPF) iniciou uma investigação no
município de Conceição do Araguaia, onde descobriu que um secretário de
finanças tinha forte participação num esquema de desvio de verbas, que
perdurava por dez anos, favorecendo justamente políticos ligados ao “PT pra
Valer”, a tendência de Bernadete.
Em Itupiranga, outro município do sudeste paraense submetido ao Incra de
Marabá, mais um escândalo envolveu agricultores ligados a Ten Caten em
falcatruas com verba do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura
Familiar (Pronaf).
E, enquanto, Bernadete Ten Caten, consolava a viúva de Jair no velório no dia
24 de setembro, seu partido recebia do Grupo Santa Bárbara, do banqueiro Daniel
Dantas, o maior grileiro de terras do Pará, R$ 1,1 milhão para custear
campanhas eleitorais.
Conforme estudo da CPT, 72% das áreas em poder do grupo Santa Bárbara seriam
compostas por terras públicas federais ou estaduais.
O filho de Bernadete, Dirceu Ten Caten concorre no pleito de outubro ao cargo
de deputado estadual no Pará.
Bom rapaz
Tempos depois de Tem Caten deixar a superintendência do Incra, outro personagem
merece destaque. O jovem Edison Bonetti assumiu a instituição por apenas três
meses, em 2103.
Sua gestão, para além da manutenção das fraudes do Incra, foi alvo de revolta
por parte de movimentos sociais e entidades de direitos humanos. E março de
2013, a CPT de Marabá e a Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na
Agricultura do Estado do Pará (Fetagri), protocolaram uma representação no MPF
solicitando investigação na atuação de Bonetti.
O motivo: Bonetti beneficiou com um lote de Reforma Agrária, José Rodrigues
Moreira, o mandante dos assassinatos do casal extrativista José Cláudio Ribeiro
e Maria do Espírito Santo, ocorrido em maio de 2011.
O lote ficava no Projeto de Assentamento Agroextrativista Praialta-Piranheira,
em Nova Ipixuna (PA), o mesmo que estaria em disputa e, por consequencia,
levado a morte o casal.
“Os fatos configuram atos de improbidade administrativa, infrações preliminares
previstas na lei 8.112/90 e crimes contra a Administração Pública praticados
por agentes públicos com participação de particulares, não foi equívoco, não
foi displicência, o superintendente tinha total conhecimento da situação”,
menciona José Batista Afonso, advogado da CPT.
Com a pressão, Bonetti abandonou o cargo. Porém, ficou pouco tempo
desempregado. Logo foi convidado para ser gerente de negócios do empresário e
fazendeiro Rafael Saldanha, trabalho que exerce até os dias atuais.
Rafael Saldanha é réu na ação penal pela morte dos trabalhadores rurais
Onalício Araújo Barros (Fusquina) e Valentim Silva Serra (Doutor), assassinados
em 26 de março de 1998 pela articulação do grupo de fazendeiros ao qual Saldanha
faz parte.
Após as primeiras investigações do assassinato, a juíza de Parauapebas, Maria
Vitória Torres do Carmo, decretou a prisão provisória dos fazendeiros Rafael
Saldanha e Geraldo Teotônio Jota, o "Capota", acusados de cúmplices
nos assassinatos dos dois líderes do MST.
Porém, o estado do Pará nunca cumpriu a determinação, e a ação penal contra os
fazendeiros está prestes a prescrever.
Substituição
Saiu Bonetti, entrou na superintendência Eudério Coelho, atual comandante da
instituição. A figura de Eudério seria a mais frágil de todos os
superintendentes levando em consideração a escala de poder do grupo que
aparelha o Incra, da tendência PT para Valer.
“O monopólio que o PT exerce na direção do Incra só trouxe prejuízo aos
camponeses, e só trouxe poder ao grupo ao qual o Incra está submetido. Todos os
superintendentes da instituição nos últimos anos só trabalharam para obter como
resultado final a eleição de prefeitos, vereadores e deputados”, denuncia
Charles Trocate, do MST.
As últimas declarações e atos de Eudério ilustram o cenário. Em nove de junho
deste ano, em reunião com a coordenação do MST, após ocupação da fazenda de
Rafael Saldanha em Marabá, onde 40 pistoleiros atacavam as famílias acampadas,
o superintendente afirmou: “lavo as mãos e não atuarei contra o latifúndio no
Pará”.
Na mesma ocasião disparou na imprensa nacional a favor do fazendeiro.
“Inspecionamos as duas áreas recentemente e verificamos que elas não têm
problemas”.
Além do mais, demonstrou a prévia negociação com o fazendeiro. “Vamos pedir que
os Sem Terra deixem as duas fazendas. Eles saindo, vamos procurar conversar com
os donos e verificar se eles têm interesse em vendê-las, pois não podemos
simplesmente desapropriá-las”, declarou Coelho.
Semanas depois, um laudo do Instituto de Terras do Pará (Iterpa) comprovava que
as terras ocupadas pelo MST eram griladas, improdutivas e com crimes
ambientais, já que se tratava de área de concessão de afloramento, jamais
podendo ser destinada para pasto, por ser uma zona de castanhal.
A defesa publicamente de Eudério a favor do fazendeiro revelaria, inclusive, à
inoperância da Delegacia de Conflitos Agrário de Marabá (Deca), que negou
investigar a investida de pistoleiros contra os acampados das fazendas de
Saldanha.
Comportamento que se repetiu com os acampados da Fazenda Gaúcha. Mesmo após
inscrever 11 ocorrências de Jair e da comissão coordenadora das famílias do
acampamento, a última em agosto desse ano, denunciando a ameaças de mortes
deferidas constantemente pelo gerente Neném, nada fez.
No enterro de Jair, um agricultor, que prefere não ter sua identidade revelada,
desabafava. Para ele a arma que matou o amigo e o tratorista é manipulada por
muita gente. “Quem aperta o gatilho para matar trabalhador rural no sul e
sudeste do Pará é o PT pra Valer, é o Incra, é a Deca, é o fazendeiro
empresário que grila terras e a justiça sempre morosa e a favor do latifúndio”,
define.
*Fonte:
MST