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sábado, 21 de novembro de 2015

Tragédia em Mariana: quem recebe dinheiro da Vale

Doações eleitorais da empresa que controla Samarco “explodem”. Metade vai para PMDB, partido que controla mineração no governo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)*


O PMDB recebeu R$ 23,55 milhões dos R$ 48,85 milhões destinados por empresas da Vale a comitês financeiros e diretórios na campanha de 2014. O partido controla o setor de mineração no Brasil, indicando o ministro das Minas e Energia e a maioria dos chefes dos Departamentos Nacionais de Produção Mineral (DNPM). Essas cifras se referem às doações eleitorais de seis empresas ligadas à Vale: Vale Energia, Vale Manganês, Vale Mina do Azul, Minerações Brasileiras Reunidas, Mineração Corumbaense Reunida e Salobo Metais.

Em 2010, a soma das doações da Vale alcançava R$ 29,96 milhões, para todas as siglas. Isso mostra um aumento exponencial do investimento do grupo Vale em campanhas políticas. Mas é mais que isso: naquele ano, a empresa só doava para os comitês e diretórios. Em 2014, doou também para candidaturas específicas, do Congresso à Presidência. Isso soma mais R$ 39,32 milhões drenados da Vale para políticos do governo e da oposição, perfazendo um total de R$ 88 milhões – três vezes mais que em 2010.

Entre os doadores para partidos (comitês, diretórios), o PMDB agora dispara em primeiro lugar com seus R$ 23,5 milhões. Em seguida vêm o PT, com R$ 8,25 milhões, o PSDB, com R$ 6,96 milhões, e o PSB, com R$ 3,5 milhões. PP e PCdoB aparecem empatados com R$ 1,5 milhão cada. DEM e PCdoB receberam R$ 990 mil e R$ 900 mil. A lista é completada com SD (R$ 920 mil), PPS (R$ 800 mil), PSD (R$ 250 mil), PROS (R& 150 mil), PRB e PDT (R$ 100 mil cada) e PEN (R$ 70 mil).

Os dados são da Justiça Eleitoral, compilados pelo Outras Palavras. O quadro abaixo se refere às doações para os partidos, e não para as candidaturas.

Clube dos seis.
PMDB – R$ 23.550.000
PT – R$ 8.250.000
PSDB – R$ 6.960.000
PSB – R$ 3.500.000
PP – R$ 1.500.000
PCdoB – R$ 1.500.000

Fonte: TSE/Outras Palavras

Os números da Vale em 2014 são maiores que os divulgados pelo documento Quem é Quem nas Discussões do Novo Código da Mineração, pois três dessas empresas não estavam na lista feita pelo Ibase. A soma consolida a Vale como uma das maiores doadoras de campanha em 2014. A empresa é, ao lado da anglo-australiana BHP Billinton, sócia da Samarco, a responsável pelo rompimento de barragens em Mariana (MG), em um dos maiores crimes socioambientais da história brasileira. Oito pessoas já foram encontradas mortas e dezenas estão desaparecidas.

Esses R$ 49 milhões em doações para comitês e diretórios ainda não dão conta de todas as doações feitas na campanha de 2014. Isso porque é possível doar para os partidos – pelos comitês e diretórios – ou para candidaturas específicas. Sejam estas para o Congresso, sejam para o Executivo. Na prática, algumas doações para diretórios estaduais foram remanejadas pelo PMDB e beneficiaram candidaturas específicas, em particular a de parlamentares que atuam no Congresso em defesa dos interesses das corporações.

Campanhas majoritárias
A candidatura da presidente Dilma Rousseff (PT) recebeu R$ 12 milhões da Vale Energia (R$ 2,5 milhões), Salobo Metais (R$ 3,5 milhões), Mineração Corumbaense Reunida, a MCR (R$ 4 milhões) e Minerações Brasileiras Reunidas, a MBR (R$ 2 milhões). Bem mais do que a verba injetada pelas empresas nos demais candidatos do partido. O governo federal acena com multas à Samarco pelo vazamento de resíduos em Mariana(MG), que já chegam ao Oceano Atlântico, matando animais, plantas e poluindo rios numa escala pouco vista no mundo.

Esses números representam uma grande inflexão em relação às doações feitas por empresas ligadas à Vale na eleição de 2010. Naquele ano, segundo o Ibase, as doações para o PMDB (R$ 5,76 milhões) apareciam apenas em terceiro lugar, atrás do PT, com R$ 10,38 milhões, e do PSDB, com R$ 6,95 milhões. Ao contrário de 2014, quando as duas siglas também disputaram o segundo turno, a Vale só doava para os comitês nacionais de campanha, ou diretórios nacionais, e não para candidatos individuais.

A campanha do candidato Aécio Neves (PSDB), derrotado no segundo turno, recebeu no ano passado R$ 2,7 milhões da Vale Energia, criada ainda nos tempos da Vale do Rio Doce. Não constam no DCE doações de outras empresas da Vale. A candidata Marina Silva (PSB, hoje na Rede) recebeu R$ 488 mil da Mineração Corumbaense Reunida, a MCR, adquirida pela Vale há alguns anos de uma de suas principais concorrentes mundiais, a Rio Tinto.

O governador mineiro, Fernando Pimentel (PT), também teve campanha financiada por mineradoras. Entre elas, Vale Energia, Vale Manganês, MBR e MCR. Vale Manganês e Vale Minas do Azul (todas essas são da Vale) contribuíram com R$ 1 milhão para a campanha de seu concorrente, o tucano Pimenta da Veiga. Eleito senador, o ex-governador Antonio Anastasia (PSDB) igualmente foi financiado pela CBMM (R$ 500 mil) e empresas da Vale, como Vale Energia (R$ 300 mil) e MBR (R$ 500 mil).

O home das emendas
A MCR aparece como uma das principais doadoras para a campanha eleitoral do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), com R$ 700 mil. A doação foi para o diretório do PMDB, que repassou a verba para o candidato. Ele também recebeu, igualmente por meio do diretório, R$ 1 milhão da CRBS, empresa especializada em prospecção mineral que investiu R$ 32,35 milhões na campanha de 2014, dos quais R$ 4 milhões para o Diretório Nacional do PMDB e R$ 600 mil para a direção fluminense do partido.

Cunha foi o líder em emendas para o novo Código: nada menos que 90. Muito à frente do segundo colocado, Bernardo Vasconcellos (PMDB-MG), que apresentou 24 emendas. Um terço das emendas foram apresentadas por deputados do PMDB.

Fonte: Blog do Alceu Castilho (Outras palavras)

Leia mais:
Relator do Código da Mineração recebeu milhões de empresas do setor na campanha de 2014

A lama da Samarco e o jornalismo que não dá nome aos bois


Leia também: Bruno Milanez: “Auditorias apontaram 27 barragens de rejeitos sem estabilidade garantida” (O Eco)

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

“Nós temos mais que uma bancada ruralista, nós temos um sistema político ruralista”, afirma Alceu Castilho

A bancada ruralista (nome dado à frente parlamentar que defende o interesse do agronegócio e dos grandes proprietários de terras) do Congresso tem, declaradamente, 189 deputados federais e 18 senadores até o final de 2014. Desse número, 109 deputados dessa bancada conseguiram se reeleger, e no Senado ela aumentará para 21. Num primeiro momento, parece que a bancada diminuiu, mas analisando o dia a dia das votações, esse número passa de 200 parlamentares. Isso porque uma das maiores financiadoras de campanha, a JBS-Friboi, doou para diretórios de 11 partidos que elegeram 378 deputados federais e 24 dos 27 senadores do pleito de 2014.

Para tentar explicar como se formou a bancada ruralista e como ela age dentro do Congresso Nacional, entrevistamos o jornalista e escritor Alceu Castilho, que publicou o livro “Partido da Terra: como os políticos conquistam o território brasileiro”, em que analisou a declaração de bens de milhares de políticos eleitos entre 2008 e 2010 para mapear os grandes proprietários de terras e suas relações com o poder.

Fonte: Canal 2P -Candeia

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Truco: Cala-boca em Belo Monte


Abrindo a série “Cartas na Mesa”, em que cidadãos criticam os candidatos, a Agência Pública publicou extensa matéria do jornalista Alceu Castilho sobre a hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, maior obra em curso do governo Dilma Rousseff (PT).

A série de reportagem faz parte do  “Truco” , iniciativa em que a partir do horário eleitoral gratuito na TV se verifica se os dados mais relevantes apresentados pelos presidenciáveis são verdadeiros e consistentes.

“Também podemos “pedir o truco”, um desafio público às campanhas para que expliquem promessas ou dados importantes aparentemente insustentáveis .Também podemos discordar frontalmente dos candidatos quando acharmos suas propostas perigosas para a democracia e direitos humanos. Aí vamos carimbar um “Que medo” e fazer uma materinha explicando por quê”, informa a página da iniciativa que aborda cada programa eleitoral e agora produz a sua primeira matéria.

Confira:  “Cala-boca em Belo Monte”

terça-feira, 22 de julho de 2014

Kátia Abreu declara R$ 4 milhões; filho Irajá, R$ 5,7 milhões

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)*

A senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), candidata à reeleição, tornou-se milionária. Ela acaba de declarar à Justiça Eleitoral possuir R$ 4,04 milhões. Em 2006, ela possuía R$ 437 mil. Uma variação de 927%. Ela é presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e uma das principais líderes ruralistas do país.

Um dos bens mais significativos, uma propriedade de 1.268,84 hectares em Campos Lindos, não aparece mais em sua declaração. Em 2006 ela a declarou por R$ 10 mil. Quase a metade dos R$ 4 milhões declarados em 2014 está em aplicação do Banco do Brasil. Kátia declarou uma chácara de 10 hectares por R$ 615 mil.

Bem mais provida de bens rurais é a declaração de bens do filho, o deputado federal Irajá Abreu (PSD-TO), candidato à reeleição. Irajá Silvestre Filho já é mais rico que a mãe, viúva, de quem empresta o sobrenome. Ele declarou ao Tribunal Superior Eleitoral possuir R$ 5,67 milhões.

A maior parte vem de propriedades rurais. Um dos itens descreve os lotes das Fazendas Aliança I, II e III, por R$ 2,9 milhões. Em seguida Irajá declara mais R$ 640 mil em seu terço da Fazenda Aliança, com benfeitorias. Ele também possui outro imóvel rural em Aliança do Tocantins, por R$ 367,5 mil.

A senadora especificou R$ 15 milhões como limite de gastos para a campanha. Irajá, R$ 3,5 milhões.

Tanto Kátia Abreu como Irajá Abreu foram eleitos pelo DEM, em 2006 e 2010. Ela passou pelo PSD e migrou para o PMDB ao se afirmar como membro da base governista. Em 2010 o deputado declarou possuir R$ 1,39 milhão. A variação foi de 251%.

Irajá tem um irmão, Iratã Abreu, vereador em Palmas. Seus bens são mais modestos, em relação aos padrões atuais da senadora e do deputado. Em 2012, ele declarou possuir R$ 852 mil, a maior parte referente à sua parte na Fazenda Aliança.

Juntos, os três possuem R$ 10,6 milhões.

Em 1998 e 2002, eleita deputada federal, Kátia se declarava psicóloga. Em 2006, pecuarista. Em 2010, senadora. Na eleição de 1998 ela declarou 1,170 cabeças de gado bovino. Em 2006, 2010 e 2014, nem ela nem o deputado Irajá Abreu declararam reses. Iratã, em 2012, que se declarou produtor agropecuário, também não.


*Jornalista e autor do livro “O Partido da Terra”. Texto publicado originalmente no Blog Outro Brasil - TWITTER:@blogOutroBrasil NO FACEBOOK: Outro Brasil

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Até quando vamos esperar uma mega chacina indígena? Os mortos "isoladamente" não valem nada? Qual o papel da mídia? E o seu?

Três Tupinambá foram assassinados na Bahia. Em região de conflito com “produtores rurais”, diz o texto da Folha: (aqui). Ela que abriga semanalmente artigo da senadora Kátia Abreu.
Pouco mudou desde a invasão do país pelos portugueses, em 1500. E pouco mudou desde Pero Vaz de Caminha. Com os escribas a serviço do poder. Os jornais cumprem diariamente a função de escantear os conflitos agrários. Uma das características centrais deste país. Para quem tiver olhos para ler e um mínimo de aversão à cumplicidade. Esta que ronda cada brasileiro indiferente.
Três assassinados. Mais três. Esperaremos uma chacina, um caso com 10 ou 20 assassinados, e com a consequente repercussão internacional, para darmos valor a esse tipo de notícia?
Eu as divulgo quase diariamente, em minhas páginas: Outro Brasil,  Partido da Terra. Ainda há pouco, aqui mesmo no meu perfil, publicava notícia sobre atentado contra índios Guarani, em plena capital econômica do país. Quantos compartilharam, quantos perderam alguns segundos com isso?
Logo em seguida fiquei sabendo desses assassinatos na Bahia. Atenção: eles não são exceção. Não são. Mas isso não pode implicar embotamento. Esvaziamento da capacidade de indignação, falta de atitude. Como costuma ocorrer nestas terras virtuais – à exceção de alguns espasmos de cidadania.
Sinto com dor um imenso desprezo da maioria dos que estão lendo por esse tipo de notícia. Parece que não é com a gente, né? Mas é também com a nossa assinatura, caros colegas, leitores, amigos. Com a nossa mesquinharia, com os nossos votos e com a nossa falta de horizontes.
Prestem atenção numa coisa: o Rei do Camarote é fichinha. Apenas um bobalhão. Não possui centralidade nenhuma em nossa democracia sórdida. O Brasil ainda é movido – politicamente, inclusive – pelos Reis do Campo, pelos Sultões do Agronegócio. Eles têm largo espaço nos jornais e revistas – dá status.
Eles escarnecem toda semana de suas vítimas, no Congresso e nas Assembleias, com projetos de lei que restringem ainda mais o direito de indígenas, camponeses, trabalhadores rurais.
A cobertura do agronegócio é vergonhosa, pró-empresas, a favor de um modelo que nos envenena, que arrebenta biomas, desmata. E que expulsa indígenas e camponeses. Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. E a imprensa favorece um desses corpos (o espaço do lucro) em detrimento da maioria dos brasileiros.
Enquanto isso, seguimos com nossas piadinhas. Com nossa suposta aversão aos “camarotes”. Nós que nos privatizamos tanto.
Parte significativa de nossos camarotes é desenhada com arames farpados. E eles estão manchados de sangue. Com séculos de grilagem e 500 anos de escárnio – que não sairão na capa da Vejinha.
Poucos perceberam que a Kátia Abreu (PMDB-TO) e o deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS), os ruralistas mais agressivos, são personagens 800 vezes mais importantes que o Bobalhão do Camarote
Está mais do que na hora de cada um decidir de que lado está. Dos que excluem e matam ou dos que brigam por um país diferente. Com um mínimo de democracia (mais que isso que temos) e um mínimo de humanidade.
Com menos omissão e menos cinismo. Menos distração e mais atitude.
*Reproduzido pelo blog Combate ao Racismo Ambiental