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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Região de Santarém: Rastreamento de caminhões revela destruição silenciosa da floresta

Em investigação o Greenpeace monitorou o trajeto de caminhões no Pará e conseguiu estabelecer os vínculos de uma cadeia predatória de exploração de madeira ilegal que opera livremente na região e comercializa com os mercados nacional e internacional
Um caminhão de carga aguarda para ser carregado com madeira ilegal em uma área próxima a Santarém, no Estado do Pará, o centro da indústria madeireira na Amazônia. (© Otávio Almeida/Greenpeace)
Entre agosto e setembro de 2014, o Greenpeace esteve em campo, no Pará, para monitorar as rotas de caminhões madeireiros que fazem o trajeto entre as áreas públicas de florestas no oeste do Estado, e as serrarias da região. De acordo com a investigação, nenhuma das áreas exploradas possuía qualquer tipo de autorização.
Durante o dia, os caminhões se dirigem até áreas remotas de florestas, onde são carregados com toras de madeira. À noite, quando a fiscalização é menor, dezenas deles tomam as estradas da região, nas proximidades de Uruará e Placas, e seguem até as serrarias de Santarém e arredores.
Estima-se que aproximadamente 80 caminhões cruzam a cada noite a balsa pelo rio Curuá-Una, na PA-370, que vai até Santarém. O tráfego na balsa é mais intenso entre as 11 da noite e 1h30 da madrugada.
Santarém concentra o principal polo da indústria madeireira no Pará, estado que mais produz e exporta madeira da Amazônia. Segundo dados do Imazon, entre agosto de 2011 e julho de 2012, cerca de 78% das áreas com atividades madeireiras no Pará não tinham autorização de exploração.
Madeireiras lavanderia
As três serrarias que receberam essa madeira foram: Rainbow Trading Importação e Exportação LTDA, Comercial de Madeiras Odani LTDA e Sabugy Madeiras LTDA. Cada uma delas tem um histórico de ilegalidades e somam, juntas, o recebimento de multas de cerca de R$ 1,5 milhão pelo Ibama nos últimos dez anos.
De acordo com os documentos oficiais, a Rainbow Trading recebe madeira de áreas de planos de manejo florestais autorizados. Porém, análise de imagens de satélite mostra que não houve nenhuma atividade madeireira na maioria dessas áreas de manejo, o que indica que esses planos estão servindo para fornecer créditos e documentação oficial para 'lavar' a madeira ilegal. Enquanto isso, as terras públicas de onde a madeira está sendo roubada apresentam sinais claros de exploração, com madeira estocada em grandes clareiras abertas na mata e diversas estradas ligando esses caminhos.
Abastecidas com madeira ilegal, estas serrarias exportam regularmente para a Europa, China, Japão e Estados Unidos – a despeito das leis que proíbem a comercialização de madeira ilegal em alguns desses mercados. Somente entre janeiro e agosto de 2014, por exemplo, uma destas serrarias teve relação comercial com França, Bélgica, Holanda e Suécia.

Chega de Madeira Ilegal!
Em maio de 2014, quando lançou a campanha Chega de Madeira Ilegal, o Greenpeace revelou como o sistema de controle de madeira está sendo burlado para acobertar madeira de origem ilegal. Uma série de falhas no sistema tem permitido que madeira extraída de forma ilegal e predatória seja vendida nos mercados nacional e internacional com ares de legalidade, tornando o mercado um parceiro oculto da destruição silenciosa da floresta.
"A madeira ilegal é a porta de entrada para o desmatamento. A abertura de estradas por madeireiros torna a floresta mais suscetível à degradação e fragmentação. E, por passar despercebida pelos olhos dos satélites, esse tipo de destruição florestal nem entra na conta das emissões de gases do efeito estufa”, afirma Marina Lacôrte, da Campanha da Amazônia do Greenpeace. “Dadas às falhas estruturais do sistema de controle de madeira no Brasil e a histórica falta de governança na Amazônia, documentos oficiais não são suficientes para garantir a legalidade da madeira. Nossa investigação levanta muitas questões para as autoridades responsáveis em assegurar a origem responsável do produto – desde a floresta até o mercado”.
O Greenpeace exige que o governo brasileiro reveja todos os planos de manejo aprovados na Amazônia desde 2006 como primeiro passo para uma revisão robusta do sistema de controle de madeira, com processos públicos, transparentes e integrados. O governo federal deve promover o aumento da capacidade de ação dos órgãos ambientais estaduais e federais, com mais recursos para ações de monitoramento e fiscalização, a fim de permitir que o crime seja combatido antes que milhares de árvores tenham sido abatidas.
"Ao manter as portas abertas para receber madeira ilegal, o mercado se torna cúmplice da destruição da Amazônia. Empresas que comercializam madeira da Amazônia devem parar de comprar a menos que tenham garantias, por meio de mecanismos próprios, de que aquela madeira não tenha contribuído para o desmatamento, degradação florestal, perda de biodiversidade e impactos sociais negativos, como a violência contra a população local", finaliza Marina.
Fonte: Greenpeace

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

BR-163: Baú do desmatamento aberto na Amazônia

O cruzamento de dados das últimas medições dos sistemas de monitoramento e detecção de desmatamento na Amazônia Legal do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), junto com as observações em campo, indicam que 29% de uma área de 317 mil hectares vizinha à Terra Indígena Baú, às margens do Rio Curuá, foram desmatados. Coincidentemente, essa foi exatamente a área reduzida dos limites da TI, no ano de 2003, via portaria do Ministério da Justiça. A decisão foi tomada à época sob a pressão de proprietários rurais do município de Novo Progresso (PA), cedendo a interesses econômicos e políticos em detrimento dos socioambientais.

“Chamam atenção os pontos de acentuado desmatamento na área próxima à Baú, principalmente neste momento, em que vários projetos legislativos tentam barrar a criação, demarcação e regularização de Terras Indígenas sob o argumento de que o país tem ‘muita terra para pouco índio’. O Brasil não precisa desmatar mais para aumentar sua produção agrícola. Existem várias áreas já abertas e não aproveitadas, que podem ser utilizadas”, afirmou Rômulo Batista, da campanha da Amazônia do Greenpeace, à reportagem de O Globo.

Segundo Batista, o desmatamento no entorno da TI Baú é um símbolo do que pode ocorrer se forem alteradas as regras de demarcação e uso das Terras Indígenas, como querem os parlamentares ligados à ruralistas. “O desmatamento começou depois da desafetação da área”, explicou.

Degradação passada, desmatamento futuro
No último ano, registros aéreos de desmatamento e embargos de grandes áreas por atividades ilegais nesta região reduzida da TI Baú foram detectados continuamente, demonstrando que as pressões da exploração predatória na região cresceram de forma extremamente agressiva e desordenada durante a década que sucedeu a redução da área. As consequências foram, basicamente, destruição de floresta nativa pela exploração predatória por espécies de alto valor comercial, perda irreparável de biodiversidade, criação de mais áreas de pasto e novos focos de monocultura para plantio de soja.

Até 2012, o PRODES (Sistema de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal) detectou um total de 10907 hectares de floresta perdida somente no entorno da TI Baú (área assinalada na janela de zoom do mapa acima). Desse total, aproximadamente 50% foi desmatado somente no último ano – de agosto de 2011 a junho de 2012.

De acordo com o DETER (Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real), que mede os alertas de desmatamento mês a mês, de agosto de 2012 a maio de 2013, o total desmatado foi de 10168 hectares, quase o mesmo número que mostra o acumulado do Prodes. Isso significa que, se compararmos o PRODES e o DETER, apenas nos últimos dez meses foi desmatada uma área igual ao desmatamento acumulado até 2012.

Na última medição do DETER, com dados de maio de 2013, o Inpe (Instituto de Pesquisas Espaciais) apresentou uma área de 2741 hectares, embargada recentemente, no distrito de Castelo dos Sonhos (PA), no entorno da BR-163.

Questionado sobre essa perda florestal, o Ibama afirmou ser a mesma área que a equipe de pesquisa do Greenpeace identificou na região da TI Baú, em duas ocasiões distintas. No mês de março deste ano, nossas equipes fizeram registro aéreo georreferenciado da região, e em junho, com outro sobrevoo pela mesma área, foi constatada relevante ampliação do desmatamento (confira o comparativo nas imagens abaixo).


Fonte: Greenpeace