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terça-feira, 9 de outubro de 2012

No oeste do Pará, políticos tradicionais continuam dominando.

Maria do Carmo Martins (de preto): faltaram alguns arremates para eleger Lucineide Pinheiro (de vermelho).

O quadro que sai destas eleições municipais na região Oeste do Pará é de manutenção e até aprofundamento de políticos tradicionais na maioria dos municípios, ligados a grupos familiares oligárquicos e aos chamados caciques regionais.

O crescimento do PSDB nos três maiores municípios do estado se refletiu no oeste com a vitória de Alexandre Von em Santarém, com apoio e envolvimento direto na campanha de Lira Maia (DEM), o deputado federal que também já foi prefeito de Santarém (com Von como vice) e que atualmente é tido como o político brasileiro com mais processos no Supremo Tribunal Federal e tem a irmã como vice do tucano.

A derrota do PT em Santarém, depois de oito anos à frente da prefeitura, foi maior do que previsto nas pesquisas eleitorais, no que pese uma forte e cara campanha, que contou com mensagens de apoio da presidente Dilma Rousseff e do ministro da saúde, Alexandre Padilha. Com toda essa força, a derrota da petista Lucineide Pinheiro possui elementos que merecem ser analisados.

O primeiro deles é a rejeição que o PT passou a ter em todo o Pará depois do governo de Ana Júlia Carepa (2007-2010). Neste processo, o PSDB já vinha crescendo na região, como nas eleições de 2010, onde não só o atual governador Simão Jatene (PSDB) venceu em Santarém, mas também o candidato à presidente tucano, José Serra, fenômeno que ocorreu na maioria das cidades do Oeste do Pará (relembre esta notícia 
AQUI).

Talvez com muito maior peso, a administração da prefeita Maria do Carmo Martins também foi fundamental para a derrota do PT em Santarém. A demora em iniciar o segundo mandato (a prefeita chegou a ser
afastada pela justiça eleitoral), a incômoda aliança com o PMDB que comandou a caótica saúde da cidade e mesmo assim saiu com candidatura própria, a indicação de surpresa de Lucineide quando a campanha tinha sido até então para o Secretário Inácio das Baterias e um conjunto de assessores que conseguiram em plena campanha eleitoral jogar asfalto na praia mais famosa do Pará,  jogaram por terra as chances do PT continuar à frente da prefeitura onde governava por 8 anos.

Longe da administração da principal cidade do interior do Pará, restou ao PT na região continuar à frente da prefeitura da pequena e histórica Belterra (13.605 eleitores), onde “Dilma de Belterra” venceu com uma pequena diferença de 25 votos, em meio à chuva de denúncias de compra de votos e reelegeu Raulien Andrade em Jacareacanga (8.206 eleitores). O PT retomou também a prefeitura de Medicilância (16.592 eleitores), na região da Transamazônica com Gaúcho da Entre Rios, ganhou em Almerim (20.948 eleitores) com Botelho e por enquanto, a prefeitura de Monte Alegre (41.939 eleitores), com “Dr. Sérgio”. A situação em Morte Alegre ainda pode ter uma reviravolta, pois um dos candidatos, Jardel Vasconcelos (PMDB) teve a candidatura impugnada, mas a situação ainda não está totalmente definida pela justiça eleitoral. Como o número de votos nulos foi superior ao do primeiro candidato, é possível que a maior parte destes votos sejam do candidato impugnado, que pode “reaver” os votos se sua candidatura for reavaliada.

Outra derrota “histórica” dos petistas se deu em Anapu (14.256 eleitores), município onde foi assassinada a missionária Dorothy Stang em 2004 e onde um ex-pupilo, o sindicalista e prefeito “Chiquinho do PT” se aliou com madeireiros e latifundiários contra assentados e lideranças da Comissão Pastoral da Terra (Veja
AQUI ). Chiquinho do PT perdeu para uma candidatura do PSDB (“Batista”) por 1.194 votos válidos de diferenças e deixa a prefeitura em 1° de janeiro.

O atual vice-prefeito de Anapu, 
o fazendeiro Délio Fernandes, (já acusado no passado de está envolvido na morte de Dorothy Stang) concorria neste ano à prefeitura de Altamira (64.025 eleitores), município impactado pela hidrelétrica de Belo Monte. Délio (PR) ficou na terceira posição com 11.925 votos (25,48% dos votos válidos). Em Altamira, venceu ninguém menos do que Domingos Juvenil (PMDB), ex-presidente da Assembleia Legislativa do Pará e denunciando como uma das cabeças de um grande escândalo de corrupção e  pagamento de fantasmas na casa legislativa e apadrinhado político de Jáder Barbalho. Juvenil teve 41,65% dos votos válidos (19.494 votos válidos).

Disputando a reeleição com uma frente que ia do PT ao DEM, o fazendeiro e madeireiro Valmir Climaco (PMDB) foi destronado da prefeitura de Itaituba (68.679 eleitores), onde assumiu após a cassação do então prefeito Roselito Soares. Às vésperas da eleição, Climaco teve o registro da candidatura cassado por abuso de poder econômico por distribuição de combustível, mas uma liminar dada pelo Tribunal Regional Eleitoral assegurou a presença no pleito. Climaco teve a gestão marcada pela prisão de seu Secretário de Meio Ambiente por 
tráfico de carne da fauna silvestre e o atendimento de uma cachorra que realizou parto no hospital municipal por ordem do Secretário de Saúde (vindo à cadela depois a óbito), além de uma extensa folha de absurdos (Veja AQUI
), acabou perdendo o cargo para a candidata Eliene Nunes (PSD), candidata apoiada pelo PSDB e pelo ex-prefeito cassado, Roselito.

Outra destronada foi a prefeita de Novo Progresso (17.479 eleitores), Madalena Hoffman (PSDB) que não foi reeleita, perdendo a eleição para Osvaldo Romanholi (PR) por apenas 32 votos. O ex-prefeito e ex-neo-petista, Tony Fabio (agora no PRB), ficou em terceiro lugar.

Mas o PSDB levou ou apoiou ainda os prefeitos eleitos nos municípios de Terra Santa (11.373 eleitores) com Marcílio Picanço (PSD); Oriximiná (41.242 eleitores) com Luiz Gonzaga (PV); Curuá (9.373 eleitores) com Adriana Pereira; Prainha (20.769 eleitores) com Patrícia Hage (PSDB); Mojuí dos Campos (16.867 eleitores) com Jaílson do Mojuí (PSDB); Rurópolis (16.563 eleitores) com Pablo Genuíno (PSDB); Marina Sperotto (PSB) em Brasil Novo (12.534 eleitores);

Os outros eleitos na região foram: Marinete Costa (PMDB) em Faro (6.208 eleitores); Mário Henrique (PMDB) em Óbidos (32.820 eleitores); Flávio Marreiro (PSC) em Alenquer (34.157 eleitores); Fuzica (PSC) em Aveiro (10.369 eleitores); Danilo Miranda (PMDB) em Trairão (9.780 eleitores); Gauchão Leonir (DEM) em Placas (11.392 eleitores); Banha (PDT) em Uruará (26.811 eleitores); Vando (PSB) em Vitória do Xingu (9.513 eleitores); Fernando Uchôa (PR) em Senador José Porfírio (8.736 eleitores) e Edilson Cardoso (PSDB) EM Porto de Moz (17.785 eleitores).

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Anapu: Incra prossegue supervisão ocupacional com apoio da PF e da Força Nacional e Transamazônica é fechada



A pedido do Ministério Público Federal, onze policiais federais e membros da Força Nacional de Segurança estão em Anapu para acompanhar os trabalhos de supervisão ocupacional realizado por servidores do Incra no Projeto de Assentamento Grotão da Onça. Os servidores que estavam executando os trabalhos vinham sofrendo ameaças. O prefeito da cidade, Franscisco de Souza, o Chiquinho do PT, chegou a enviar um documento ao Ministério de Desenvolvimento Agrário e ao Incra dizendo-se incapaz de garantir a segurança dos servidores e afirmando que temia que o pior acontecesse.

Pessoas que ocupam os lotes irregularmente ou que realizaram a compra e a venda de terras do assentamento se organizaram a partir do poder político local para tentar barrar o processo de regularização do projeto. A sede do Incra em Anapu chegou a ser bloqueada por alguns dias a algumas semanas atrás e ocupantes irregulares promoveram uma série de denúncias visando à suspensão da ação.

Com a retomada dos trabalhos, o Incra espera realizar a notificação dos ocupantes dos lotes considerados em situação irregular, classificação esta obtida por meio de vistorias já realizadas.

Transamazônica interditada
Aparentemente por outros motivos que não o retorno dos trabalhos do Incra e forças de segurança, agricultores bloquearam durante esta semana, a rodovia Transamazônica em Anapu.

Cerca de 300 pessoas protestaram aparentemente contra as condições de acesso à Região do Travessão Surubim, onde vivem em torno de 2 mil famílias. O vereador e sindicalista Luís Sena (PT), o mesmo que exige a saída de servidores do Incra do município, liderou o protesto.

Segundo matéria no Diário do Pára, Luís Sena argumenta que as obras de recuperação da estrada que dá acesso aos lotes do Travessão do Surubim já foram licitadas pelo Incra em 2010, a partir de um pedido do Ministério Público Federal. O início dos trabalhos estava previsto para acontecer em maio deste ano, mas até agora nada foi feito.

Segundo o blog do deputado estadual Airton Faleiro (PT), “os manifestantes decidiram aguardar em suas propriedades a chegada das máquinas até na próxima terça feira (18), da empresa GG do Prado que ganhou a licitação para a construção e manutenção dos 90 quilômetros de estrada que dá acesso aos projetos, como garantiu em nota ontem, a presidência do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), responsável pela liberação dos recursos para a obra.”

*Com algumas informações do sítio do INCRA

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Funcionários do Incra são ameaçados no Pará

Fotografia: Cândido Neto da Cunha
Gabriel Bonis* 


Dois funcionários do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) enviados a Anapu, Sudeste do Pará, para fazer a revisão ocupacional em lotes de reforma agrária estão sofrendo ameaças e sendo hostilizados pela população local. Por isso, o Ministério Público do Pará, após pedido dos envolvidos, solicitou à Polícia Federal proteção até a finalização do procedimento.
A revisão já ocorreu no Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança e agora segue para o Grotão da Onça. Segundo o procurador da República responsável pelo pedido, Cláudio Terre do Amaral, as ameaças são antigas e vêm aumentando, pois há pessoas que não querem o prossseguimento da operação. “À medida que o tempo passa, os lotes são vendidos e ocupados de forma ilegal”, diz ao site de CartaCapital, por telefone.

“A revisão é necessária para analisar se as condições da reforma agrária estão sendo cumpridas. Quem não tem o perfil deve sair e isso desagrada muita gente que esta lá de forma irregular, causando tensões.”
Além disso, o prefeito de Anapu, Francisco de Assis dos Santos Sousa, enviou um ofício ao presidente do Incra, Celso Lacerda, informando que não poderia garantir a segurança dos servidores do órgão. “A revolta que está sendo criada por esses servidores coloca em risco sua própria integridade física”, disse.
Com isso, o procurador pediu agilidade na avaliação do requerimento de escolta, pois os servidores não possuem proteção e seguem trabalhando. Ele ainda informa que nesta quarta-feira 21, se reúne com Lacerda, em Altamira, para discutir a situação.
Por meio de sua assessoria de imprensa, o Incra reconhece que há problemas de venda de terrenos na região, que são identificados com a vistoria. Segundo o órgão, o processo ocorre em duas frentes: in loco, com a visita de um agrônomo e um técnico de nível médio para conferir a lista de beneficiários e quem de fato está na terra, além uma análise do lote, e por meio de relatórios feitos na etapa anterior.
A partir da análise dos documentos, o Incra tem a possibilidade de abrir um processo administrativo para averiguações. Este pode culminar em uma ação exigindo o devolvimento do lote por irregularidades, pois, geralmente, a terra pertence à União e não ao assentado.
Tensão e acusações
De acordo com o procurador, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Anapu acusa os funcionários do Incra de exigir dinheiro para manter os moradores em seus lotes. Os funcionários negam e apontam como problema na região a extração ilegal de madeira, além do elevado número de pessoas no projeto fora do perfil da reforma agrária, com dois ou três lotes de terra, algo ilegal. “As informações estão desencontradas, mas estamos investigando.”
O Incra informou que a equipe registrou um Boletim de ocorrência contra um membro do sindicato alegando calúnia e falso testemunho e diz apoiar a investigação do caso.
A região de Anapu é conhecida pelos conflitos agrários e também por ter sido o local onde a missionária americana Dorothy Stang,  idealizadora do PDS, foi morta em 2005, com seis tiros.
O crime ocorreu justamente porque a irmã denunciou a intenção do fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão, condenado a 30 anos de prisão como mandante do assassinato, em adquirir ilegalmente um lote do assentamento Esperança.
Amaral alerta que a região continua enfrentando problemas de retirada ilegal de madeira por invasão das terras da União ou coersão de agricultores. Inclusive, em janeiro deste ano, habitantes do acampamento que não concordavam com o desmatamento fecharam a transamazônica. “Colocamos uma guarita do Incra na entrada do PDS, o que ajudou a diminuir a extração de madeira, mas isso desagrada quem tem interesse em cometer crimes.”
*Fonte: Carta Capital

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Diante de ameaças, MPF pede proteção a servidores do Incra em Anapu

Por Leonardo Sakamoto*
O Ministério Público Federal solicitou à Polícia Federal um contingente para acompanhar servidores do Incra que estão trabalhando em Anapu (PA). De acordo com o MPF, os servidores estão sendo ameaçados e hostilizados depois que começaram a fazer a revisão ocupacional em lotes de reforma agrária, solicitada pela própria instituição.

Em fevereiro de 2005, a missionária Dorothy Stang foi assassinada com seis tiros – um deles na nuca – aos 73 anos. Ela foi alvejada numa estrada vicinal de Anapu. Ligada à Comissão Pastoral da Terra, Dorothy fazia parte da Congregação de Notre Dame de Namur, da Igreja Católica. Naturalizada brasileira, atuava no país desde 1966 e defendia os Programas de Desenvolvimento Sustentável como modelo de reforma agrária na Amazônia. Dois dos fazendeiros acusados de serem o mandante chegaram a ser julgados e condenados. Ambos estão presos – um milagre em se tratando de Amazônia.

Segundo nota divulgada pelo MPF, o trabalho é necessário para evitar que madeireiros e grileiros continuem a ameaçar agricultores como os do Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança, idealizado por Dorothy e constantemente invadido para retirada ilegal de madeira. Os conflitos no PDS reduziram depois que o Incra começou a revisão, mas há protestos ligados a madeireiros.
Grupo ligado ao prefeito Chiquinho do PT exige a saída de servidores do Incra de Anapu. Estratégia do grupo inclui protestos, falsas denúncias e até ameaças de morte.
A mesma nota afirma que o prefeito de Anapu, Francisco de Assis dos Santos Sousa, enviou um ofício ao presidente do Incra apontando a situação de insegurança: “a revolta que está sendo criada por esses servidores coloca em risco sua própria integridade física e nós, que somos autoridade deste município, não podemos nos responsabilizar por sua segurança”.

Em outras palavras: “estão atrapalhando por aqui. Depois que alguém aparecer morto, não digam que não avisamos”.

O procurador da República Cláudio Terre do Amaral quer agentes da Polícia Federal deslocados para Anapu para garantir a integridades dos servidores públicos até que seja completado o processo de revisão ocupacional. No ano passado, foi instaurado um inquérito a pedido do MPF para investigar os responsáveis pelo assédio aos agricultores para retirada ilegal de madeira de terras da União. Também foi instalada uma guarita na estrada que leva ao PDS Esperança, o que tem contribuído para impedir a saída de madeira serrada ilegalmente.

O procurador da República Felício Pontes me explicou que o Programa de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança pode ser insignificante em tamanho, mas importante em termos de Pará. Não só pelo simbolismo representado por ser as terra defendida pela missionária Dorothy Stang, mas por conta do modelo diferenciado que ele representa. Em julho de 2010, o Pará se tornou o maior produtor de cacau do Brasil e o PDS Esperança teria uma grande parcela de responsabilidade nisso.

De acordo com ele, o programa é um oásis em meio a miséria local formada por grandes extensões de pasto e gado raquítico, mostrando que é possível garantir qualidade de vida à população e desenvolvimento econômico ao país, de forma sustentável e pacífica, com respeito aos recursos naturais.

Na área de um dos mandantes do assassinato da irmã Dorothy (Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida), hoje, há cobertura florestal com árvores de sete metros de altura. As famílias que produzem o cacau, orgânico, estão formando uma cooperativa. Já quem está trabalhando com gado e madeira na região está na miséria. Vale ressaltar que Bida foi flagrado com trabalho escravo pelo grupo móvel de fiscalização do governo federal, que libertou 13 trabalhadores rurais de seu pasto. Por conta disso, ele foi relacionado durante dois anos na “lista suja” do trabalho escravo.

Depois da morte de Dorothy, o MPF ganhou decisões judiciais sobre a questão da terra na região. Para tentar desestabilizar o PDS, grupos descontentes colocaram “toreiros” no papel de assentados para extrair e vender madeira. Os conflitos resultantes entre esses madeireiros e os assentados reais ganhou espaço na mídia nacional e internacional.


*Publicado originalmente no blog do Sakamoto. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Não quer calar....



Será que o protesto na Volta Grande do Xingu tem alguma coisa haver com a peregrinação que o Deputado José Geraldo do PT (foto ao centro) fez acompanhado do prefeito de Anapu, Chiquinho do PT, por vários ministérios em Brasília há algumas semanas atrás?

Será que os deputados estaduais petistas Airton Faleiro (à direita) e Valdir Ganzer (à esquerda) passaram de promoteres do protesto a reféns dos agricultores em Altamira? 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Anapu: Ibama apreende madeira no interior de assentamento

Dezenas castanheiras foram derrubadas. Equipamento tinha selo da Secretaria de Agricultura do Estado do Pará

No dia 11 de fevereiro, fiscais do Ibama acompanhados de agentes da Polícia Federal e Força Nacional de Seguranças que estão atuando no município de Anapu apreenderam uma grande quantidade de madeira no interior do Projeto de Assentamento Pilão Poente III, área vizinha ao PDS Esperança, projeto de assentamento onde a missionária Dorothy Stang foi assassinada em 2005 e que voltou ao noticiário recente devido a conflitos entre agricultores e madeireiras.
Uma denúncia levou os agentes até o local onde constataram um grande desmatamento, inclusive com dezenas de castanheiras derrubadas. A castanheira-do-pará é uma  espécie protegida por lei e com corte proibido. Além das toras, foi encontrada ainda madeira cerrada.
Uma serraria portátil também foi apreendida no local. O equipamento possui selo da Secretaria de Agricultura do Estado do Pará – SAGRI com número de patrimônio 13.156. Segundo informações levantadas no local, o STTR de Anapu estaria de posse do equipamento que estava sendo usado para serrar a madeira que seria vendida para a Secretaria de Educação do município de Anapu para a construção de escolas.

Também foram apreendidos pelo IBAMA tábuas de castanheiras beneficiadas pela serraria do STTR de Anapu no prédio da Secretaria de Educação de Anapu. O sindicato teria sido multado. A Secretaria de Educação teria sido indiciada pela Policia Federal, bem como o presidente do sindicato, o Sr. Manoel Carvalho.

A serraria portátil foi levada para o PDS Anapu III e IV (Virola - Jatobá), onde a associação ficou como fiel depositária da mesma. A madeira apreendida  no assentamento poderá ser doada.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Anapu: Nota Pública da Comissão Pastoral da Terra


A CPT - Comissão Pastoral da Terra Xingu – Anapu/Altamira, em conjunto com os movimentos sociais subscritores, por ocasião do 6º aniversário do assassinato de Ir. Dorothy vem a público repor a verdade dos fatos e denunciar a postura totalmente divorciada dos interesses dos trabalhadores excluídos dos assentamentos de Anapu.

O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Anapu com apoio da FETAGRI de Altamira e Prefeito de Anapu tentaram se aproveitar e utilizar para seus interesses um grupo de trabalhadores rurais que ocupam ilegalmente parte da área de reserva legal do Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança em Anapu-PA.

Lembramos aqui que:

A situação começou quando no dia 10 de janeiro passado os trabalhadores, assentados legalmente no PDS, passaram a bloquear o tráfego de caminhões dos madeireiros na principal vicinal de acesso ao referido assentamento, solicitando a presença da Superintendente do INCRA, Sra. Cleide Souza para ouvir suas reivindicações, quais sejam:

• Construção de Guaritas com vigilância nos acessos ao PDS para coibir a extração ilegal de madeiras;

• Aceleração no processo de vistoria para retomada das áreas ocupadas ilegalmente e retirada dos ocupantes da área de reserva legal com conseqüente remanejo dos mesmos para locais em que podem ser assentados.

No dia 18 de janeiro a Superintendente se reuniu com os trabalhadores, comprometendo-se em atender a pauta reivindicada. Todavia, ao retornar para Anapu, no quilômetro 8 da Vicinal do Santana, teve sua passagem bloqueada pelo grupo manobrado pelo sindicato, que não desejava a colocação de guarita, haja visto que não somente ocupam irregularmente a área como extraem madeira ilegalmente do PDS. A Sra. Cleide só pode prosseguir viagem após algumas horas e sob a promessa do grupo ser ouvido pelo Ouvidor Agrário Nacional, não obstante tais pessoas já terem negociado exaustivamente com o INCRA, mas em razão de não terem seu pleito ilegal atendido, teimavam em prosseguir sob o comando espúrio do ex-presidente do STTR e hoje presidente da Câmara de Vereadores, Luiz Sena; de Manoel de Tal, atual presidente do STTR; da Sra. Jaqueline, secretária da associação dentro do PDS; de Josildo, atual vice-presidente do STTR e de uma associação dentro de um projeto de assentamento, todos com apoio ostensivo do prefeito de Anapu e presidente do Consórcio Belo Monte, Francisco de Assis conhecido como “Chiquinho do PT”.

A audiência pública então solicitada por esse grupo foi realizada no dia 25 de janeiro de 2011 no galpão da Igreja Católica em Anapu denominado Centro Cultural Dorothy Stang, contando com a presença do Ouvidor Agrário Desembargador Gercino, representante da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, do INCRA, Ministério Público Federal, Polícias Federal, Força Nacional dentre outros.

Nessa ocasião, foram ouvidas, por todos os presentes, as incitações feitas pelos senhores Josildo e Luis Sena, que gritavam para o povo responder se queriam a CPT e as irmãs de Notre Dame, o estimulando a responder “Fora”. Lembrando o calvário de Jesus Cristo, quando os romanos perguntavam ao povo quem queriam que fosse solto, se Jesus ou Barrabás.

Ainda nessa audiência pública esse grupo, liderado por Josildo e Luis Sena, que inclusive foi notificado pelo INCRA a deixar as terras por facilitar a retirada de madeira ilegal aos madeireiros, fez acusações gravíssimas aos membros da Comissão Pastoral da Terra, alguns chegando a afirmar que o coordenador da CPT, Padre Amaro não devia se meter e deveria parar de denunciar, junto com trabalhadores,a extração ilegal da madeira ao INCRA e ao Ministério Público Federal, e que devia parar de perseguir pedindo fiscalização por parte do Órgãos nas entradas das vicinais do PDS Esperança.

O prefeito de Anapu Francisco de Assis, conhecido por “Chiquinho do PT” tem adotado postura contrária ao desenvolvimento sustentável da região, fazendo coro com os madeireiros, tendo inclusive como vice-prefeito o madeireiro e fadanzeiro Délio Fernandes, mencionado no inquérito que apurou a morte da Irmã Dorothy, como aquele que tentou ajudar na fuga de dois dos envolvidos, Tato e Bida.

Chiquinho do PT, além de prefeito, é o presidente do Consórcio Belo Monte, e sua postura é tão favorável aos madeireiros que em 2009 pressionou a então governadora do Pará, Ana Julia Carepa, também do PT, a pedir a saída do gerente do escritório do IBAMA, tudo porque esse gerente trabalhava intensamente na fiscalização, atuando fortemente contra tudo e todos que agiam ilegalmente. Em uma dessas, 7 caminhões transportando madeiras ilegais foram apreendidos. O dono? O vice prefeito de Anapu que recebeu uma multa de mais de 1 milhão de reais. Absurdamente não somente o pedido da governadora fora aceito, como a jurisdição do IBAMA em Anapu que antes pertencia a Altamira, passou a Belém.

Felizmente, nessa audiência pública do último dia 25 de janeiro, a verdade veio a tona, e esse grupo, liderado por Josildo, Luis Sena, Manoel e Chiquinho do PT, foi desmascarado e os pleitos da CPT foram atendidos porque pautados pela legalidade.

A Comissão Pastoral da Terra externa sua preocupação com a falta de escrúpulos de pessoas que não hesitam em usar, como massa de manobra, pessoas pobres e ingênuas, para objetivos nada nobres, como é o caso da construção da Hidrelétrica de Belo Monte, onde grupos fazem pressão orquestrados por ambições desmedidas de quem não ouve os apelos do povo pobre da região, os argumentos dos cientistas e juristas, que apontam para consequências nefastas sobre o povo excluído da divisão das riquezas e que será expulso de suas terras.

Registramos que a CPT não tem qualquer vinculação político/partidária e seu trabalho se pauta exclusivamente em apoiar e reivindicar os direitos dos trabalhadores da terra por fidelidade a Deus e aos pobres da terra.

Repudiamos essa tentativa espúria de criminalizar o trabalho do Pe. Amaro, coordenador da Comissão Pastoral da Terra, da Irmã Jane e Irmã Kátia, religiosas da mesma congregação de Dorothy.

Infelizmente assistimos a reedição do que aconteceu com Irmã Dorothy em 2004. Esta ação de Josildo, Luis Sena e Chiquinho do PT nos faz lembrar as ações daqueles que pregavam abertamente contra a Irmã, chegando a ser considerada como persona non grata no município de Anapu só porque, como agente da CPT, denunciava as violações dos direitos dos trabalhadores rurais, os crimes de grilagem de terras públicas e ambientais, especialmente a extração ilegal de madeiras e cobrava que fosse feita a reforma agrária naquelas terras.

Por contrariar os interesses dos chamados sudanzeiros, madeireiros, grileiros e seus asseclas, foi assassinada, cruel e covardemente, em 12/02/2005.

Hoje é Pe. Amaro, Irmã Jane e Irmã Kátia, que ouvem as incitações semelhantes às que faziam contra irmã Dorothy.

Quem mudou?

Precisamos olhar a história, os fatos são recentes e precisamos voltar nossos olhos para o que aconteceu em Anapu.

Lembramos aquio dia 28/10/2008 quando ocorreu mais uma tentativa de grilagem das terras do lote 55, quando um dos acusados do assassinato de Ir. Dorothy, que respondia em liberdade, voltou à cadeia no final do mesmo ano por ter tentado mais uma vez se apossar das terras. Esta última tentativa aconteceu em uma reunião no INCRA quando ele convocou os trabalhadores rurais que moravam no lote, pagou suas passagens e a estadia na cidade, tudo com intuito de convencê-los de que era proprietário das terras. A reunião foi registrada em ata. 

No documento, fica claro que “Taradão” declarou ser proprietário da área e propôs aos trabalhadores a divisão da mesma, para que cada família ficasse com uma pequena parte e os dois terços restantes fossem liberados para exploração econômica pelo fazendeiro. Sobre este episódio, Taradão responde ao processo de número 2009.39.03.000016-4tramita na Justiça Federal em Altamira/PA.

Esperamos que desta vez o Governo Federal não chegue tarde demais e que atue no sentido de conferir segurança não somente aos agentes da Comissão Pastoral da Terra, mas principalmente dos trabalhadores que querem a garantia de seus direitos e que não se vendem por trinta moedas de prata.

Os trabalhadores do PDS são os verdadeiros defensores da floresta, do Projeto de Desenvolvimento Sustentável criado pelo Governo Federal. O INCRA tem trabalhado, mas ainda falta muito.

As terras públicas precisam ser destinadas para a reforma agrária. Os grileiros, criminosos que comercializam e se apropriam ilegalmente das terras da União precisam ser punidos. O desmatamento ilegal precisa ser,efetivamente, coibido.

Ressaltamos o esforço e o trabalho do INCRA em destinar áreas que estavam nas mãos dos grileiros para a reforma agrária, em colocar procuradores para trabalharem na região, mas ressalvamos que precisa avançar mais e de forma mais rápida para que tragédias, como a ocorrida no dia 12 de fevereiro de 2005 não se repitam e para que o povo tenha fé e confiança que a verdade sempre triunfará.

“Deus ouve o clamor do seu povo e está presente na luta dos trabalhadores”
 (Êxodo 3, 7-10)

Comissão Pastoral da Terra Xingu – Anapu/Altamira

Em apoio assinam:

Movimento Xingu Vivo para Sempre, Comissão de Justiça e Paz da CNBB Regional Norte II, Prelazia do Xingu, Movimento Mulher, MAB, Via Campesina , MPA, CSP-Conlutas.

ABAIXO:10 vídeos postados no you tube sobre as informações da presente nota.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Anapu: Invasão de PDS por madeireiras teve dedos de Ana Júlia

Délio Fernandes, Ana Júlia Carepa e Chiquinho do PT


O atual quadro de conflitos que se acirra em Anapu, oeste do Pará, teve inicialmente a influência direta da ex-governadora do Pará, Ana Júlia Carepa (PT). É o que revela um documento assinado por ela em 15 de outubro de 2009.


Na audiência pública promovida no município na semana passada, o assunto veio novamente à tona a partir da fala da Irmã Jane Dwyer, ligada à Comissão Pastoral da Terra e uma das sucessoras do trabalho de Dorothy Stan junto a camponeses da região da Transamazônica.
Para Jane, nos anos de 2005 a 2008, as atividades do PDS se desenvolviam lentamente, mas sem invasão de madeireiras e sem a venda ilegal de madeira. A coisa teria mudado de rumo nas eleições municipais de 2008, com a eleição da dupla Chiquinho do PT para a prefeitura local, tendo como vice, Délio Fernades, madeireiro e inicialmente citado como um dos envolvidos no assassinato da missionário, acusação ainda não provada.
A tomada da associação do assentamento por um grupo apoiado por madeireiros faria parte deste novo cenário local. Parte dos assentados que se mostravam contra a entrada de madeireiras ilegais no projeto estavam se articulando para a aprovação de um plano de manejo comunitário, sem a presença de madeireiras comerciais. A autonomia dos assentados representaria uma ameaça para os grupos interessados na madeira do assentamento. Irmã Jane apontou neste episódio de mudança na diretoria da associação do assentamento o sinal para a invasão madeireira ao PDS Esperança, resultando no atual conflito no projeto.

Em 2009, mais de 300 trabalhadores rurais se mobilizaram para coibir a extração ilegal de madeira em vários assentamentos da região. Naquele momento, servidores do Ibama, a partir de denuncia da CPT, apreenderam vários caminhões carregados de madeira extraídas de assentamentos. As cargas pertenceriam ao atual vice-prefeito de Anapu, o madeireiro Délio Fernandes (Relembre esta notícia aqui no blog: Luta: trabalhadores de Anapu (PA) se mobilizam, resistem e denuciam extração ilegal de madeira).

Neste momento, a então governadora Ana Júlia Carepa interviu diretamente no processo, relata Irmã Jane. A interferência de Ana Júlia está comprovada no Ofício do Gabinete da Governadora n° 622/09-GG, documento assinado e enviado para o então Presidente do Ibama, Roberto Messias Franco.

Neste ofício, o qual tivemos acesso, a governadora diz que aquele instrumento estava sendo encaminhado como um pleito da “Associação dos Municípios do Consórcio Belo Monte”, que a esta altura já era presidida pelo prefeito de Anapu, Chiquinho do PT. No documento, está escrito que a Chefia do posto do Ibama no município de Altamira agiria “na contra-mão das políticas públicas que o Governo tentar implantar na Região. É contra os assentamentos do INCRA, contra o asfaltamento da Rodovia Transamazonica e contra a construção da Hidrovia [sic] de Belo Monte.”

O texto do documento diz que o responsável pelo Ibama em Altamira tinha uma atuação de “quanto pior, melhor” o que impediria a aplicação de políticas públicas e “que não tem sentido depender de apenas uma pessoa”.

Logo após o ofício da governadora, o gerente do Ibama, responsável pela fiscalização ambiental na região, Roberto Scarpari, foi transferido para Marabá. O posto do Ibama em Altamira, cidade na qual o governo pretende construir a mega-hidrelétrica de Belo Monte e que fazia as fiscalizações em Anapu, foi fechado. A fiscalização ambiental em Anapu deixou de ser feita pelo Ibama em Altamira, que fica a 135 quilômetros de distância, para ser feita pela sede em Belém, a mais de 700 quilômetros.

Novas ações de fiscalização não surtiram muito efeito, pois conforme foi relatado na audiência pública, antes mesmo dos fiscais do Ibama chegarem ao município, os caminhões madeireiros suspendiam a extração de madeira, até o fim da operação ambiental.

Já a Secretaria Estadual de Meio Ambiente, órgão subordinado ao governo do Estado do Pará, sequer chegou a realizar qualquer operação de fiscalização ambiental no município, apesar dos constantes apelos durante todo ano de 2010, ano eleitoral.

Anapu: PDS aguarda cumprimento de acordo

Após a audiência pública coordenada pela Ouvidoria Agrária Nacional, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), os colonos ligados ao Plano de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança em Anapu esperam que as medidas anunciadas pelo Incra sejam efetivadas de forma rápida. O temor é que o tempo passe e a tensão volte a reinar no município.

O Incra prometeu instalar em até 60 dias uma guarita com segurança 24 horas para monitorar a entrada e saída de veículos, principalmente caminhões, pela principal estrada que dá acesso ao PDS. A intenção é coibir a passagem de caminhões que transportem madeira extraída de forma ilegal da área.

É aí que reside a principal preocupação dos colonos e movimentos sociais que dão apoio a eles. “As medidas estão no papel. Só que o povo tem que trabalhar. Não pode ficar vigiando a entrada do PDS. O governo é que tem que fazer o papel dele. Não os agricultores”, disse ontem a missionária Jane Dwier. “O governo tem de ouvir, entender, decidir e agir”. Os colonos permanecem acampados nas vias de acesso ao PDS para impedir a passagem de caminhões madeireiros.

Embora ressalte essa preocupação, irmã Jane diz que o Incra agiu de forma correta durante a audiência. “O Incra foi até mais duro do que a gente esperava”, disse ela. A audiência também definiu a participação do Ibama, que deve intensificar a fiscalização no PDS. Com apoio da Polícia Federal, vai apurar denúncias de desmatamento ilegal na floresta. Questionada pelo MPF se poderia disponibilizar servidores para as guaritas, a representante do Ibama se comprometeu a levar o assunto ao presidente do Instituto.

Enquanto isso, o prefeito de Anapu, Francisco de Assis Souza, o Chiquinho do PT, discordou que esteja havendo um clima de violência e conflito no município. “Não há atividade ilegal de madeireiros, não há conflito, não há ilegalidade”, disse na audiência, conforme consta em matéria no Diário do Pará.

O Incra espera resolver o problema da ocupação irregular de lotes do Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança, em Anapu (PA), até o final de março deste ano.

“Quem estiver irregular vai ter que deixar a área. Esperamos fazer isso até o final de março e, se for necessário, voltaremos a recorrer à Justiça”, acrescentou Antonio José Ferreira da Silva, engenheiro agrônomo que coordena as ações do Incra em Anapu.

De acordo com Silva, há, no assentamento, dois grupos de ocupantes em situação irregular. O primeiro engloba 27 famílias, cuja maioria não atende às exigências para continuar na área.

“São pessoas que não podem permanecer na área ou porque são ex-beneficiários de programas de reforma agrária, já tendo sido assentados em lotes em outros projetos – que venderam para comprar um lote no Esperança, sem a anuência do Incra – ou que estão envolvidas com a extração ilegal de madeira”, disse Silva à Agência Brasil.

O segundo grupo inclui 22 pessoas que ocupam a reserva legal do projeto de desenvolvimento sustentável. Neste caso, segundo Silva, o Incra estuda a possibilidade de remanejá-las para outras áreas do próprio assentamento, onde ocupariam lotes atualmente vagos. Ao menos cinco pessoas já aceitaram a mudança. “Queremos remanejar 12 destas pessoas em até 15 dias e cinco delas já aceitaram”, contou o engenheiro, explicando que uma liminar judicial de novembro de 2010 autoriza a remoção de 22 pessoas.

Fontes: Partes de matérias da Agência Brasil e do Diário do Pará

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Anapu: Para dirigente da Fetagri roubo de madeira deve-se a ausência do Estado....

Pedro dos Santos conversa com jornalista da Folha

Após cumprida as formalidades iniciais para dar início a audiência pública em Anapu no último dia 25, coube a Pedro dos Santos, o Pedrinho, dirigente regional da Fetagri na Transamazônica, fazer a primeira fala da “sociedade civil” presente no evento.

O sindicalista tentou seguir um roteiro conciliador. Fez elogios à Comissão Pastoral da Terra de Anapu, num discurso que não foi seguido pelos seus aliados que se sucederam no microfone.

Os ‘panos quentes’ foram acompanhados por um discurso de responsabilização do Estado pelo abandono da região e pela extração ilegal de madeira. Segundo Pedrinho, a Fetagri e o STTR de Anapu sempre denunciaram o roubo de madeira nos assentamentos da região, mas nunca fora atendidos. Ao Incra coube também críticas pela situação dos assentamentos e o processo de colonização da região.

Antes do discurso, Pedrinho conversou com o jornalista João Carlos Mangalhães, onde afirmou que não há invasão de madeireiras no PDS Esperança. Para o dirigente, tanto em Anapu como em toda Transamazônica, o que ocorre é “apenas” a venda de madeira por agricultores que querem sobreviver, ainda que ilegalmente. A jornalista Érika Morthy (@erikamorhy), que também fazia a cobertura da audiência, revelou em seu twitter que Pedrinho da Fetagri teria dito ainda para o jornalista da Folha que tudo aquilo não passava de um briga pessoal entre o Padre Amaro e o Prefeito de Anapu, Chiquinho do PT.

É inegável a ausência do Estado na Transamazônica e na Amazônica como um todo. Especialmente para atender os direitos básicos do povo, já que para os grandes empreendimentos do capital o Estado está mais do que presente (vide o caso Belo Monte).

Mas Pedrinho da Fetagri só esqueceu de falar, tanto publicamente como nos bastidores, que o Estado brasileiro é comando pelo seu partido (PT) a mais de oito anos e que o estado do Pará foi governado por Ana Júlia, também petista e sua aliada, nos últimos quatro anos e que a Prefeitura local é comanda há dois anos por ninguém menos que Chiquinho do PT, oriundo dos quadros da entidade.

Antecedentes: entendendo o conflito em Anapu...

Anapu voltou aos meios de comunicação nacionais nos últimos dias. O município situado na rodovia Transamazônica, no Pará, já ficara conhecido em 2005, quando do assassinato da missionária Dorothy Stang.

Vista geral de Anapu

Agora, como antes, apresenta-se um quadro de conflitos entre perspectivas antagônicas de projetos sócio-territoriais.

A trama que cerca o conflito atual tem bases na invasão do PDS Anapu I, mas conhecido como Esperança, por grupos madeireiros no final do ano de 2009.

Desde o início do ano passado, denúncias davam conta disso. A resistência desencadeada localmente era apresentada nos meios de comunicação como um enfrentamento entre assentados e madeireiros, simplificando a complexidade de atores, situações e interesses.

Em agosto de 2010, assentados revoltados com o roubo de madeira no projeto incendiaram um trato e um caminhão de uma madeireira no interior do PDS.

Importante ressaltar que neste momento o Incra em Santarém e o Ministério Público Federal solicitaram a presença da Força Nacional de Segurança e órgãos ambientais no município, mas os pedidos não foram atendidos. Provavelmente, o quadro eleitoral foi o motivo para isso, já que a então governadora Ana Júlia Carepa (PT) contava com amplo apoio do setor madeireiro do município e a presença de forças policias e de fiscalização ambiental poderiam repercutir negativamente na sua tentativa de reeleição.

Outros fatos devem ser situados para entender o conflito atual. O primeiro deles é a tomada da associação do assentamento por um grupo ligado ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Anapu (STR), entidade ligada à Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Pará e parte da Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Este processo é desencadeado quando se inicia o debate no assentamento para capacitação das famílias para manejo florestal comunitário, sem a presença de madeireiras comerciais.

O segundo fato é a entrada de aproximadamente vinte famílias em área do chamado Lote 55 (3.000 hectares), na reserva legal do imóvel onde fora assassinada a irmã Dorothy. O grupo teria sido orientado por madeireiras, interessada na parte do lote que ainda possui uma reserva florestal, já que a outra parte da área fora desmatada quando era controlada por Vitalmiro Bastos (o Bida) e Regivaldo Galvão(o Taradão), mandantes do crime contra Dorothy.

A revisão ocupacional promovida pelo Incra nos lotes no PDS deveria ser uma rotina administrativa para coibir ocupações irregulares nos assentamentos. No PDS Esperança, a revisão ocupacional teve início em maio de 2010 e é também uma tentativa de coibir a extração, compra e venda de madeira, amplamente denunciado. Mas, nem mesmo a presença do Incra no assentamento foi capaz de impedir a extração de madeira. Técnicos que atuaram no assentamento descrevem que nos dias que nos dias que estiveram no local, tratores abriam ramais e extraiam toras de madeira em plena madrugada, ao lado do acampamento dos servidores.

Tem-se em seguida a segunda fase deste processo de revisão ocupacional, um momento um definidor do combate da extração de madeira. Essa fase consiste na retirada de ocupantes irregulares (com lotes concentrados, vendidos e com ocupantes sem perfil para beneficiários do programa de reforma agrária). Também neste processo que se dar início a retirada dos ocupantes da reserva legal e daqueles que irregularmente extraiam e vendiam madeira do assentamento.

Neste processo, o Incra tentou promover o reassentamento das famílias com perfil de beneficiários do programa nacional de reforma agrária que ocuparam a reserva legal do projeto. A proposta era instalar as famílias nos próprios lotes do assentamento, aqueles vagos e que seriam disponibilizados a partir da revisão ocupacional. Cinco ocupantes inclusive foram reassentados neste processo, mas o STR de Anapu assegurou aos demais ocupantes que não deixassem o local e que advogados da entidade impediram qualquer ação judicial que viesse ocorrer. E esses ocupantes permaneceram na área. Ao final de 2010, a Vara Agrária de Altamira deferiu pedido de liminar solicitada pelo Incra contra os ocupantes.

Estes episódios irão desencadear as duas mobilizações de trabalhadores rurais ocorridas no município.

A primeira delas consistiu na formação de uma barreira em uma das entradas do PDS Esperança formada por alguns assentados e apoiada pela Comissão Pastoral da Terra que reivindicava a conclusão dos trabalhos de revisão ocupacional pelo Incra e a construção de guaritas para impedir a entrada de madeireiros no projeto. O bloqueio teve início em 10 de janeiro. Trata-se de uma luta que lembra em muitos aspectos os empates promovidos pelos seringueiros do Acre nos anos oitenta e que projetaram Chico Mendes e outras lideranças. Destaca-se que a barreira impedia unicamente a passagem de caminhões madeireiros, não havendo impedimento de circulação de outros veículos e pessoas.

Empate dos assentados contra o roubo de madeira

Essa manifestação ganhou repercussão em alguns meios de comunicação e localmente se refletiu numa reação em cadeia de hostilidades, incluindo ameaças de morte contra assentados e agentes da CPT, como o Padre Amaro e o assentado Fábio Lourenço de Souza.

Neste quadro de tensão, o STR de Anapu e a Prefeitura local anunciaram que iam promover o bloqueio da rodovia Transamazônica para repudiar a atitude dos assentados. A pauta deste setor negava a existência de qualquer conflito no município, busca a desqualificação da CPT e dos assentados que realizam o “empate”, nega até a existência de madeireiras no município e pede a permanência das famílias irregulares e que entraram na reserva legal do assentamento. Embora não conste no documento, também é exigido a saída do servidor do Incra responsável pelo posto do órgão em Anapu, o engenheiro Antônio José Ferreira.

É neste momento que é anunciado a realização de audiência pública pela Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo, órgão do governo federal ligado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário. O evento é apresentado localmente como uma vitória do setor pró-madeireiros.

A mobilização desse setor coincidiu com a chegada da Força Nacional de Segurança e da Polícia Federal. O trancamento da rodovia Transamazônica por grupos locais ligados à prefeitura e sindicato dispersou-se ainda no mesmo dia, a partir de uma negociação com a Polícia Rodoviária Federal, na sexta-feira, 21 de janeiro.

A esta altura informações que circularam por correios eletrônicos, blogs e matérias na grande imprensa traziam a público o envolvimento o STR e do prefeito Chiquinho do PT, contrários às medidas de combate a extração ilegal de madeira no assentamento.

Leia: Madeireiros fecham rodovia em Anapu e Batalha à vista em Anapu

Entidades de trabalhadores rurais de Anapu apoiadas pela CPT divulgam carta no dia 22 de janeiro em que relatam todo o processo de roubo de madeira no PDS, a continuidade do bloqueio da entrada do assentamento e exigem presença de órgãos de fiscalização ambiental e de segurança, bem como a construção de guaritas nas entradas do assentamento. A carta denuncia ainda que com o apoio da prefeitura e do STR, a associação dos assentados foi desfigurada com a presença de não-assentados, sendo a sua diretoria destituída.

Leia:Carta dos Comitês em Defesa de Anapu

Os dias seguintes são caracterizados pela forte expectativa entorno da audiência. É sob forte presença policial e com intensa chuva que ela tem início num galpão localizado atrás do STR...

Com muita chuva e com grande presença policial, tem início a audiência.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Projeto de Dorothy é cenário de faroeste

Adriano Vizoni/Folhapress
Seis anos após morte de missionária no Pará, programa de agricultura familiar enfrenta ameaças e desmatamento ilegal. Antes unidos em torno da religiosa, assentados perderam confiança em instituição e racharam em dois grupos rivais

João Carlos Mangalhães, enviado especial a Anapu, PA*

Quase seis anos após a morte da missionária Dorothy Stang, um dos marcos da violência agrária na Amazônia, seu projeto de uso sustentável da floresta no assentamento Esperança, em Anapu (PA), desmoronou.

Em vez de agricultura familiar numa floresta preservada, como a religiosa defendia, o PDS (Projeto de Desenvolvimento Sustentável) em que ela foi assassinada se tornou um cenário de faroeste -com divisões internas, ameaças públicas de morte e desmatamento ilegal.

A americana naturalizada brasileira Dorothy Stang foi morta com seis tiros em 12 de fevereiro de 2005, aos 73 anos, no PDS Esperança.

Cinco pessoas foram condenadas como mandantes ou autoras do crime (leia texto nesta página).
No ano passado a tensão voltou ao local. Aumentou a venda de lotes -80% deles já foram negociados, diz a CPT (Comissão Pastoral da Terra)- e as invasões. Segundo o Incra, 22 famílias estão em áreas de reserva ambiental.

A associação de moradores passou para as mãos de um grupo ligado ao prefeito Francisco de Assis Souza (PT). Ex-pupilo de Dorothy, ele tem como vice o fazendeiro Délio Fernandes, apontado como interessado na morte dela -ele nega.

Muitos trabalhadores rurais que seguiam a missionária começaram a desmatar, acuados pela miséria.

"Não tem de onde tirar dinheiro", disse Welton de Aquino, um dos três moradores que admitiram à Folha terem vendido toras, o que é ilegal. No caso dele, foram 15 toras em troca de R$ 5.000.

"Se a Dorothy estivesse aqui, a gente não estava nessa situação", afirmou a mulher de Welton, Roseni Gomes de Lima, sob uma foto da religiosa colada na parede de seu barraco de tábuas.

O culto a Dorothy continua, mas a confiança nos membros da CPT, da qual a missionária fazia parte, diminuiu. Parte dos moradores disse à Folha que foram pessoas ligadas à comissão que começaram a lucrar com os desmatamentos, dando sinal de que a prática era aceitável.

Antes unido sob Dorothy, o PDS Esperança está hoje rachado: há os que apoiam a associação ligada ao prefeito e os que continuam seguindo os passos da CPT, liderada pelo padre José Amaro.

AUDIÊNCIA
Depois de protestos feitos por ambos os lados neste mês, que levaram ao fechamento de estradas e exigiram a ida de homens da Força Nacional de Segurança para Anapu, o governo federal organizou uma audiência pública na última terça-feira, que a Folha acompanhou.

Na audiência, Josildo Carlos de Freitas, do Sindicato de Trabalhadores Rurais e também ligado ao prefeito, pegou o microfone para dizer ao padre Amaro, em frente à plateia de cerca de mil pessoas, que seria melhor se ele pedisse transferência de cidade, "para seu próprio bem". "Ouvi dizer que você já cheira a defunto", disse.

Amaro e Jane Dwyer, missionária da mesma congregação de Stang, veem na tentativa de culpar a CPT pelo início do desmatamento uma nuvem de fumaça.

"O que eles [prefeito e Délio Fernandes] querem é ter toda aquela madeira para eles. Já falavam a mesma coisa da Dorothy", disse Dwyer.

Para ela, a eleição do prefeito foi o estopim para a volta da tensão. "Ele manipula o povo", disse.

Missionária foi morta após conflito agrário

Foi a defesa do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança que levou à morte da missionária Dorothy Stang, em 2005, segundo o Ministério Público do Pará.

Investigações sobre o crime indicaram que as acusações dela atrapalhavam os planos de Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, e de Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, ao mostrar que eles tentavam, ilegalmente, ter a posse de um lote do assentamento, criado em 2004.

Dorothy sustentava que Taradão tinha documentos falsificados do lote 55. Bida seria uma espécie de preposto dele no local.

Bida e Taradão foram condenados como mandantes, apesar de o último esperar em liberdade a decisão sobre um recurso. Eles negam o crime.

*Fonte: Folha de São Paulo

Chiquinho do PT, quem te viu, quem te vê!



No vídeo acima, gravado um mês antes de seu assassinato, a missionária Dorothy Stang denuncia o roubo de madeira na área do PDS Esperança (06 de janeiro de 2005).

Sentado atrás dela (de camisa da cor amarela), o atual prefeito Chiquinho do PT, hoje fiel defensor das madeireiras em Anapu.