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Aos 84 anos, o bispo
emérito de São Felix do Araguaia, Pedro Casaldáliga, não reúne mais forças
para acompanhar na linha de frente o desenrolar da disputa envolvendo
posseiros, fazendeiros e índios xavante de Marãiwatsede.
A voz cada vez mais miúda,
quase aos sussurros, e as severas limitações provocadas pelo mal de
Parkinson, restringiram o raio de sua sempre combativa atuação. O testemunho
crítico dos descaminhos fundiários do Araguaia, porém, mantém o conhecido
vigor.
Em entrevista concedida ao DIÁRIO [de Cuibá], Casaldáliga falou sobre o que
chamou de “deportação” dos xavantes, ainda na década de 1960, e se declarou
favorável à saída dos “intrusos”, grandes ou pequenos.
DIÁRIO – Depois de quase duas décadas de disputa judicial, a desintrusão de
Marãiwatsede nunca esteve tão próxima. Como o senhor vê a polêmica em torno
deste desfecho?
CASALDÁLIGA - Desde o início, temos sido claros e acho que certos: a terra é
dos índios xavante. Todos os não índios que entraram ali sabiam, estavam
seguros, de que a terra era indígena. Mas os pequenos, iludidos, respaldados
por políticos interesseiros, achavam que os índios não voltariam. Pensavam:
já foram embora faz tempo e não irão voltar. Era isso que lhes diziam os
políticos, comerciantes e fazendeiros, que aproveitavam e há 20 anos
continuam aproveitando o pasto e a madeira da região.
DIÁRIO – O que pensa sobre o destino a ser dado aos ocupantes não indígenas?
CASALDÁLIGA - Os intrusos que, apesar de saber a verdade, confiaram na
palavra dos políticos, devem ser atendidos pelo INCRA, desde que sejam
clientes da reforma agrária. Devem ter direito à terra que sobra no Brasil e
em Mato Grosso. Aos grandes, nada. Quando algum deles fala de indenização, me
dá vontade de chorar de vergonha. Eles depredaram quase tudo, inclusive um
símbolo do posto da Mata. Cadê a mata que havia por lá?
DIÁRIO – Tendo chegado à região na década de 1960, como avalia o episódio da
remoção dos Xavantes?
CASALDÁLIGA- Foi uma autêntica deportação. Em 1963 foram uns poucos e, em
1966, a maioria. A nossa região, destinada pelo governo federal ao
latifúndio, tinha que limpar o máximo possível da presença indígena. Foi um
processo bastante comunicado no exterior e que coincidiu com a abertura da
Amazônia para os incentivos fiscais. Numa região tão pouco habitada, se dava
uma luta grande, que foi se espalhando para o resto da região.
DIÁRIO – O senhor ainda testemunhou a presença de algum núcleo xavante na
área da Suiá Missu?
CASALDÁLIGA – Nós chegamos aqui apenas em 1968, quando a remoção já havia
ocorrido. Mas fomos testemunhas de sinais da presença dos indígenas. Havia
certos lugares com pedras amontoadas de modo especial, áreas de roça feitas
pelos índios, eles ainda vinham todos os anos para procurar material para
seus arcos e flechas, tinham seus mortos enterrados ali e sentiam que era uma
terra sua. Alguns deles, inclusive, nascidos no coração da Suiá Missu, como é
o caso do cacique Damião.
DIÁRIO – Já se passaram 20 anos desde a promessa de devolução da área aos
Xavante. O que levou o processo a se arrastar por tanto tempo?
CASALDÁLIGA - Esse é um caso em que se implicaram todas as forças vivas.
Virou paradigmático. Na ECO-92 a Eni-Agip prometeu de palavra, e de palavra
apenas, que devolveria a terra aos Xavante. Uma terra já reduzida, porque se
os xavantes fossem reivindicar tudo o que era indígena, seriam necessárias
três ou quatro Suiás Missu. Então se iniciou o processo de invasão da área.
DIÁRIO – Vivendo na
região, o que presenciou neste momento?
CASALDÁLIGA – Foi uma invasão planejada. Os fazendeiros, políticos,
comerciantes, todas as pessoas que tinham interesse nesta área nova da
Amazônia Legal, estimularam a invasão. E o argumento era muito simples: se os
índios recebessem a terra, todos perderiam, enquanto que, se a terra ficasse
com pequenos lavradores, mais cedo ou mais tarde ela estaria nas mãos dos
grandes.
DIÁRIO – O governo de Mato Grosso ofereceu áreas em um parque estadual aos
Xavantes em tentativa de permuta com a área de Marãiwatsede. Como viu esta
proposta?
CASALDÁLIGA - Em primeiro lugar, e para classificar a proposta com certo
respeito, diria que se trata de uma ignorância suprema. Ignorância dos
direitos fundamentais dos povos indígenas e da Constituição. Em segundo
lugar, é uma subserviência aos interesses dos grupos que criaram esta
situação.
DIÁRIO – Um grupo xavante dissidente concordou com a proposta.
CASALDÁLIGA - Foram cooptados alguns índios para respaldar os intrusos. Tudo
isso se deu porque um indígena xavante virou vereador e, entrosado com os
políticos da região, defendeu a transferência para o parque do Araguaia.
DIÁRIO – A desocupação de Marãiwatsede, com a remoção das famílias que hoje
vivem na área, não irá gerar um grande problema social?
CASALDÁLIGA - O problema social já existe. Na mentalidade do povo simples,
sempre vem a pergunta: porque não dão terra para os índios e para os
posseiros? Sempre que se trata de lutas de indígenas com o branco, é sempre
algo difícil aceitar que há outros povos, com outras culturas, com outra
economia. Nós temos pedido que o Cimi comece a trabalhar também com a
população envolvente, para que esta adquira uma consciência nova do direitos
dos que se chamam minorias. Têm que aprender a conviver, para que os índios
não sejam apenas tolerados.

DIÁRIO – Se houver a desintrusão, os xavantes receberão uma terra muito
diferente da que deixaram há 40 anos. Como imagina esta nova fase?
CASALDÁLIGA – Os xavantes vão precisar de uma assistência técnica permanente
e muito compreensiva para adaptar as mentes e os corpos a um novo tipo de
trabalho. Terão que tomar consciência de que são um movimento popular, são
forças populares e fazer aliança com outras forças populares. Os grandes fazem
isso muito bem com seus iguais. E abrir os olhos frente a essa sociedade do
consumo, que afeta sobretudo a juventude dos povos indígenas.
DIÁRIO – E o risco de conflito?
CASALDÁLIGA – Os intrusos vêm falando que haverá sangue. E eu tenho direito a
temer que alguns partam para a vingança. Seria ingenuidade não contar com
esse risco. Uma vez feita a desintrusão, as forças de segurança irão embora.
Não vão ficar mais do que quatro semanas. E ficará o povo. Já estão queimando
pastos, mataram duas cabeças de gado queimadas, já têm xingado os índios e a
prelazia também, falando aos jornalistas que é tudo culpa nossa. Creio que
ficará aquela insegurança. É difícil imaginar que não queiram partir para
algum tipo de reação.
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