Servidores do Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) acusam
loteamento político nas recentes trocas feitas no comando das superintendências
estaduais do órgão. Segundo a Associação dos Servidores da Carreira de
Especialista em Meio Ambiente (Ascema-BA), causa preocupação o perfil dos novos
gestores, alguns dos quais já foram réus em processos contra o meio
ambiente.
Esse é o caso de Neuvaldo
David de Oliveira, filiado, na Bahia, ao Partido da República (PR-BA) e
ex-prefeito do município de Caravelas. Oliveira foi nomeado na terça-feira (19)
para assumir a superintendência do Ibama no estado. Ele substitui o analista
ambiental Célio Costa Pinto, que é especialista em Planejamento e Gestão
Ambiental e servidor de carreira do órgão.
Político sem qualquer
ligação com a área ambiental, o novo gestor responde a um processo dentro do
próprio Ibama por instalar uma rede de abastecimento de energia elétrica em
local de restinga, uma área de preservação permanente. A multa arbitrada pelo
Ibama em 2008, junto com encargos, chegou a R$108 mil em 2013.
Não há indício de que o ex-prefeito tenha pago o montante cobrado.
O histórico de Neuvaldo
David de Oliveira na área ambiental também envolve a luta
de carcinicultores para explorar uma área perto do Parque Nacional Marinho
de Abrolhos. Oliveira era prefeito e brigava pela implementação da Cooperativa
dos Criadores de Camarão do Extremo Sul da Bahia (COOPEX) na região. O
empreendimento ocuparia 1.517 hectares da Ilha de Cassurubá, área de manguezal,
com vegetação de restinga, onde se encontram lagoas costeiras, braços de mar e
nascentes, dos
quais 900 hectares seriam usados para a instalação de 26 tanques de tamanhos
variados, 800 deles em área de restinga.
O licenciamento avançava na secretaria
estadual e foi paralisado após o Ibama criar a Zona de Amortecimento do Parque
Marinho de Abrolhos, que abarcava a área, o que inviabilizou o empreendimento.
Houve reação, inclusive de
políticos, que propuseram um decreto legislativo para anular a Zona de
Amortecimento. Após anos de recuos e vitórias, o tiro mortal no projeto foi
dado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao decretar em junho de 2009 a
criação da Reserva Extrativista do Cassurubá no
local.
Em nota, a Associação
dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema-BA) afirma
que os servidores estão mobilizados com o intuito de impedir que o
político "possa assumir a Superintendência Estadual do órgão, permitindo
que a missão desta autarquia seja cumprida e honrada, em favor dos interesses
da sociedade".
“(...) estamos diante de um
quadro onde prevalecem o menosprezo e o desrespeito pelos servidores e pelas instituições,
que ainda não conseguiram instituir através de atos ou instrumentos legais, as
normas e os procedimentos para o preenchimento dos cargos institucionais”, diz
a Ascema.
Caso parecido acontece na
superintendência do órgão em São Paulo.
A assessoria de imprensa do
Ibama esclarece que as recentes nomeações “ainda estão sendo avaliadas pelo
Ministério do Meio Ambiente e pela presidência do Ibama”. A publicação no
Diário Oficial da União não garante a posse no cargo, que poderá ser revista.
Sedes
de fazendas, currais e outras edificações podem ter sido construídas sem
licença e estão impedindo regeneração da floresta amazônica
O Ministério Público Federal (MPF) encaminhou esta semana ao Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama)
recomendação para que a autarquia abra processo administrativo para investigar
a regularidade ambiental de edificações nas áreas ilegalmente desmatadas pela
organização criminosa acusada de ser a maior quadrilha de desmatamento na
Amazônia já detectada pelo poder público.
Chefiado pela família Junqueira Vilela, do empresário Antônio José Junqueira
Vilela Filho, conhecido como AJ ou Jotinha, o grupo foi desmontado em junho
pela operação Rios Voadores, do MPF, Polícia Federal, Receita Federal e Ibama.
Na recomendação ao Ibama o MPF destaca que a legislação determina a demolição
de edificações (sedes de fazendas, currais, cercas, entre outras) construídas
sem licença em áreas ambientalmente protegidas.
A demolição poderá ser feita pela administração ou pelo infrator, sendo que as
despesas para a realização da demolição deverão ser pagas pelo infrator, que
será notificado para realizá-la ou para reembolsar aos cofres públicos os
gastos que tenham sido efetuados pela administração.
Impedimento à regeneração
O MPF também ressalta que, além da possível
ilegalidade das obras, nota técnica do próprio Ibama coletada durante as
investigações do caso Rios Voadores afirma que as edificações impedem e
dificultam a regeneração natural das áreas ilegalmente desmatadas.
“A presença de tais estruturas artificiais provoca a 'continuidade e até o
agravamento do dano ambiental realizado pela substituição da cobertura vegetal
nativa para a implantação e manutenção das atividades agrícolas e pecuárias nas
áreas irregularmente desmatadas e embargadas'”, registra a recomendação.
Na nota técnica citada na recomendação pelos procuradores da República do caso
Rios Voadores, o MPF assinala que peritos da autarquia foram favoráveis à
demolição das obras, além da autuação por infração ambiental.
Assim que receber o documento, o Ibama terá 15 dias para apresentar resposta
sobre a recomendação. Segundo a recomendação, os processos administrativos
devem ser encerrados em 360 dias.
Em caso de não atendimento ou de apresentação de respostas consideradas
insuficientes, o MPF pode tomar outras medidas que considerar necessárias,
incluindo o ajuizamento de ações.
Transações comerciais Também como parte das investigações do caso Rios
Voadores, esta semana o MPF determinou o envio de ofícios ao grupo JBS, o maior
processador de carne bovina do mundo, à Amaggi Exportação e Importação, uma das
maiores companhias de compra e venda de grãos do país, e aos dirigentes do
grupo Bom Futuro – outro líder no agronegócio – Elusmar Maggi Scheffer e Eraí
Maggi Scheffer.
Pelos documentos o MPF requer informações sobre transações comerciais entre as
empresas e integrantes da família Junqueira Vilela.
As investigações identificaram que entre 2012 e 2015 a Amaggi Exportação e
Importação e os empresários Elusmar Maggi Scheffer e Eraí Maggi Scheffer
transferiram R$ 10 milhões para Antônio José Junqueira Vilela Filho, conhecido
como AJ ou Jotinha, e para um cunhado de AJ, Ricardo Caldeira Viacava.
No mesmo período, pela JBS foram transferidos R$ 7,4 milhões a AJ e a uma irmã
de AJ, Ana Paula Junqueira Vilela Carneiro.
O MPF quer saber o motivo desses pagamentos e a origem e o destino dos bens
comercializados. Caso o dinheiro seja referente a comércio de grãos e animais
vindos de áreas desmatadas ilegalmente, as empresas podem ser responsabilizadas
pelo crime ambiental na companhia do grupo pego pela operação Rios Voadores.
Rios Voadores
Realizada em 30 de junho deste ano, a operação desmontou
organização criminosa que criou técnica especial para a conversão rápida de
florestas em latifúndios, utilizando metodologia científica, mão de obra
escrava e uma série de fraudes documentais.
O sistema movimentou R$ 1,9 bilhão entre 2012 e 2015 e destruiu 300 km
quadrados de florestas em Altamira, no Pará, área equivalente ao território de
municípios como Fortaleza (CE), Belo Horizonte (MG) ou Recife (PE). O prejuízo
ambiental foi de R$ 420 milhões.
Por essas e outras irregularidades, Jotinha figura hoje como o infrator que
recebeu multas de maior valor já aplicadas pelo Ibama na Amazônia (R$ 120
milhões em dez autos de infração), e que é responsável pela maior área já
embargada pela autarquia na região (300 km quadrados).
Empresas
destinaram R$ 17,4 milhões aos chefes de quadrilha desmontada em junho
O Ministério Público Federal
(MPF) determinou, nesta quarta-feira, 20 de julho, o envio de ofícios ao grupo
JBS, o maior processador de carne bovina do mundo, à Amaggi Exportação e
Importação, uma das maiores companhias de compra e venda de grãos do país, e
aos dirigentes do grupo Bom Futuro – também lideranças do agronegócio – Elusmar
Maggi Scheffer e Eraí Maggi Scheffer.
O MPF requer informações sobre transações comerciais entre as empresas e
integrantes da família Junqueira Vilela, acusados de chefiar o maior esquema de
desmatamento da Amazônia já detectado.
Os Junqueira Vilela foram pegos no último dia 30 de junho pela operação Rios
Voadores. A operação desmontou organização criminosa que criou técnica especial
para a conversão rápida de florestas em latifúndios, utilizando metodologia
científica, mão de obra escrava e uma série de fraudes documentais.
O sistema movimentou R$ 1,9 bilhão entre 2012 e 2015 e destruiu 300 km
quadrados de florestas em Altamira, no Pará, área equivalente ao território de
municípios como Fortaleza (CE), Belo Horizonte (MG) ou Recife (PE). O prejuízo
ambiental foi de R$ 420 milhões.
Investigações do MPF, Polícia Federal, Receita Federal e do Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) identificaram
que, entre 2012 e 2015, a Amaggi Exportação e Importação e os empresários
Elusmar Maggi Scheffer e Eraí Maggi Scheffer transferiram R$ 10 milhões para
Antônio José Junqueira Vilela Filho, conhecido como AJ (ou Jotinha), e para um
cunhado de AJ, Ricardo Caldeira Viacava.
No mesmo período, pela JBS foram transferidos R$ 7,4 milhões a AJ e a uma irmã
de AJ, Ana Paula Junqueira Vilela Carneiro.
Tendo em vista que essas
transações comerciais podem ter sido feitas para compra de grãos ou animais
procedentes de áreas desmatadas ilegalmente, é necessária a oitiva dos
compradores, para esclarecimentos, já que, segundo destacam os ofícios do MPF,
“a responsabilização civil por dano ao meio ambiente pode, em tese, atingir as
empresas compradoras, pois, segundo o Superior Tribunal de Justiça (STJ), para
o fim de apuração do nexo de causalidade no dano urbanístico-ambiental
equiparam-se quem faz, quem não faz quando deveria fazer, quem não se importa
que façam, quem cala quando lhe cabe denunciar, quem financia para que façam e
quem se beneficia quando outros fazem, sendo a responsabilidade ambiental
objetiva”.
Além de questionar os
motivos das transações comerciais, o MPF solicitou informações sobre a origem e
o destino dos bens comercializados.
Na última semana (10 a 17 de
julho), o sítio e o jornal O Estado de São Paulo trouxe uma série especial de reportagens,
que expõe a violência enraizada em várias partes do interior do país, nos estados
de Mato Grosso, Amazonas, Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará, Rondônia e
Tocantins.
Entre setembro de 2015 e março
deste ano, o Estado percorreu 15 mil quilômetros de estradas federais
e trilhou um mapa ignorado pelo governo federal, num universo composto por
tortura, incineração de corpos, chuvas de veneno, suicídios de índios,
violência contra mulheres, ônibus escolares na mira de fuzis, esquema de venda
de licenças, pistolagem paga por planos de manejo e tabelas de execuções.
O preço do hectare e da
madeira acirra a concorrência entre guaxebas, tradicionais matadores de
aluguel, e catingas, milicianos que surgem no mercado do terror. A repercussão
da chacina de Eldorado do Carajás, em que 19 camponeses foram mortos há 20 anos
no Pará, não puxou para baixo a curva da barbárie. O cruzamento de acervos do
poder público e de entidades da sociedade civil revela que pelo menos 1.309
pessoas foram mortas em conflitos rurais no Brasil desde 1996. É como se um
massacre da mesma proporção ocorresse a cada 100 dias. O número de assassinatos
equivale ao volume de árvores cortadas na Amazônia a cada 30 segundos,
ininterruptamente, nas duas últimas décadas. A lista dos mortos inclui a
geração nascida em agrovilas fracassadas, canteiros de obras inacabadas e
aldeias sufocadas no tempo do Brasil Grande, projeto de desenvolvimento da
ditadura militar.
Trata-se de um levantamento
inédito de assassinatos em conflitos rurais por terras e madeira. Eles ocorrem
geralmente em áreas afastadas, onde não há proteção institucional ou apoio da
rede de advogados ligados à questão do campo. As vítimas são, em sua maioria,
pequenos agricultores e índios, mas também há fazendeiros, seguranças e
pistoleiros. Parte considerável dos assassinatos é cometida por grileiros e
grandes proprietários de terra. Os dados apontam que 97% das mortes são de
camponeses e indígenas.
Os principais caminhos
escolhidos pela reportagem foram traçados ainda no regime militar e se
transformaram em canteiros de obras do governo federal. Rotas da investigação,
as BRs 060, 070, 364, 163, 230, 242, 319, 158 e 155 foram desenhadas sobre
antigos caminhos de bandeiras e monções que partiam do litoral para a conquista
do interior no século 17.
O material divulgado pelo
Estado, além de possuir detalhado levantamento de campo, trás fotografias de
Dida Sampaio e Hélvio Romero, além de gráficos, vídeos e mapas interativos que
completam e ilustram o texto de André Borges e Leonencio Nossa.
Na defesa da floresta, os
extrativistas Éder Chaves Dias e João Coelho tentam impedir a passagem de
invasores pelo Vale do Jamari, em Rondônia. Estão marcados para morrer. Como
eles, há centenas de outros na lista do crime organizado que avança sobre as
terras da União rumo à Amazônia, maior reserva tropical do planeta. Ao mapear a
grilagem em sete Estados do Norte e Centro-Oeste do País, o Estado identificou
482 focos ativos de tensão e violência conflagrados sob incentivo dos últimos
governos e do Judiciário em 143 municípios, uma realidade descolada das
mudanças de poder na política nacional.
Uma bandeira do Movimento
dos Sem-Terra (MST) foi estendida na entrada da Fazenda União Recanto Cinco
Estrelas, uma terra da União em Novo Mundo, Mato Grosso. É um disfarce. Os
homens armados que vigiam a área de 9,6 mil hectares, uma área três vezes maior
que a do centro da cidade de São Paulo, são milicianos, os chamados catingas,
pagos por fazendeiros, advogados, topógrafos e servidores das prefeituras da
região para ocupar a fazenda, que estava para virar um assentamento do Incra.
O fazendeiro Carlos Raposo,
de Nova Guarita, norte de Mato Grosso, contratou uma empresa aérea para lançar
agrotóxico nas terras de famílias do Assentamento Raimundo Vieira III, vizinho
de sua propriedade. Ele ainda é acusado de intimidações e quebra de cercas. Os
assentados cortavam palha de fazer vassoura quando viram um avião amarelo com
letras azuis se aproximar no céu, em voo baixo. Pensaram que era uma aeronave
da Polícia Federal, que vinha resolver os “problemas”. O avião passou por eles,
adiante aumentou a altitude e deu novo rasante. Daí veio um cheiro forte. “É
veneno”, gritaram Rudinei Ribeiro, de 36 anos, e a mulher dele, Creuza da Silva
Dutra, de 49. O aparelho despejou agrotóxico nos agricultores, nos telhados das
casas e nas plantações.
Em Eldorado do Carajás, no
Pará, as covas das 19 vítimas do massacre ocorrido duas décadas atrás viraram
miragem. Firmas de segurança atuam como milícias, contratadas para proteger
grileiros. Do massacre até hoje, 197 pessoas foram assassinadas em conflitos no
sudeste e sul do Pará. Um dos focos de tensão fica a 40 quilômetros da Curva do
S. Famílias de sem-terra disputam a posse da Fazenda Cedro, de 8,3 mil
hectares, sendo 80% da União. Histórias de terror marcam o Acampamento Helenira
Resende, nome de uma guerrilheira morta pelo Exército em 1972. Ali vivem 450
famílias. A maioria dos adultos trabalha como peão e consertador de cercas nas
fazendas próximas.
A repercussão do assassinato
da missionária americana Dorothy Mae Stang, em Anapu (PA), em 2005, tornou-se
uma barreira ao avanço de madeireiros no rumo do oeste da Amazônia. O crime
organizado continua, no entanto, matando defensores da floresta. Para camuflar
os homicídios, pistoleiros executam vítimas em ruas e bares de pequenas cidades
da região. Colega de Dorothy, a também missionária americana Jane Dwyer aponta
sete mortes por conflito de terra e madeira ocorridas em Anapu no ano passado.
Ela rejeita a versão da Polícia Civil, que investiga apenas uma morte no
período causada por disputa no campo. "Eles inventam. Matar na cidade é
estratégico. Dizem que é por causa de mulher, bebida, vingança. Não é. É por
terra.”
No dia 5 de dezembro de
2014, uma sexta-feira, um registro inusual apareceu na tela do sistema de
Documento de Origem Florestal (DOF) do Ibama, programa utilizado pelos Estados
para oficializar processos de extração de madeira em todo o País. Com apenas um
clique, a Secretaria Ambiental de Rondônia havia liberado uma “autorização de
exploração florestal” (Autex) para a derrubada de 17.613 metros cúbicos
madeira, em benefício de Paulo Firmino da Silva. Era um volume abissal. Em
condições normais, essas autorizações costumam envolver quantidades bem
menores, algo em torno de 3 mil ou 4 mil metros cúbicos. A retirada de toda
aquela madeira, que seria feita em uma única área de “plano de manejo florestal
sustentável”, equivalia a enfileirar 880 caminhões abarrotados de toras. Mas o
problema não era só a dimensão do pedido, e sim como e por quem foi liberado.
Da Serra do Roncador (MT) à
Ilha do Bananal (TO), o gado avança sobre áreas sensíveis de Cerrado e
floresta. Sopés dos grandes granitos do norte do Mato Grosso e terras da maior
ilha fluvial do mundo viraram pasto. Embora seja proibido criar gado em área
indígena, na reserva dos carajás, no Tocantins, fazendeiros já mantêm mais de
93 mil cabeças de gado. Pressionados pela ocupação descontrolada do solo,
índios passaram a fazer parte do negócio, arrendando terras para invasores que
pagam pequenas quantias para ter acesso à ilhabanhada pelos Rios Araguaia e
Javaés. Vice-cacique da Aldeia Santa Isabel do Morro, onde vivem 900 índios,
Txiarawa Karajá conta que a tribo recebe de R$ 30 mil a R$ 40 mil por ano para
não impor resistência. O dinheiro, rateado entre 15 fazendeiros, é repassado
aos índios em duas parcelas. “A gente sabe que não é legal, mas aceita essa
situação porque precisa do recurso. Eu acho que é pouco, não dá para resolver
nada. Mas, como a Funai não tem dinheiro, precisamos fazer isso.”
Os tratores se movimentam
entre a plantação e um pedaço de mata na Fazenda Brasília do Sul, em Juti, a
320 km de Campo Grande (MS). A poucos metros dali, uma família guarani-caiová,
acampada num canto da propriedade, tenta se concentrar nas orações diante de
uma cova improvisada. Duas semanas antes, Virgílio Veron, de 47 anos, cometeu
suicídio ao saber que a Justiça havia determinado nova retirada dos índios. A
possível chegada de tropas para despejar as famílias deixou a comunidade em
estado de tensão. Naqueles dias, Virgílio não escondia o temor. “Ele não
conseguia dormir ou comer. Deixou seis filhos, não suportou”, diz Valdelice
Veron, sua prima.
A Fundação Cultural Palmares recomendou a suspensão do processo de
licenciamento ambiental da Mineração Rio do Norte que planeja extrair bauxita
em terras quilombolas em Oriximiná (Pará). No entanto, o Ibama desconsiderou a
recomendação e concedeu, em 6 de julho, autorização para a empresa realizar
levantamentos destinados à elaboração do Estudo de Impacto Ambiental.
A polêmica
envolve a maior produtora de bauxita do Brasil, a Mineração Rio do Norte, e os
cerca de 3.000 quilombolas que vivem nas Terras Alto Trombetas e Alto Trombetas
2, no interior do Pará. Atuando na região desde os anos 70, a Mineração Rio do
Norte (MRN) agora expande suas atividades para o interior das áreas
quilombolas. Cálculos iniciais indicam que cerca de 33.000 hectares de terras quilombolas
seriam desmatados e escavados para extração do minério.
A não
conclusão do processo de consulta prévia aos quilombolas e a ausência de acordo
para indenização por perdas e danos causados pelos estudos geológicos
conduzidos pela MRN entre 2012 e 2014 levaram o Ministério Público Federal
(MPF) a demandar que o licenciamento não tivesse continuidade. Acatando
Recomendação do MPF, a Fundação Cultural Palmares (FCP), em 11 de maio de 2016,
requereu ao Ibama a suspensão do licenciamento. A FCP é o órgão responsável
pela consulta livre, prévia e informada aos quilombolas nos processos de
licenciamento ambiental.
No entanto, os
posicionamentos da Fundação Cultural Palmares, do Ministério Público Federal e
dos próprios quilombolas foram ignorados pelo Ibama que, no dia 6 de julho,
concedeu a Mineração Rio do Norte autorização de abertura de picada “em
função do levantamento de fauna para elaboração do Estudo de Impacto Ambiental
EIA/RIMA”. Os estudos de impacto ambiental são parte do processo de
licenciamento ambiental.
Questionado
pela Comissão Pró-Índio de São Paulo, o Ibama, por meio de sua assessoria de
comunicação, informou que a recomendação da FCP ainda está em “avaliação
jurídica” e que a recente autorização para a MRN não influencia o processo. “É
no mínimo estranho que o Ibama afirme que está avaliando a recomendação da
Fundação Palmares se, na prática, já está liberando a continuidade dos estudos”
afirma Lúcia Andrade, coordenadora da Comissão Pró-Índio de São Paulo. E
complementa “ao que parece está-se criando uma situação de fato consumado
para que os planos da mineradora possam ter prosseguimento”.
Cronologia -
2016
26 de janeiro
– Emabaixo assinadomais de 200 quilombolas afirmam que não autorizaram os estudos
da Mineração Rio do Norte em suas terras.
26 de abril –
MPF enviaRecomendaçãoa Fundação Palmares afirmando que a consulta não foi concluída.
27 de abril –
Associações quilombolas de Oriximiná divulgamcarta abertasolicitando que nenhum
empreendimento seja autorizado antes da titulação de suas terras.
11 de maio –
Fundação Cultural Palmares encaminha pedido de suspensão do licenciamento ao
Ibama.
24 de maio –
Ibama comunica à Mineração Rio do Norte a suspensão preventiva da autorização
para realização de atividades relacionadas à elaboração dos Estudos de Impacto
Ambiental.
2 de junho –
Ibama requer à FCP que explicite os motivos e o embasamento legal para a
solicitação da suspensão.
10 de junho -
Ibama revoga a suspensão provisória. 13 de junho -
FCP envia explicações suplementares ao Ibama.
6 de julho –
Ibama concedeautorizaçãoa Mineração Rio do Norte
para levantamento de fauna para elaboração do EIA/RIMA.
Grupos
criminosos retiravam madeira ilegalmente da Terra Indígena Caru, dos índios
Awa-Guaja, e da Reserva Biológica (Rebio) do Gurupi. Devido a denúncia do
Greenpeace, ação deve estender-se a TI Alto Turiaçu A Polícia Federal do
Maranhão realizou hoje uma grande ação contra o crime organizado que controla a
exploração ilegal de madeira em florestas e áreas protegidas do estado. A
polícia estima que o grupo tenha movimentado cerca de R$ 60 milhões, por meio
de fraudes aos sistemas de controle de madeira e crimes ambientais.
De
acordo com a investigação, os criminosos extraíam madeira da Terra Indígena
Caru, dos índios Awa-Guaja, e da Reserva Biológica (Rebio) do Gurupi. O
produto, de origem ilegal, era então “esquentado”, com o uso de informações de
empresas laranjas, que possuíam planos de manejo aprovados no interior do Rio
Grande do Norte.
Esta
manhã, mais de 300 policiais federais, com apoio de servidores do Ibama e
policiais do Bope de Brasília e Rio de Janeiro, cumpriram 77 medidas judiciais,
sendo 11 mandados de prisão preventiva, 10 mandados de prisão temporária e 56
mandados de busca e apreensão. Segundo informações da PF, foram bloqueados R$
12 milhões, de pessoas físicas e jurídicas envolvidas no caso, 44 empresas
tiveram suas certificações suspensas e mais de 20 serrarias ilegais foram
destruídas.
O
mosaico de terras indígenas e unidades de conservação em questão está
localizado na região central do Maranhão, no último remanescente florestal de
Amazônia que resistiu ao desmatamento no estado. O local sofre com a pressão
exercida principalmente pela extração ilegal de madeira, mas também pela
grilagem de terra, para conversão em pasto ou plantações.
A
operação, batizada de “Hymenaea”, em referência avuma das espécies de árvore
exploradas, o Jatobá, acontece próxima a Terra Indígena Alto Turiaçu, onde nas
últimas semanas madeireiros aumentaram as ameaças e voltaram entrar no
território, segundo relatos de fontes locais e organizações que trabalham junto
ao povo Ka’apor. Em abril do ano passado, a liderança indígena Eusébio Ka’apor
foi morto no local e uma adolescente permanece desaparecida desde fevereiro.
Os
Ka’apor realizam ações de monitoramento e proteção do território desde 2010. No
ano passado, o Greenpeace desenvolveu um trabalho junto às lideranças Ka’apor
para a adoção de novas tecnologia nestas ações, com uso de mapas mais precisos,
armadilhas fotográficas e rastreadores via satélite. Desde então, o Greenpeace
vem reiteradamente denunciando às autoridades brasileiras a grave situação de
conflito na região.
Ações
como a promovida hoje, pela Polícia Federal e IBAMA, são fundamentais no
combate ao crime de extração ilegal de madeira, que promove a violência e a
destruição na Amazônia maranhense. Os culpados devem ser penalizados.
No entanto, ações como essa conseguem
frear e diminuir a pressão apenas localmente, enquanto o problema da madeira
ilegal continua no Brasil. É necessário que os governos federal e estaduais
encarem o problema de frente, realizando revisão em todos os planos de manejos
florestais aprovados desde 2006, nas licenças de operação das serrarias, além
de implementar um sistema de controle florestal eficaz, que seja capaz de
inibir as fraudes demonstradas desde 2014 nos relatórios“Chega de Madeira Ilegal”, publicados pelo
Greenpeace Brasil.
“O objetivo dessas oficinas
é a gente ser consultado e dizer a situação para o governo, que a gente também
existe aqui. A empresa está dizendo que nós não existimos. Mas nós existimos e
estamos lutando para que o governo olhe para nós e respeite os nossos
direitos.”
É assim que Manoel de
Jesus, liderança da comunidade quilombola de Nova Vista do Ituqui, resume a
importância das oficinas que estão sendo realizadas nas doze comunidades
quilombolas do município de Santarém que poderão ser impactadas pela
construção de um porto exportador de soja na entrada do Lago do Maicá.
Foi depois de muita luta que as pessoas
que vivem nessas comunidades, representadas pela Federação das
Organizações Quilombolas de Santarém (FOQS), confirmaram na Justiça o
direito de serem consultadas a respeito da construção e instalação do porto no
Maicá. Com assessoria jurídica da Terra de Direitos e
diante da necessidade de se elaborar um Protocolo de Consulta, a FOQS vem
realizando oficinas em cada uma dessas comunidades para que elas mesmas definam
o modo como pretendem ser consultadas sobre o projeto de porto que ameaça o
equilíbrio socioambiental do lugar onde vivem.
Até o momento, oito das doze
comunidades quilombolas realizaram as oficinas, que vem acontecendo nos
próprios barracões comunitários. Como resultado, um relatório é escrito pelas
moradoras e moradores, em cada uma das reuniões, contendo posições tiradas por
consenso. Até agosto, outras quatro comunidades quilombolas farão suas
oficinas. Na sequência, a FOQS, com representantes das doze
comunidades, fará uma Assembleia Geral, ocasião em que, a partir dos relatórios,
será elaborado um documento único: o Protocolo de Consulta. *Leia tudo no sítio da Terra de Direitos.
Monitoramento independente durou 18 meses e revela o que aconteceu com o maior investimento da história do BNDES para obras socioambientais
No fim de 2012, a diretoria do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) aprovou financiamento de R$ 3,2 bilhões para a Norte
Energia S/A, empresa responsável pela construção da usina Belo Monte, para o
cumprimento das condicionantes socioambientais da obra. O montante é o maior já
aprovado pelo banco para ações socioambientais, equivalente a 11,2% do total de
recursos aplicados na usina.
Quatro anos depois, a sociedade tem uma fotografia dos cinco
municípios que receberam os investimentos: Altamira, Vitória do Xingu, Senador
José Porfírio, Anapu e Brasil Novo, todos no centro do Pará. O monitoramento
recebeu o nome deIndicadores Belo Montee foi coordenado pela Fundação Getúlio
Vargas (FGV). Durante um ano e meio, a instituição monitorou sete
condicionantes da usina, de responsabilidade do empreendedor e do poder
público. Todos os indicadores estão disponíveis em umapublicação. Com
base na experiência da usina de Belo Monte, o documento apresenta uma
metodologia inovadora de monitoramento no contexto de grandes obras na Amazônia
(saiba mais).
A iniciativa partiu da Câmara Técnica de
Monitoramento das Condicionantes de Belo Monte, parte do Plano de
Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRSX), coordenado pelo governo
federal e que conta com a participação do governo do estadual e municípios, da
Norte Energia e da sociedade civil. O ISA participa do PDRSX como representante
da sociedade civil na Câmara Técnica de Monitoramento das Condicionantes e em
outras duas: ordenamento territorial e povos e populações tradicionais.
Desafios apontados
O material tem como fonte a troca de
relatórios e pareceres entre a Norte Energia e o Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente (Ibama). Uma equipe de cinco pesquisadores, sediada em Altamira,
realizou também mais de uma centena de entrevistas. Outros seis pesquisadores
ligados ao campus de Altamira da Universidade Federal do Pará (UFPA) foram
formados pela FGV e participaram do trabalho.
“No momento em que Belo Monte entra na fase
de operação, e a luz dos holofotes tende a esmorecer, os maiores desafios
consistem na continuidade do monitoramento do território e em sua
instrumentalização para o processo de tomada de decisão pública e do controle
social”, diz André Villas Boas, secretário executivo do ISA., que participa das
reuniões mensais da Câmara Técnica de Monitoramento das Condicionantes de Belo
Monte.
Entre os principais desafios apontados pela
publicação, está a universalização do acesso à água e ao esgoto sanitário.
Promessa de legado da usina, o saneamento básico até o momento não se tornou
realidade para os atingidos. Para a FGV, o caminho está na construção de
soluções específicas para o atendimento da população de baixa renda, o que não
aconteceu na região de Belo Monte. A usina começou a funcionar em abril, mas a
operação e gestão dos sistemas de esgotos das 16 mil residências de Altamira,
por exemplo, devem levar anos para ser viabilizadas.
O fracasso no programa de reassentamento
rural também foi tema da publicação. Embora uma Declaração de Utilidade Pública
(DUP) tenha designado 119 mil hectares para relocar os atingidos nas áreas
rurais, o processo ficou muito longe de cumprir a meta determinada no
licenciamento ambiental de reassentar ao menos 40% das famílias. Outros casos
envolvendo deslocamentos promovidos por hidrelétricas são citados no trabalho,
mostrando que é possível fazer diferente e dar à população a oportunidade de
participar da discussão do planejamento urbanístico do reassentamento e da
infraestrutura produtiva e comunitária – praças, centro de convivência,
escolas, postos de saúde.
Capacidade financeira dos municípios
A falta de capacidade financeira e de gestão
dos municípios é outro gargalo identificado pela Fundação Getúlio Vargas. Cinco
anos após o início da construção da usina, o hospital municipal de Altamira não
foi inaugurado e pode consumir em um ano de operação o mesmo orçamento da
construção.
O documento também conclui que o desmatamento
indireto não foi abordado de maneira estratégica. O resultado foi a intensificação
da extração ilegal de madeira nos últimos cinco anos. A Área de Proteção
Ambiental Triunfo do Xingu tornou-se a Unidade de Conservação com a maior taxa
de desmatamento em toda a Amazônia.
O desafio da reestruturação e da melhora do
atendimento à saúde indígena perpetuou-se durante a construção da usina. A
publicação aponta que nenhuma das obras previstas para a saúde indígena nas
aldeias foi concluída. Para a FGV, a proteção territorial das Terras Indígenas
também deve ser o foco das atenções neste momento de desmobilização dos
canteiros de obras em que a população atraída pela obra tende a ir em busca de
novas fronteiras e a histórica escassez de oportunidades socioeconômicas
levando à intensificação de atividades predatórias e ilegais.
Dentro das condicionantes indígenas, a
publicação é categórica ao pontuar a necessidade de garantia de recursos
financeiros e humanos para a plena implementação dos compromissos de
operacionalizar a proteção territorial nas terras indígenas. Além disso, é
preciso garantir a regularização fundiária viabilizando terras para
reassentamento de ocupantes não indígenas de boa-fé dessas áreas. Tudo isso só
pode ocorrer por meio de espaços de articulação permanentes entre os entes de
governo e sociedade civil, aponta a FGV.
Apontado como chefe do esquema de desmatamento ilegal e grilagem
de terras no Pará, o pecuarista paulista se entregou hoje à Polícia Federal
O pecuarista Antonio José
Junqueira Vilela Filho, conhecido como AJ Vilela, se entregou hoje à Polícia
Federal em São Paulo. Ele era o alvo principal da operação Rios Voadores,
deflagrada pelo Ministério Publico Federal, PF, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
e Receita Federal. AJ é apontado como chefe de um esquema de desmatamento
ilegal e grilagem de terras no interior do estado do Pará.
Com ele, são 15 pessoas presas na operação. A quadrilha atuava desde 2012 nos
municípios de Altamira e Novo Progresso e era comandada por AJ e pelo cunhado,
Ricardo Viacava. Os dois estão presos na carceragem da PF em São Paulo, assim
como Ana Luiza Junqueira Vilela Viacava, irmã de AJ e mulher de Ricardo. O
esquema coordenado pela família movimentou R$ 1,9 bilhão entre 2012 e 2015 e
destruiu 300 km quadrados de florestas, área equivalente ao território de
municípios como Fortaleza (CE), Belo Horizonte (MG) ou Recife (PE).
Por essas e outras irregularidades, Jotinha figura hoje como o infrator que
recebeu multas de maior valor já aplicadas pelo Ibama na região amazônica (R$
163 milhões em dez autos de infração), e que é responsável pela maior área já
embargada pela autarquia na região (300 km quadrados). O prejuízo ambiental
apurado até agora é de R$ 420 milhões.
Segundo as investigações, o grupo invadia florestas em terras públicas,
retirava e vendia a madeira de valor mais alto, e depois derrubava a mata
remanescente e ateava fogo. Na terra devastada era plantado capim e instalada
criação de gado. Para praticar esses crimes a organização criminosa utilizava
mão de obra submetida a condições semelhantes às de escravos.
Após a consolidação das pastagens, o grupo registrava os terrenos em cadastros
ambientais rurais oficiais. Os registros eram feitos em nome de laranjas
(pessoas que servem como intermediárias em negócios fraudulentos). As
pastagens, então, eram exploradas pelos próprios integrantes do grupo ou
arrendadas para terceiros.
Fonte: Ministério Público Federal no Pará - Assessoria de Comunicação
Terra Indígena Alto Turiaçu. Desmatamento acumulado no entorno da TI até 2014
Por: Tatiane Klein e Victor
Pires*
Lutando
para proteger a Terra Indígena Alto Turiaçu (MA) do assédio de madeireiros e
fazendeiros, o povo indígena Ka’apor teve um líder assassinado, em 2015.
Agora, Iraúna Ka’apor, de apenas 14 anos, desapareceu. Ela foi
vista pela última vez em um acampamento de madeireiros
Há
meses, o povo indígena Ka’apor, que vive em uma das últimas fronteiras
florestais do estado do Maranhão, enfrenta um novo drama. Depois de ver o
líder Eusébio Ka’apor assassinado, em abril de 2015, por lutar contra a
exploração ilegal de madeira na Terra Indígena (TI) Alto Turiaçu, as
comunidades agora tentam descobrir o paradeiro de uma jovem de 14 anos,
desaparecida desde fevereiro de 2016 e avistada pela última vez em um
acampamento madeireiro no Pará.
O
sequestro da jovem Iraúna, que vivia na aldeia Axiguirendá, levou o Conselho
Estadual de Direitos da Criança e do Adolescente do Maranhão a espalhar
cartazes por todo o município de Centro do Guilherme, no noroeste do Maranhão,
onde estão localizadas várias madeireiras e serrarias, abastecidas por madeira
de alto valor comercial extraída ilegalmente da TI. Todos os cartazes sumiram,
assim como Iraúna.
Essa
e outras graves violências compõem uma denúncia apresentada no dia 24 de junho
ao Ibama, ao Ministério Público Federal no Maranhão e à Polícia Federal pela
ONG Greenpeace. Segundo o documento, a região vive clima de guerra, fomentado
pelo aumento das ameaças de madeireiros e fazendeiros aos Ka’apor. Graças a
ações autônomas de proteção à terra, os índios já conseguiram fechar 24 ramais
de exploração madeireira abertos ilegalmente e criar sete “áreas indígenas de
proteção” no interior da TI.
O
desaparecimento da jovem já havia sido denunciado pelos Ka’apor em uma nota
divulgada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em abril deste ano. Mas
de abril até agora, segundo um dos indígenas que compõe o Conselho de Gestão
Ka’apor, nenhuma medida foi tomada (confira a entrevista completa abaixo).
A
situação também foi denunciada pela ONG Global Witness, que acaba de lançar um
relatório, mostrando que, em 2015, o Brasil foi o país com maior número de
ambientalistas assassinados. O documento destaca a morte de Raimundo dos Santos
Rodrigues, um dos defensores da Reserva Biológica do Gurupi, próxima à TI Alto
Turiaçu.
Crimes sem castigo
Procurada
pela reportagem do ISA, a assessoria de imprensa da Polícia Federal no Maranhão
afirma que as informações não haviam chegado formalmente à delegacia
responsável. “Chegando, será instaurado inquérito policial e tomadas as medidas
investigatórias cabíveis para apurar eventuais crimes praticados contra os
indígenas”, alega. Já o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) informa
que tem realizado ações de combate ao desmatamento ilegal no estado do
Maranhão, mas não pode comentar sobre eventuais investigações em curso.
Em
entrevista ao ISA, o procurador da República no estado do Maranhão Alexandre
Silva Soares explica que, assim que recebida, a denúncia do Greenpeace foi
encaminhada à Superintendência de Polícia Federal, mas até o fechamento desta reportagem
o ofício não havia sido respondido. Soares também informa que já tinha
conhecimento do conteúdo das denúncias e que outras já haviam sido encaminhadas
pelo MPF, ensejando operações de fiscalização feitas pelo Ibama e PF.
Ainda
segundo o procurador, correm em segredo de Justiça duas ações civis públicas
questionando a ausência de proteção da área pelo Poder Público. Em 2014, a
Justiça Federal condenou o Ibama, Funai e União a apresentar um plano de
fiscalização das Tis Alto Turiaçu, Awa e Caru no prazo de 120 dias – o que não
foi efetivado. “Sem a ocupação dessas áreas por agentes do Estado brasileiro,
essas áreas ficam desprotegidas”, avalia Soares.
Trabalhando
há oito anos com os Ka’apor, o antropólogo José Mendes avalia que os órgãos
governamentais, especialmente os do Maranhão, têm sido omissos com relação às
ameaças aos indígenas. O Programa de Defensores de Direitos Humanos, da
Secretaria de Direitos da Presidência da República, também já foi acionado
inúmeras vezes, mas, segundo Mendes, os Ka’apor ainda não foram incluídos nele.
Ações próprias
A
região já foi alvo de diversas operações do Ibama e da PF, como Hiléia Pátria,
Nuvem Preta e Lignum, fechando serrarias e madeireiras. Mas, na opinião dos
pesquisadores e dos Ka’apor, elas surtem pouco efeito para coibir esses crimes.
Por isso, a partir de outubro de 2013, os indígenas fortaleceram suas próprias
ações de proteção e fiscalização do território. Hoje, os antigos ramais de
exploração ilegal de madeira se tornaram kaar husak ha, como são chamadas as
“áreas protegidas” na língua Ka’apor, onde vivem entre seis e oito famílias
indígenas. Por conta da intensificação das ameaças, revela o Greenpeace, essas
famílias estão proibidas de circular pelas estradas que cortam a TI e que levam
às vilas.
Segundo
Mendes, Iraúna foi provavelmente abordada em uma dessas estradas, no caminho
entre a Axiguirendá e o município de Centro do Guilherme. “Além de ser
adolescente, [Iraúna] não fala português. As pessoas suspeitam que ela tenha
sido abordada em um povoado chamado Nadir, a dois ou três quilômetros do limite
da TI, onde existe um histórico de garimpo, de usuários de drogas e de
plantação de maconha. E a maioria dos envolvidos nesses ilícitos também está
envolvido na [extração ilegal] madeira”, denuncia Mendes.
“Esse
trabalho de coibir a invasão realizado pelos Ka’apor é um dos motivos que vem
levando a ameaças e à escalada de violência”, avalia Rômulo Batista, que é
pesquisador do Greenpeace e esteve na área recentemente. Mendes concorda. Após
o fechamento de um dos principais ramais de extração de madeira, em outubro de
2014, passou a circular pelas vilas da região uma lista com nomes de oito
lideranças indígenas ameaçadas de morte. No início de 2016, foram os Ka’apor
que elaboraram uma lista, entregue ao MPF, denunciando os nomes de madeireiros,
fazendeiros, pistoleiros e traficantes ou pessoas aliciadas por eles,
envolvidos em invasões de aldeias e agressões aos indígenas.
Décadas de ameaças
Na
região do Gurupi, a TI Alto Turiaçu compõe um conjunto de Terras Indígenas e
Unidades de Conservação contíguas que faz a transição da floresta amazônica
maranhense para áreas de Cerrado e Caatinga, onde há décadas o povo Ka’apor
sofre com atos de violência perpetrados por madeireiros e fazendeiros. E a
extração ilegal de madeira não fica restrita a essa TI, ocorrendo em toda a
região, onde estão as Tis Alto Rio Guamá, Awa e Caru, além da Reserva Biológica
do Gurupi. Todas essas Terras Indígenas já chegaram ao último estágio do
processo de demarcação, a homologação.
As
ações dos indígenas para retirar os invasores de suas terras levaram a outros
graves ataques em anos recentes. Em 16 de maio de 2010, Hubinet Ka’apor, 38
anos, foi brutalmente assassinado por madeireiros; em março do ano seguinte,
Tazirã Ka’apor, de 20 anos, também foi morto. Reportagens compiladas pelo
Sistema de Áreas Protegidas do ISA mostram que, pelo menos desde a década de
1970, os índios no Maranhão enfrentam ataques. Em 1979, por exemplo, cinco
indígenas Awá-Guaja foram mortos por envenenamento. Apesar de recorrentes
operações de fiscalização, amplamente noticiadas pela imprensa, invasões e
ataques sempre voltam a ocorrer (confira na linha do tempo abaixo).
Mais
recentemente, no final de 2015, um incêndio de grandes proporções atingiu as
Tis Alto Turiaçu, Awa e Caru. Centenas de Guajá e cerca de 60 indígenas
isolados ficaram em situação de risco. As suspeitas são de que o fogo teve
origem criminosa, represália de madeireiros após uma operação de fiscalização
contra a venda ilegal de madeira.
Os
especialistas são unânimes em apontar que as operações de fiscalização são
insuficientes, ainda mais numa região onde a perseguição contra quem defende o
meio ambiente não é a única mazela e o poder público praticamente inexiste: “A
falta de uma política efetiva de proteção territorial das TI e Ucs faz com que,
após as operações, o modus operandi dos madeireiros se repita”, critica
Batista.Para o procurador Alexandre
Soares, as ações de repressão são superadas pela lógica econômica da região: “A
questão não é apenas um caso de polícia, é também social e econômico. O
problema é que a economia da região gira em torno da economia ilegal. Temos que
atacar não somente esses agentes que atuam na extração ilegal de madeira, mas
também de propiciar meios dessas pessoas se inserirem no mercado de trabalho de
atividades lícitas”, afirma.
“São
os pequenos se conflitando. São os indígenas e aquelas pessoas que vivem da
agricultura familiar. Quem não vive da agricultura familiar, é aliciado pela
exploração de madeira ilegal”, aponta o antropólogo José Mendes, pontuando que
logo após as fiscalizações e apreensões feitas pelo Ibama, as madeireiras e
serrarias quase sempre voltam a funcionar. “Não existe vontade política. Só
existe um interesse muito grande dos indígenas em proteger esse território e
eles têm nos dado grandes lições de como viver mantendo a floresta em pé. Os
Ka’apor estão fazendo um grande bem para a sociedade”, conclui.
“A gente protege a mata e ela dá comida para gente”
O
ISA entrevistou um dos membros do Conselho de Gestão Ka’apor, que preferiu não
se identificar. Ele fala da realidade vivida pelas mais de 1,8 mil
pessoas que vivem hoje na TI Alto Turiaçu, em dez aldeias do povo Ka’apor e uma
do povo Guajá
Instituto Socioambiental – Como está a situação na TI Alto Turiaçu agora?
I.
A gente continua sendo ameaçado. Principalmente, nas áreas de proteção Ka’apor.
Não podemos ficar andando pelas cidades. Lideranças das áreas de proteção estão
sendo impedidas de sair. Me perseguiram de moto esses dias. Falam meu nome e de
outras pessoas nas cidades. Em duas áreas de proteção ficam oferecendo bebidas
para indígenas. Há dois meses, levaram Irauna Ka’apor, de 14 anos. A Polícia
Civil e Militar do Maranhão não fizeram nada.
ISA – No começo da semana passada, o Greenpeace protocolou uma denúncia
na PF, MPF e Ibama sobre a situação. Alguma medida já foi tomada?
I.
– Enviamos documento para o MPF com nome de agressores, dos donos de bares,
madeireiros nas entradas das aldeias. O procurador falou que passou para a
Polícia Federal, Ibama e Funai, mas não fizeram nada. Greenpeace é nosso
apoiador. Estiveram com a gente nas aldeias e viram a situação. Mandaram
documento para MPF e os órgãos não fizeram nada. Este final de semana, na
entrada da aldeia Ximborenda, município de Maranhãozinho, num povoado chamado
Buraco do Tatu – perto de onde mataram Eusebio Ka’apor – foram vistas pessoas
armadas bebendo nos bares e, ontem, roubaram a moto de um indígena. Fizemos
denúncia na delegacia de Santa Luzia do Paruá.
ISA – Desde quando essa pressão acontece?
I.
– A pressão aumentou depois que nos fizemos nossa assembleia em 2013 e
decidimos proteger juntos nosso território. Fizemos um acordo de convivência
interno para a vivência dentro do nosso território, como não deixar branco
entrar sem permissão do Conselho de Gestão Ka’apor. Nosso povo de todas as
aldeias se uniu, fortalecemos nossa vigilância do território em grupos em
várias partes do território. Entramos e fechamos os principais ramais de
madeireiros. São sete áreas de proteção. Temos uma guarda agroflorestal, desde
2014, que coordena a vigilância e proteção territorial e dá apoio a nossas
áreas de proteção.
ISA – Alguém presenciou o sequestro da Irauna Ka’apor? Como está a
família dela?
I.
Ninguém da aldeia viu quando ela foi levada. A família está muito triste na
aldeia. O Conselho de Gestão Ka’apor está acompanhando isso junto com MPF.
Estamos preocupados porque são quase três meses e ninguém deu notícias. O
governo do Maranhão não faz nada aqui na região. Nunca fez pra proteger nosso
território e as pessoas. Tem muito roubo nas cidades. Nosso Conselho de Gestão,
nossos guardas florestais e quem apoia a gente aqui no trabalho estão sendo
muito perseguidos. Eles querem matar a gente. O assassino de Eusébio tá solto
aqui em Santa Luzia do Paruá. A Polícia não faz nada.
ISA – E essas ameaças estão sendo só contra os Ka’apor ou também contra
os outros povos que vivem na região?
I.
– Aqui só moram os Ka’apor e um grupo Guajá bem pequeno, mas eles ficam mais
protegidos, porque os Ka’apor moram perto dos limites. Nossa terra tem 530.524
hectares, pega seis municípios de nossa região, na divisa com o Pará. Tem
perseguição também contra os quilombolas. Como a gente não deixou madeireiros
entrar aqui, eles estão tirando madeira do território dos quilombolas. E tiram
também da Reserva Biológica do Gurupi.
ISA – Vocês conseguiram afastar todos os invasores na Terra Indígena Alto
Turiaçu?
I.
– As áreas são afastadas das cidades. Fica longe, de 35 km pra frente.
Não são perto da cidade. Estradas [são] ruins. Agora, não tem
madeireiro dentro porque estamos dia e noite espalhados nos limites, fazendo
vigilância. Por isso querem matar os guardas e as lideranças. Só
[tem] caçador e capoeiras. Hoje, nosso povo tem mais saúde. Tem
mais comida. Onde tinha sido derrubado, está se recuperando. As
caças não escutam barulho de motosserra. Temos mais caça. A gente
protege a mata e ela dá comida pra gente.