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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Confira nota do MST sobre o acidente de avião do prefeito Genil Mata da Cruz

Após uma hora de rasantes sobre as famílias Sem Terra, avião em que Genil estava caiu próximo ao acampamento, no município de Tumiritinga (MG).

Ao longo da tarde desta terça-feira (14), dois aviões atacaram o acampamento montado por cerca de 200 famílias Sem Terra na Fazenda Casa Branca, no município de Tumiritinga (MG).
Segundo o relato dos Sem Terra, durante uma hora os aviões deram rasantes sobre o acampamento e soltaram rojões sobre as famílias acampadas. Um dos aviões acabou caindo numa área próxima ao acampamento. Ainda não se sabe os motivos reais da queda. Uma das pessoas que estava na aeronave era o prefeito do município Central de Minas, Genil Mata da Cruz, que também se dizia dono da propriedade.
Os trabalhadores rurais ocuparam a fazenda de 420 alqueires no último dia 5 de julho. A área, considerada improdutiva, pertencia à empresa Fíbria, mas foi adquirida por Genil Mata da Cruz.
No entanto, o suposto proprietário disse não possuir nenhum documento relativo à propriedade do imóvel, o que o impossibilita de solicitar a reintegração de posse. Segundo relatos dos Sem Terra, ao não poder despejar as famílias, Genil da Cruz disse que resolveria a situação à sua maneira.
Esta não é a primeira vez que as famílias acampadas na área sofrem ataques.
Na madruga da última sexta-feira (10), cerca de 12 pistoleiros em dois veículos invadiram o acampamento e soltaram fogos de artifício contra as barracas. Uma pessoa foi atingida e sofreu pequenas queimaduras no corpo.
Dois tratores blindados acompanhavam a ação. Durante a fuga, um dos tratores atolou e foi deixado para trás.
Nos dias anteriores, rondas noturnas já estavam sendo feitas na área. Diante das ameaças, os Sem Terra fizeram um boletim de ocorrência na delegacia local.

Quem é Genil Mata da Cruz?
Além de ser prefeito da cidade Central de Minas, Genil Mata da Cruz é dono de uma das maiores redes de posto de combustível na região, a Rede Gentil.
Seu currículo, entretanto, é repleto de acusações. Em 2013, o prefeito foi acusado de tráfico de combustível. Em 2006, Genil também foi suspeito de envolvimento com o tráfico internacional de pessoas. Na época, a Polícia Federal investigou a participação do empresário no financiamento de viagens a brasileiros para entrar ilegalmente nos Estados Unidos.
Em 2001, o prefeito foi denunciado criminalmente pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) por ter construído um posto de gasolina sem licença ou autorização do órgão ambiental competente, e desobedecer o Departamento de Estradas e Rodagem de Minas Gerais (DER).
Abaixo, segue a nota da direção estadual do MST

Na madrugada do dia 5 de julho de 2015, 300 famílias da região do Vale do Rio Doce ocuparam a fazenda Casa Branca, no município de Tumiritinga – MG, à 50 Km de Gov. Valadares, região leste do estado.
A Fazenda, com aproximadamente 1.500 hectares, pertence à empresa Fíbria Celulose. Após a ocupação compareceu a fazenda o Sr. Genil Mata da Cruz, prefeito de Central de Minas e proprietário da Rede de Posto de Combustíveis Gentil, alegando que está negociando a compra da fazenda junto a Fíbria e reivindicando a posse da área. Na ocasião, a Polícia Militar estava presente e orientou o Sr. Genil a reivindicar seu direito de posse junto à justiça.
No dia 9 de Julho, ao final da tarde, fomos informados de que o então suposto proprietário estava disposto a fazer, ele mesmo, o despejo das famílias, uma vez que ele não poderia recorrer à justiça pelo fato de não possuir nenhum documento da área. Nessa mesma tarde, caminhões foram à fazenda e retiraram duas famílias de funcionários que moravam na área. Na madrugada do dia 10, as famílias foram surpreendidas com cerca de 12 pistoleiros, dois veículos e dois tratores. Os pistoleiros efetuaram vários disparos de balas e foguetes sobre as famílias acampadas. Os tratores foram blindados, preparados para guerra.
As famílias conseguiram pedir socorro policial e os pistoleiros, ao perceberem a aproximação da polícia fugiram. Na fuga um trator caiu em uma vala.
No dia 11 último, representantes do governo do Estado de Minas, através da mesa de conflitos agrários, e o superintendente regional do INCRA-MG, preocupados com a situação de conflitos e tensão, estiveram na região e se reuniram com o suposto proprietário, com a Polícia Militar e com a Coordenação dos Trabalhadores Sem Terra. Foi o início de um importante diálogo, onde poderia culminar em uma negociação. Porém, na segunda-feira (13) recomeçaram os boatos de que o fazendeiro iria realizar o despejo.
Na tarde desta terça-feira (14), por volta das 16h, o fazendeiro começou a cumprir a promessa. Dois aviões começaram sobrevoar o acampamento efetuando disparos sobre as centenas de pessoas acampadas, entre elas mulheres, jovens, crianças e idosos. As famílias viveram momentos de terror. Em meios aos ataques um avião caiu e pegou fogo. A informação é que duas pessoas morreram carbonizadas.
Não sabemos as circunstâncias de tal acidente e nem quem são as vítimas. Isso cabe as autoridades investigar. O que nós do MST temos feito é nos colocar a disposição para o diálogo para fazer avançar a Reforma Agrária, mesmo que esta esteja praticamente paralisada. Essa disposição nunca nos faltará, mesmo com vários tipos de violência que temos sofrido, como o massacre de Felizburgo, Eldorado dos Carajás, entre outros.
14/07/2015
Direção estadual do MST-MG
Fonte: MST

domingo, 17 de maio de 2015

Em relatório, Associação Apinajé denuncia agravamento de impactos da UHE de Estreito


Associação União das Aldeias Apinajé (PEMPXÀ), divulgou esta semana um relatório aonde critica a implantação os impactos gerados pela construção da Usina Hidroelétrica de Estreito-MA. A obra feita pelo Consórcio CESTE, no rio Tocantins, entre os municípios de Estreito-MA e Aguiarnópolis-TO, continua segundo a associação, causando graves conflitos sociais e prejuízos ambientais para toda população atingida da região de abrangência do empreendimento. 

Durante e após a construção da hidrelétrica ocorreram inúmeras violações de Direitos Humanos e Ambientais; mortandade de peixes, inundação de áreas férteis, expulsão de populações ribeirinhas, invasão de terras indígenas, fome, doenças, perseguições e ameaças à vida das organizações e lideranças que resistiram contra a construção da obra, alegou a PEMPXÀ.

Ainda segundo a associação, depois de cinco anos de entrada em operação da hidrelétrica, os problemas da população Apinajé, apenas pioraram. Apesar de existir um programa de compensação que em tese serviria para amenizar e mitigar os supostos impactos da obra na terra e na vida da população indígena, nesse período só aumentou e agravou se os problemas internos das comunidades. A PEMPXà diz que de fato, essa compensação está gerando mais impactos negativos e transtornos na vida da população Apinajé, do que a própria hidrelétrica em si.

“Foram muitas as ilusões e expectativas criadas em torno dessa obra, construída com promessas de “desenvolver a região e compensar os povos atingidos”. Quem é impactado sabe que a realidade é bem diferente. A nossa população Apinajé, atingida pela UHE Estreito, que resistimos contra a construção do empreendimento, agora estamos experimentando o que realmente significam as expressões “desenvolvimento” e “compensação”. 

"Em três (3) anos assistimos a quantidade de aldeias aumentarem de 18 em 2013 para 34 em 2015. A criação de novas aldeias em sua maioria é sempre motivada por divergências e divisões internas por causa da compensação”, diz parte do relatório.

Devido à proximidade com as cidades de Tocantinópolis, Maurilândia, São Bento do Tocantins, Cachoeirinha, Luzinópolis e os povoados de Passarinho, Olho D’Água, Ribeirão Grande e Folha Grossa, todos no município de Tocantinópolis e da cidade de Campestre-MA, com a construção da obra, multiplicaram se as invasões e pressões de não índios, sobre as aldeias Apinajé. No momento estamos verificando o aumento de problemas internos nas comunidades causados por pescadores, exploradores de madeiras, coletores de frutas e traficantes de bebidas alcóolicas e drogas, e outros intrusos vindos dessas cidades e povoados do entorno.

“Estamos acompanhando com bastante preocupação o aumento da pressão social e ambiental sobre as áreas vulneráveis localizadas no extremo Norte e Oeste, nas regiões do Pontal, Veredão e Cocalinho constantemente invadidas por não-índios das cidades e povoados vizinhos. No mês de março de 2015, constatamos a avanço de construções de algumas moradias na localidade Veredão, às margens da rodovia BR”, comenta os líderes da associação.

Os Apinajés dizem que a referida vizinhança sempre incomodam, levando sérios problemas para a comunidade e o território. No povoado Veredão, eles afirmam terem verificado grandes quantidades de lixos jogados dentro da área indígena pela comunidade Fulniô que moram apertados em um pequeno lote no local. O mesmo problema ambiental está ocorrendo também em áreas próximas às aldeias Prata e Cocal Grande em Tocantinópolis. Outra situação preocupante é com relação aos incêndios das florestas e campos que ocorrem nessas áreas na época da estiagem. Ressaltamos que esses “vizinhos” sempre estão implicados em práticas de roubos de madeiras, frutas, cocos babaçu, caças e peixes da área indígena, entre outros ilícitos, mas em nenhum momento colaboram com a proteção e a preservação deste território.

O polêmico projeto de pavimentação asfáltica da rodovia TO-126, trecho de 40 km dentro da T.I. Apinajé entre Tocantinópolis e Maurilândia, também têm causado sérios problemas e divergências internas nas comunidades. Em fevereiro de 2014, moradores dos povoados Ribeirão Grande e Folha Grossa, manipulados por políticos e empresários locais realizaram bloqueio desta rodovia por várias semanas para pressionar os órgãos públicos visando obtenção a qualquer custo da licença para asfaltar a TO-126. O movimento teve o “apoio” de algumas lideranças indígenas da região da aldeia Mariazinha. Durante reunião realizada num acampamento Apinajé localizado as margens da TO-126, os representantes da CGLIC/FUNAI (DF), Ricardo Burg e da CTL/FUNAI de Tocantinópolis, Bruno Aluísio Braga Fragoso alertaram os caciques sobre a necessidade de se realizar Estudos de Impactos Ambiental-EIA/RIMA e consulta livre, prévia e informada às comunidades Apinajé; procedimentos normais que fazem partes do licenciamento da obra.

“Atualmente estamos sendo fortemente pressionados e prejudicados por grandes desmatamentos realizados por empresas para o plantio de eucaliptos e carvoarias. O Relatório do Ministério Público Federal-MPF-AGA, divulgado em 2013, apontou 494 projetos de “silvicultura” das empresas Eco Brasil Florestas, Suzano Papel e Celulose e Sinobrás em andamento no Norte de Tocantins, sendo que mais da metade destes empreendimentos estão planejados e sendo implantados nos municípios de Ananás, Araguatins, Axixá, São Bento do Tocantins, Cachoerinha, Nazaré e Tocantinópolis, alguns com incidência direta na Terra Apinajé”, registra o relatório.

No mês de agosto de 2013, após denuncia do povo Apinajé, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e a Companhia de Polícia Rodoviária Ambiental do Tocantins (CIPRA), durante diligencias em áreas limítrofes flagraram um desmatamento irregular na fazenda Gleba Matão I, localizada na BR-230, em área reivindicada pela comunidade Apinajé, no qual existiam também duas carvoarias em operação. Argumentando a não participação no Processo de Licenciamento dos empreendimentos, a FUNAI conseguiu junto ao MPF-AGA que os referidos desmatamentos e carvoarias fossem embargados pelo NATURATINS, que é órgão licenciador do estado do Tocantins. Mas, por meio de Decisão Judicial, o empreendedor obteve autorização para continuar as atividades, que estão se expandindo por todo região do entorno da Terra Apinajé, visando o plantio de eucaliptos.

“Por essa razão nos meses de janeiro e fevereiro de 2015, realizamos intensa mobilização, bloqueando por dois dias a rodovia TO-210, para protestar contra esses desmatamentos do cerrado no entorno da Terra Apinajé para o plantio de eucaliptos, situação que já vem ocorrendo desde 2004, no município de São Bento do Tocantins. Desta vez o proprietário da Fazenda Góes, Eloísio Flavio Andrade, adquiriu do NATURATINS licenças para atividade pecuária, entretanto nos meses de novembro e dezembro de 2014, observamos violentas atividades de tratores com uso de correntes desmatando área reivindicada limítrofe à rodovia BR-230. O citado desmatamento para plantio de eucaliptos atingiu importantes áreas de nascentes e cabeceiras de águas, do ribeirão Góes, localizado a apenas 500 metros da aldeia São José, a atividade prejudicou também as aldeias Areia Branca, Bacabinha, Cocal Grande e Prata no município de Tocantinópolis”, relataram os líderes da associação.

Diante da possibilidade do agravamento de conflitos violentos entre a comunidade indígena e não-índios e em razão dos fortes suspeitas de irregularidades, confirmadas pela falta de consulta prévia, livre e informada à comunidade Apinajé e a não participação da (FUNAI) no processo de licenciamento conduzido pelo NATURATINS; o Ministério Público Federal no município de Araguaína, MPF/AGA, imediatamente impetrou junto ao (NATURATINS, medidas para embargar as atividades. Questionando a não participação da FUNAI nos referidos processos de licenciamentos, o MPF-AGA realizou no dia 6 de fevereiro deste ano, na Promotoria de Justiça em Tocantinópolis, concorrida Audiência Pública na qual foram debatidos os licenciamentos de empreendimentos nas terras indígenas e a participação da FUNAI nos Processos de Licenciamentos do NATURATINS nos empreendimento do entorno e dentro da área Apinajé.

Clique AQUI para ler o relatório completo

Fonte: Folha do Bico

sábado, 20 de setembro de 2014

Maranhão: Justiça manda despejar famílias no município de Carolina


Cinquenta e duas famílias acampadas, desde 2009, na fazenda Ponta da Serra, município de Carolina, estão sendo despejadas por ordem do Poder Judiciário. Após a ocupação do imóvel as famílias recorreram ao INCRA para que procedesse à desapropriação do mesmo e sua destinação para assentamento das famílias. Em maio de 2010, o órgão fundiário instaurou Processo de Desapropriação sob o nº 54230.004759/2010-67.
Ocorre que os proprietários Argemiro Pereira da Costa e Juilton Pereira da Costa ingressaram com uma ação de reintegração de posse na comarca de Carolina e, em setembro, o juízo da comarca concedeu liminar reintegrando-os na posse, como sempre atendendo a alegação de ocupação como menos de um ano e um dia. Ressalta-se que, mesmo antes da manifestação do judiciário, capangas dos fazendeiros tentaram expulsar as famílias.
Logo após a expedição da liminar os fazendeiros voltaram à área, acompanhados apenas por policias à paisana de nomes Antônio Carlos dos Santos e Juvenal, do policiamento de Carolina, e derrubaram barracões da comunidade, além das casas de oito famílias, retirando-as à força da comunidade.
Segundo informações, a mesma área ocupada pelas famílias está sendo negociada pelos proprietários com a empresa Suzano Papel e Celulose para o plantio de eucalipto que tem causado sérios conflitos agrários em todo o estado do Maranhão.
Diante da gravidade da situação exigimos a intervenção das autoridades competentes para que as famílias tenham assegurado o direito à moradia, ao trabalho, à alimentação, enfim à paz e dignidade e também do Comando Geral da Policia Militar, que certamente não admite de policiais militares assumam o papel de jagunços em defesa de latifundiários e grileiros.

Fonte: Comissão Pastoral da Terra do Maranhão (via Diogo Cabral por correio eletrônico).

domingo, 7 de julho de 2013

Uma história das selvas


Por Lúcio Flávio Pinto*

A antiga Companhia do Jari, do milionário americano Daniel Ludwig, vai dar um novo passo na sua acidentada história de quase meio século. A empresa recebeu, no mês passado, a licença de instalação da Secretaria de Meio Ambiente do Pará, com validade até junho de 2014, para fabricar um tipo diferente da celulose que produziu durante 33 anos, até o final do ano passado, quando suspendeu suas atividades e demitiu seus cinco mil empregados.

Ao invés da tradicional pasta de celulose branqueada, extraída do eucalipto, com o formato de papelão, que é usada na indústria do papel, agora a empresa vai produzir celulose solúvel, que é utilizada na indústria de tecidos. Inicialmente estava prevista para outubro a retomada da operação da fábrica. Mas talvez a data seja retardada.

O alvo é o mercado chinês, o maior consumidor mundial. Recentemente o governo da China iniciou um processo antidumping contra seus fornecedores do produto. A iniciativa pode servir de estímulo para a Jari, como para outros grupos, entrar nesse mercado fechado. Nele, cinco grandes fabricantes controlam 60% do total, concentrados na América do Norte, África do Sul e China. A única brasileira nesse setor é a Bahia Specialty Cellulose, mas sob controle estrangeiro.

O elevado preço alcançado pelo algodão motivou os produtores a se deslocar para a celulose solúvel de fibra de madeira como alternativa mais barata e rentável. A previsão é de que a atual produção, de 5,4 milhões de toneladas, continue a crescer nos próximos anos. O Brasil é um dos alvos preferidos dessa expansão.

Transferida de Daniel Ludwig para um consórcio nacional em 1982 e, em seguida, ao grupo Antunes, em 2000 a Jari o controle mudou de dono. O grupo Orsa, de São Paulo, pagou o valor simbólico de um real e assumiu a dívida.

A operação, rápida e aparentemente simples, ignorou uma história conturbada. Em 1967 Daniel Ludwig, na época um dos homens mais ricos e misteriosos do mundo, comprou uma vasta extensão de terras na foz do rio Amazonas, entre o Pará e o Amapá. Julgava que sua propriedade teria 3,6 milhões de hectares. Seria uma das maiores do planeta.

Depois admitiu que ela pudesse ser de “apenas” 1,6 milhão de hectares, ainda no topo do ranking fundiário mundial. Hoje, sabe-se que, segura mesmo, ela abrange um terço dessa extensão. A indefinição dominial sempre foi um dos problemas do projeto.

Mesmo sem poder apresentar títulos de propriedade como garantia a empréstimos, o milionário conseguiu o aval do tesouro nacional para importar do Japão uma fábrica de celulose e uma termelétrica de médio porte, que poderiam ser fabricadas no Brasil. As duas unidades, construídas sobre plataformas flutuantes, como se fossem navios, saíram do estaleiro de Jure, navegaram mais de 20 mil quilômetros e foram assentadas sobre uma base formada por 3,6 mil maçaranduba, madeira amazônica mais resistente do que o concreto, num dique alagado (e em seguida aterrado). Em 1979 a fábrica começou a funcionar, a primeira da era dos “grandes projetos” da Amazônia.

Mas os choques do petróleo, que multiplicaram o custo da energia, e dos juros internacionais, que passaram de 20% ao ano, encareceram tanto os empreendimentos de Ludwig que ele decidiu não pagar o empréstimo de 200 milhões de dólares contraído no Japão. Como avalista, o governo teve que honrar o compromisso. E teria que estatizar o Jari para se ressarcir. Essa heresia, diante do modelo econômico do regime militar, fez o todo poderoso ministro Delfim Neto arquitetar às pressas a nacionalização da Jari, recrutando a toque de caixa empresários dependentes do governo para entrar no negócio.

Ludwig saiu sem pagar seus débitos. Os novos proprietários também não assumiram o enorme “papagaio”. O BNDES e, depois, também o Banco do Brasil assumiram os encargos. Teriam que receber ações ordinárias no valor de 500 milhões de dólares, que lhes daria o controle da empresa mas foram obrigados a aceitar ações preferenciais, sem direito a voto e sem participação no comando da firma, que continuou privada. E assim ela foi mudando de dono sem que o dinheiro voltasse ao caixa do tesouro.

Na última transação, o grupo Orsa entrou com um real simbólico para que a operação não fosse de doação. Mas não conseguiu equilibrar as contas e viabilizar o funcionamento da fábrica.


Apesar dos recursos públicos que sustentaram a Jari, as últimas decisões foram tomadas de súbito, sem maiores informações à sociedade. Sabe-se que a conversão da fábrica de celulose convencional para celulose solúvel exigirá investimento de 100 milhões de dólares. 

Nos últimos cinco anos a Jari teve prejuízos e problemas nas suas operações.

No seu último balanço divulgado, de 2011, a empresa registrou faturamento de R$ 1,2 bilhão, semelhante ao do exercício anterior, mas teve prejuízo de R$ 290 milhões contra um lucro, em 2010, de R$ 41 milhões. Seu patrimônio líquido sofreu uma redução de quase R$ 300 milhões nesse período.

A Orsa recorreu a um sócio estrangeiro, a americana International Paper, com a qual criou uma joint-venture. O novo parceiro teria se comprometido a aplicar R$ 952 milhões no negócio, assumindo 75% das suas ações. Será fôlego suficiente para a Orsa tomar um novo caminho ou ela acabará ficando pelo meio?

É a dúvida, que talvez venha a ser respondida nos próximos meses. Mas uma coisa é certa: quando a empresa retomar suas atividades, a quantidade de empregados que utilizará será muito menor do que a do efetivo dispensado no final do ano passado.

Fonte: Yahoo – Cartas da Amazônia


Leia na Biblioteca do Blog: “Os braços do Jari: entre a terra, o latifúndio e os grandes projetos” (Artigo de Ricardo Folhes e Maria Luiza Camargo)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sem dívidas, Projeto Jari quer expansão



Onze anos depois de assumir o polêmico Projeto Jari, na floresta amazônica, o empresário Sérgio Amoroso, do grupo Orsa, comemora a liquidação da dívida do empreendimento, que originalmente chegava a US$ 415 milhões. Hoje, o Jari, tocado pelo americano Daniel Ludwig na década de 60, produz 350 mil toneladas por ano de celulose branqueada de eucalipto e ocupa área de 1,365 milhão de hectares.

Os planos, agora, são de expansão do projeto, com a instalação de uma linha com capacidade para produção de 1,5 milhão de toneladas anuais de fibra. Conforme Amoroso, o Jari está arrumando a casa para receber um sócio estratégico ou captar recursos no mercado com uma oferta pública de ações.

Encravado na Floresta Amazônica, o Projeto Jari, que produz atualmente 350 mil toneladas por ano de celulose branqueada de eucalipto e ocupa área de 1,365 milhão de hectares, se prepara para ser a "noiva" da vez no setor. Palavras do próprio dono, o empresário Sérgio Amoroso, responsável por zerar as dívidas do empreendimento que foi idealizado pelo americano Daniel Ludwig na década de 60. Liquidado o compromisso, que originalmente chegava a US$ 415 milhões, o momento é de traçar a rota para um novo salto - com a instalação de uma linha com capacidade de produção de 1,5 milhão de toneladas anuais de fibra -, em voo que não será solo.

Conforme Amoroso, a Jari está arrumando a casa para receber um sócio estratégico ou captar recursos no mercado, via oferta pública de ações, e então sacramentar o projeto desenhado há mais de 50 anos. "Já fomos procurados. Mas ainda não é a hora", ressalta o empresário, revelando apenas que, dentre os potenciais interessados, estariam dois grupos chineses e um brasileiro. Reduzir custos de produção, modernizar as instalações e ampliar a capacidade fabril do empreendimento, comprado pelo grupo Orsa em 2000, virão antes da capitalização e construção da nova fábrica, o que só deve ocorrer a partir de 2015.

Num primeiro passo rumo à empresa que se apresentará a potenciais investidores, os negócios de embalagens e papelão ondulado do grupo foram incorporados aos de celulose, o que deu origem à Jari Celulose, Papel e Embalagens. Em 2010, do faturamento de R$ 1,5 bilhão do grupo - um ano antes, as receitas foram de R$ 1,3 bilhão -, R$ 420 milhões vieram da divisão de celulose e R$ 1,1 bilhão, de papel e embalagem. O grupo compreende ainda a Orsa Florestal, responsável pelo manejo de 800 mil hectares de florestas na Amazônia; a recém-adquirida Ouro Verde, que beneficia produtos não madeireiros, especialmente castanha-do-pará, em Alta Floresta (MT) e Vale do Jari (PA); e a Fundação Orsa, que tem papel estratégico para os planos do empresário na Amazônia, ao assegurar o desenvolvimento sustentável da região e de comunidades que dependem dos recursos da floresta.

Madeira e alto custo de produção são gargalos que impedem o aumento da capacidade da Jari no curtíssimo prazo

Em paralelo, o grupo finalmente quitou as dívidas da Jari, ao saldar a última parcela, de US$ 40 milhões, com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e com o Banco do Brasil. Conforme Amoroso, a fórmula de pagamento acertada com os credores tinha duas variáveis: custo de produção e preço da celulose. Cumpridas todas as cláusulas do contrato, ao fim de 10 anos, a dívida seria perdoada - exceto pela garantia mínima de pagamento de US$ 112 milhões exigida pelo banco de fomento. Cerca de US$ 80 milhões desse montante foram pagos por meio da fórmula ao longo dos 10 últimos anos. A diferença saiu do bolso do único acionista.

Toda a celulose produzida na unidade fabril, que fica às margens do rio Jari, divisa dos Estados do Pará e Amapá, é exportada e a fábrica, que veio de navio desde o Japão, só não opera à plena capacidade porque falta madeira. Conforme Amoroso, as florestas que permitirão aumento na produção já estão plantadas e, em dois anos, estarão prontas para corte. Para alcançar as 420 mil toneladas que podem ser produzidas na fábrica atual, o grupo também vai investir US$ 200 milhões nos próximos dois anos. Ainda neste mês, encaminhará ao BNDES o pedido de financiamento. "Desse valor, US$ 150 milhões devem ser direcionados para redução de custo."

Atualmente, o custo caixa de produção da celulose procedente da Jari está em US$ 530 a tonelada, bem acima da média das demais produtoras nacionais. Na brasileira Fibria, referência mundial da indústria, o mesmo custo, no primeiro trimestre, foi de R$ 446 por tonelada. "Temos de reduzir nosso custo em pelo menos US$ 150 por tonelada para ir para a briga", avalia Amoroso. "No fim do processo, o objetivo é estar em US$ 50 por tonelada acima de Fibria e Suzano (Papel e Celulose)". Um dos fatores favoráveis ao cumprimento da meta é a distância relativamente curta entre florestas e fábrica, o que reduz de forma significativa gastos com movimentação da madeira. Hoje, o raio médio da Jari está em 40 quilômetros, um dos menores registrados pela indústria. Com a implantação da segunda fábrica, contudo, esse raio deverá dobrar, conforme estimativa de Amoroso.

A nova linha fabril, que já conta com área certa na região, incluindo os hectares que serão destinados ao plantio de novas florestas, também deve alterar o mapa das vendas da Jari. Atualmente, 85% da celulose ali produzida é embarcada para clientes na Europa, 15% é destinado à Ásia e 5% fica na América Latina. "Com maior escala e o crescimento do consumo de celulose na China, a Ásia deverá conquistar fatia cada vez mais relevante nas vendas", diz o empresário.

Para garantir a continuidade do negócio - e a atratividade da Jari aos olhos de potenciais investidores -, o grupo Orsa tem dedicado especial atenção às comunidades que vivem na Floresta Amazônica e investido no bom relacionamento com organizações ambientais e de trabalhadores. Afinal, o complexo Jari compreende, além de fábrica e unidade de geração de energia, 70 quilômetros de ferrovias, porto, aeroporto e uma cidade planejada em plena Floresta Amazônica. "Isso já estava previsto no projeto de Ludwig", ressalta Amoroso. "Se não levarmos desenvolvimento à região e não oferecer condições de permanência das comunidades, não podemos continuar ali."

Um dos atestados de atuação responsável, diz o empresário, foi a conquista do certificado FSC (do inglês Forest Stewardship Council), de manejo sustentável de quase 800 mil hectares de florestas. Para gerir esses recursos, o grupo criou a Orsa Florestal, que em 2011 deve registrar a primeira geração de caixa positiva. Sob a estrutura da unidade florestal aparece a empresa Ouro Verde, recém-adquirida pelo grupo e voltada principalmente ao beneficiamento de castanha-do-pará. No ano passado, a Ouro Verde faturou R$ 3,5 milhões e a expectativa de Amoroso é a de que, em 10 anos, as receitas da controlada alcancem R$ 150 milhões.

Atualmente, a Jari Celulose emprega 3 mil trabalhadores diretos e indiretos. Com a instalação da segunda linha de celulose, a previsão é a de que outros 4 mil funcionários diretos e até 15 mil indiretos sejam integrados. Já na floresta, pesquisas indicam a presença de 98 comunidades diferentes.

Fonte: Valor Econômico

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Desertos verdes: Indústria do eucalipto toma 720 hectares por dia no país

O Brasil ganhou nos últimos anos 720 hectares por dia de plantações de eucalipto. A quantidade, estimada pela Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas, equivale a 4,5 parques Ibirapuera ou a 960 campos de futebol.

Parte das novas áreas pertence a empresas estrangeiras, como a sueco-finlandesa Stora-Enso, que viraram um dos principais alvos de críticas de grupos como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

A árvore é utilizada na fabricação de papel, celulose e carvão vegetal ou aproveitada como madeira. Minas Gerais, São Paulo e Bahia lideram o ranking de área plantada no país. A expansão de 2005 a 2009 das plantações foi de 10 mil km2 (o DF tem 5.800 km2), segundo dados da associação do setor.

Salesópolis, cidade de 16 mil habitantes a 101 quilômetros de São Paulo, tem a economia totalmente voltada ao setor de eucaliptos e pínus. Um terço do território é coberto por essas árvores, que avançam até sobre o pequeno centro do município. A Suzano é uma das principais forças da economia local. Mas também há muitos pequenos produtores - médicos e advogados - que possuem áreas enquanto mantêm suas outras atividades. Ávidos por novas atividades econômicas, cidades e Estados como o Rio Grande do Sul, incentivam a cultura.

Fonte: Folha de S.Paulo

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Mais uma hidrelétrica no Pará: para quê e para quem?

Por Edilberto Sena*

O Estado do Pará perde mais uma de suas riquezas naturais para servir ao PAC do governo federal – o Plano de Aceleração do Crescimento. Ou melhor, a nova hidrelétrica, Santo Antonio do Rio Jarí, é para servir ao grupo econômico privado – ORSA, que explora caulim e celulose em Monte Dourado.


A bela cachoeira de Santo Antonio será privatizada. Falam que é uma das mais belas quedas d’água no Pará, de mais de 50 metros de altura. Ali, a Eletronorte decidiu construir uma usina de 300 megawates de potência, dez vezes maior do que a usina de Curuá-Una. Até aí, até que poderia ser tudo bem. Seria aproveitar a queda natural das águas e gerar eletricidade limpa e barata para o povo ribeirinho da região do rio Jari e até para a cidade de Almerim.

Mas não será o que vai acontecer. Será construído um lago de 31 quilômetros e 700 metros quadrados e o objetivo principal da nova usina não é o povo, mas as fábricas de celulose e exploração de caulim do grupo ORSA. Isto é, o sonho do gringo Ludwig na década de 80, que não foi permitido realizar pelos ditadores Médici e Golbery, agora se realiza pelo governo democrata de Lula da Silva.

Mas a fome do Ministério das Minas e Energia é muito mais ambiciosa e devastadora. A Eletromorte pensa construir uma gigante usina em Belo Monte, mais cinco mega hidrelétricas na bacia do Tapajós, e depois outras usinas nos rios Maicuru, Trombetas, Aruã e onde mais houver cachoeiras e corredeiras. Tudo em nome do Programa de Aceleração do Crescimento.

Como o plano perverso enfrenta dificuldades no rio Xingu, porque ali tem sociedade organizada e índios valentes, a Eletromorte corre ao rio Jari, onde é fraca a resistência popular. Ali mandava antes o coronel de barranco Zé Julio que explorava os caboclos extrativistas e mandava matar os rebeldes; depois veio coronel gringo Mr. Ludwig, e destruiu o que pode para plantar gmelina, planta exótica e depois eucalipto para gerar celulose. Como não deu certo para ele, foi embora. Hoje domina na Jarilândia, o “ coronel” ORSA, empresa privada.

A todos três coronéis de barranco e de capital serviam humildemente os governos da República brasileira. Hoje a Eletronorte privatiza a cachoeira Santo Antonio do Jarí, para servir a uma empresa que desta para extrair minério. Será que logo mais a sociedade do Baixo Amazonas permitirá a destruição do Rio Tapajós? No rio Xingu os povos Kaiapós já mandaram aviso ao presidente que se tentar Belo Monte vai correr sangue no rio Xingu. Os índios Mundurucus também já enviaram carta ao presidente alertando que não permitirão destruírem o rio Tapajós. Irão os não índios fazer aliança com quem?

*Padre diocesano e Coordenador da Rádio Rural AM de Santarém. Editorial de 09 de dezembro de 2009.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Ibama concede licença para mais uma hidrelétrica na Amazônia

Luana Lourenço*

Brasília - Em meio à expectativa pela licença ambiental para a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu (PA), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) concedeu hoje (8) autorização para outro empreendimento na Amazônia, a Usina Hidrelétrica de Santo Antônio do Jari, no Rio Jari, na divisa entre o Pará e o Amapá.

A usina terá potência instalada de 300 megawatts, bem menor que Belo Monte ou as hidrelétricas do Rio Madeira (RO), mas ainda assim o suficiente para abastecer uma cidade de 1,5 milhão de habitantes. No entanto, a energia de Santo Antônio do Jari deverá beneficiar principalmente indústrias de celulose instaladas na região.

A usina será construída pela ECE Participações – principal acionista, com 90% – e pela Jari Energética, empresa do grupo Orsa, proprietária do projeto Jari Celulose.

A licença prévia, primeira etapa do licenciamento ambiental, foi assinada pelo presidente do instituto, Roberto Messias Franco, e prevê 25 condicionantes a serem cumpridas antes do início das obras. O Estudo de Impacto Ambiental da hidrelétrica prevê o alagamento de 31,7 quilômetros quadrados para formação do lago da usina, área relativamente pequena.

Já a licença de Belo Monte continua em análise pelos técnicos do Ibama e deve sair em janeiro.
Na última terça-feira (1º), o diretor de licenciamento do instituto, Sebastião Custódio Pires, deixou o cargo e foi substituído por Pedro Bignelli. A área de licenciamento têm sido alvo de pressões da área econômica do governo, principalmente com relação aos casos de empreendimentos energéticos.

*Fonte: Agência Brasil