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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Ministério sertanejo

Por Marcelo Leite*

Aldo Rebelo na Ciência e Kátia Abreu na Agricultura formarão um duo paranoico para lidar com o desmate

O governo anterior de Dilma Rousseff foi medíocre, e este se encaminha para ser pior. Todas as poucas coisas boas de seu primeiro mandato, no campo do alívio da pobreza, eram continuação de políticas de Lula. No que ela e Guido Mantega inovaram, bem, deu no que deu.

Como esta não é uma coluna de economia nem de política, fiquemos no campo da ciência e do ambiente. Dilma semeou ali material de sobra para colher uma safra recorde de desmatamento e de emissões de gases do efeito estufa --isso no ano em que deveria ir a Paris, em dezembro, para ajudar a pôr o mundo na rota da descarbonização.

A presidente escolheu Aldo Rebelo para ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação. Seus 50 e tantos milhões de votos lhe dão legitimidade para entregar a um ex-maoísta que ainda acredita no materialismo dialético, mesmo que não no aquecimento global (a não ser como conspiração imperialista), uma pasta estratégica para curar o calcanhar de aquiles da economia brasileira (baixa produtividade). Mas não lhe dão razão, necessariamente, como parece acreditar Dilma.

Talvez para não dar asas às ideias retrógradas de Rebelo, que já defendeu o veto à introdução de tecnologias que economizem mão de obra, a presidente tratou de diminuir-lhe o ministério. Mandou cortar R$ 1,6 bilhão do orçamento para gastos administrativos de R$ 9,8 bilhões do MCTI, segundo reportagem de sexta-feira (9) nesta Folha.

Mesmo com a vara curta, Rebelo fará com Kátia Abreu no Ministério da Agricultura um duo suficientemente paranoico para cutucar a onça do desmatamento. Ela na CNA e ele na Câmara comandaram a aprovação do novo Código Florestal, que até contém algumas coisas boas, mas está sendo visto por boa parte dos grileiros, latifundiários e pecuaristas como licença para desmatar.

OK, o desmatamento voltou a cair em 2013/14, depois de ter aumentado pela primeira vez na década em 2012/13. O ano-base dessa contabilidade feita pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), porém, terminou em julho. De lá para cá, os sinais são de que o desmate da Amazônia voltou a recrudescer.

O governo fez de tudo para esconder os dados comprometedores. Os dados do sistema Deter, que antes eram divulgados mensalmente, agora só são a cada três meses, e mesmo assim com omissão de parâmetros fundamentais para que ONGs e institutos independentes façam seu próprio monitoramento.

ONGs? Aldo Rebelo e Kátia Abreu não as têm em boa conta. Parecem acreditar piamente que elas, pelo fato de algumas terem sede no exterior ou contarem com estrangeiros nos seus quadros, estão engajadas numa missão para prejudicar a competitividade do agronegócio.

O Inpe, agora, estará subordinado a Rebelo. É quase certo que o recém-ministro se prestará com convicção à tarefa de impedir que o instituto que ganhou fama internacional com o melhor sistema de monitoramento por satélite da destruição florestal prossiga no que o parlamentar deve considerar um trabalho de quinta coluna: fornecer dados transparentes sobre o estado da maior floresta tropical do planeta.

Cada governo tem o ministro que merece. Lula teve Eduardo Campos e Sérgio Rezende no MCTI. Dilma foi de Aloizio Mercadante, Marco Antonio Raupp e Clelio Campolina Diniz. Agora, vai dançar em Paris ao som da dupla Aldo e Abreu.

domingo, 2 de novembro de 2014

Retrocesso no Inpe

Marcelo Leite*

Suspeita-se que o desmate esteja em alta de novo, o que é ruim para Dilma, como foi para Sarney

O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) merece o respeito dos brasileiros. Em três décadas, ergueu admirado sistema para monitorar com satélites o desmatamento da Amazônia. Já exporta a tecnologia para a África e a América Latina.

Após uma década de transparência total na publicação dos dados, engatou-se a marcha a ré. Ela faz o Inpe retroceder a 1989, quando foi posto a serviço dos interesses do então presidente José Sarney.

O aparelhamento do Inpe, agora, envolve o Deter, um dos sistemas que opera para monitorar desmatamento (do outro, Prodes, sai o dado oficial anualizado da devastação).

O Deter foi criado para emitir alertas em tempo real. Serve para orientar a autuação dos proprietários rurais que derrubam matas ilegalmente (sem autorização do Ibama).

Para ser ágil, sacrifica um pouco da precisão --"enxerga" só derrubadas acima de 25 hectares (250 mil m²). O Prodes trabalha com 6 ha.

Entre uma e outra apresentação anual do dado totalizado pelo Prodes, que em geral ocorre em novembro, o Deter serve como indicador das tendências do desmatamento.

Suspeita-se que a destruição esteja aumentando, como já ocorreu em 2013. A tendência foi apontada pelo sistema independente SAD, da ONG Imazon. Como isso seria ruim para a candidata Dilma Rousseff (PT), suspendeu-se a divulgação.

A desculpa oficial é que esses números serão divulgados já com a metodologia do Novo Deter, que terá imagens com resolução melhor, similar à do Prodes. Mas o Inpe confirma que os relatórios do velho Deter foram feitos e validados --só não foram postados no site do sistema (www.obt.inpe.br/deter/avaliacao).

Detalhe: a própria página do Deter diz que "a liberação dos dados ao público segue cronograma mensal no período de maio a outubro".

Segundo o chefe de gabinete do Inpe, Carlos Alexandre Wuensche de Souza, os relatórios mensais de avaliação de agosto e setembro não foram ainda publicados porque o instituto não recebeu o sinal verde do Ibama, seu cliente imediato.

"Tem de haver acordo entre os quatro atores envolvidos", declara, referindo-se aos ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação e do Meio Ambiente, ao Ibama e ao Inpe.
Souza diz que não há subordinação do Inpe ao Ibama nem qualquer "agenda oculta" de caráter eleitoral por trás do sumiço dos dados. "Existe um combinado com o ministro [MCTI, ao qual se vincula o Inpe], por conta da Casa Civil. Não é uma ordem", afirma.

Em outras palavras: se o desmatamento aumentar, o Ibama e o MMA ficarão mal na fita, mas detêm o poder de segurar a divulgação de informações. O leitor julgue se isso é subordinação ou não.

Em abril de 1989, o Inpe fez muito pior, como revelaram reportagens de Maurício Tuffani na Folha. Sarney se achava sob grande pressão internacional por causa da explosão de queimadas e desmatamentos no ano anterior. Em dezembro de 1988 havia sido assassinado o líder seringueiro Chico Mendes.

Para melhorar a imagem internacional do governo Sarney, o instituto publicou relatório em que omitia desmatamento anterior com área similar a dois Estados do Rio de Janeiro. Após as reportagens, divulgou uma retificação, mas a imagem do Inpe já estava manchada.

Os admiradores do Inpe, que são muitos, esperam que a história não se repita --desta vez como farsa.


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Governo pretende terceirizar contratação de professores federais via Organização Social


O presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Jorge Almeida Guimarães, declarou recentemente, em um debate sobre educação superior, que a Capes, o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Ministério da Educação (MEC) pretendem criar uma Organização Social (OS) para contratar docentes para as Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes) por meio da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Valendo-se da argumentação falaciosa de que o Regime Jurídico Único (RJU) contrata professores “por 30 anos e não manda ninguém embora”, e de que a OS garantiria e facilitaria a contratação de grandes pesquisadores estrangeiros, a Capes propõe, na verdade, a terceirização do trabalho dos professores das Ifes.

Paulo Rizzo, presidente do ANDES-SN, critica as declarações do representante da Capes.“Essa proposta agride o processo democrático de seleção de professores por meio de concursos públicos. Também agride a autonomia universitária, pois tira das mãos da universidade o controle do processo de seleção de seus docentes”, ressalta.

Respondendo à afirmação de Jorge Guimarães de que os concursos públicos para professores são “um jogo de cartas marcadas”, Paulo Rizzo defende novamente a autonomia universitária. “Na verdade eles querem, via OS, fazer um jogo de cartas marcadas. Ao invés do concurso com regras claras, definidas por cada instituição, com pontos e bancas definidos pelos colegiados de departamento, com direito de recursos aos candidatos, querem a escolha pela gerência de uma OS. Quem disse que a gerência não será corporativista? Quem escolherá os melhores quadros?”, questiona o presidente do ANDES-SN.

Proposta de Terceirização
A proposta de terceirização veio à tona em um evento recente que contou com a participação de Jorge Guimarães e do ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, Clelio Campolina, ex-reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, o Simpósio Internacional sobre Excelência no Ensino Superior promovido pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio de Janeiro. Na segunda-feira (22), Guimarães afirmou que Capes, MEC e MCTI estão planejando a criação de uma OS para gerir a contratação de docentes. Segundo o presidente da Capes, os dois ministérios já, inclusive, aprovaram a criação da OS.

"O ministro [da Educação, José Henrique] Paim e o ministro [da Ciência, Tecnologia e Inovação, Clelio] Campolina estão nos autorizando a fazer uma organização social para contratar, saindo do modelo clássico que demora e que nem sempre acerta muito", disse Guimarães, segundo matéria publicada pela Agência Brasil. A medida, segundo ele, teve bons resultados no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), que é uma OS, e recebe recursos reajustados anualmente para pagar profissionais vindos de fora.

Para Guimarães, a proposta de terceirização pode atrair docentes estrangeiros às universidades brasileiras – o que internacionalizaria as instituições. Guimarães também afirma que os exemplos de autarquias que abriram mão da contratação de servidores por meio do RJU são positivos, já que o sistema de contratação vigente “não está funcionando”.

Paulo Rizzo aponta que o presidente da Capes parece “esquecer” que a contratação de professores estrangeiros já é, além de constitucional, fato comum e corriqueiro nas universidades federais, tornando desnecessária a criação de uma OS para esse fim. “Na verdade, temos que oferecer uma carreira e uma política salarial atrativas para contratar os docentes, sejam brasileiros ou estrangeiros, por meio do Regime Jurídico Único”, reforça.

*Fonte: Andes - Com informações de Agência Brasil, Jornal da Ciência-SBPC e O Globo.



quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Governo omite informações sobre degradação na Amazônia

Mapa mostra alertas de degradação (em rosa) dentro da Terra Indígena Cachoeira Seca (PA), do povo Arara, obtidas pelo Greenpeace usando imagens do satélite Radarsat 2. O local sofre pressão de madeireiros. Por meio do Degrad, o governo também tem dados como esse, mas não só não os divulga desde 2011, como não consegue impedir a exploração de madeira dentro de áreas protegidas. Os dados do Degrad interessam à sociedade e são importantes para que sejam produzidas análises sobre a degradação na Amazônia, por isso, devem ser liberados imediatamente. Dados Radarsat: ©MDA Geosptial Services.

O mapeamento da degradação florestal dos últimos três anos já foi realizado pelo Inpe, mas os dados ainda não foram divulgados pelo governo. Essa omissão prejudica o monitoramento da extração ilegal de madeira na região
O sistema Degrad, lançado pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais) em 2008, mapeia anualmente as áreas de floresta degradadas, ou seja, aquelas que são exploradas e estão em processo de desmatamento mas ainda não sofreram corte raso e por isso não tiveram a cobertura florestal totalmente removida.
A exploração madeireira é comum nesses locais e por isso o Degrad acaba sendo a melhor ferramenta que o governo federal tem em mãos para identificar também as áreas onde essa exploração é feita de forma predatória e ilegal.
A somatória das áreas mapeadas serve como um índice anual de degradação florestal. Esse índice foi anunciado regularmente pelo governo desde que o Degrad foi lançado até o ano de 2011, com os dados referentes à 2010, porém, desde então, nada mais foi divulgado a respeito.
Agora, o projeto “Mídia e Desmatamento na Amazônia”, da ANDI, revelou que o Inpe tem os dados do mapeamento da degradação da cobertura florestal na Amazônia referentes a 2011, 2012 e 2013, porém, eles ainda não foram divulgados.
Segundo a matéria veiculada no site do projeto, cabe ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), órgão ao qual o Inpe é diretamente ligado, e ao Ministério do Meio Ambiente decidir sobre a divulgação pública dos dados do Degrad, assim como de outros projetos de monitoramento.
“Nós estamos acompanhando o processo de produção de dados sobre o monitoramento que o Inpe faz da cobertura florestal na Amazônia e percebemos que eles estão menos transparentes: o Prodes, o Deter e o Degrad [ferramentas de monitoramento] estão com sua divulgação atrasada. Só que essas informações interessam à sociedade, elas não são monopólio do Ministério do Meio Ambiente”, disse Marco Gonçalves, editor do Mídia e Desmatamento na Amazônia.
O Degrad é capaz de “enxergar” áreas a partir de 6,25 hectares, muito menores do que as que o Deter – ferramenta que gera alertas sobre desmatamento – consegue (25 hectares). Num contexto em que o desmatamento está mudando de perfil e busca áreas pequenas justamente para burlar os satélites, a divulgação desses dados seria essencial.
“Com esta absurda censura aos dados do Degrad, o governo tentar esconder que a floresta está sendo sistematicamente destruída pela exploração predatória e ilegal de madeira, que, como o Greenpeace mostrou na campanha Chega de Madeira Ilegal, acaba utilizando o próprio sistema de controle do governo para legalizar esse crime”, disse Marina Lacôrte, da Campanha da Amazônia do Greenpeace.
Se o governo não censurasse os dados, seria possível, por exemplo, a obtenção de um amplo levantamento de áreas protegidas onde ocorre exploração ilegal de madeira. A partir daí, haveria base para traçar análises e estratégias para combater frentes madeireiras que estão destruindo terras indígenas como a Cachoeira Seca, no Pará, a Caru, Awá e Alto Turiaçu, no Maranhão e Zoró, no Mato Grosso. Isso sem falar nas unidades de conservação Rebio Gurupi, também no Maranhão, e Resex Riozinho Anfrisio, no Pará – para citar apenas algumas que sofrem com o problema.
“O saque de madeira dentro de terras indígenas e unidades de conservação é grave, pois, além de acabar com a biodiversidade da floresta, gera violência e conflitos com as populações locais. No entanto, o governo prefere fechar os olhos: além de não controlar o setor madeireiro, ele está congelando a demarcação e a criação de terras indígenas e novas unidades de conservação e, pior, também não dá condições de implementação para as que já existem, permitindo o assédio dos madeireiros”, disse Marina.
Fonte: Greenpeace

domingo, 25 de setembro de 2011

Comissão do Senado aprova transferência do ensino superior do MEC para o MCT


A Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT) do Senado aprovou nesta quarta-feira (21) o Projeto de Lei do Senado (PLS) nº 518/2009 que transfere do Ministério da Educação (MEC) para o da Ciência e Tecnologia (MCT) a responsabilidade pelo ensino superior no país.

De autoria do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), o PLS propõe transformar o atual MEC em Ministério da Educação de Base. Na justificação do projeto, o parlamentar alega que a educação básica encontra-se relegada a segundo plano na estrutura organizacional do governo federal.

O parecer aprovado pela CCT aponta ainda que “o MEC concentra hoje todas as competências relativas à educação, tanto de nível básico quanto superior. Contudo, o poder político, a capacidade de organização, a visibilidade e a proximidade com a elite do segmento voltado ao ensino superior fazem com que o MEC concentre sua atenção e seus recursos nessa área, em detrimento do conjunto da educação básica”.

Com a mudança, toda a estrutura do MEC com atuação voltada ao ensino superior (secretarias, departamentos, autarquias, fundações e empresas públicas) será transferida para a o MCT. Apenas o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (Fnde) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) permanecem na pasta da Educação.

O PLS 518/2009 segue agora para apreciação na Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) e da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), esta última em caráter terminativo. Se aprovado nessas comissões, segue para votação no plenário da Câmara.

Para o ANDES-SN, a mudança proposta pelo PLS 518/2009 vai contra o projeto construído pelos educadores brasileiros para o Plano Nacional da Educação (PNE), que prevê a integração da Educação, em seus diversos níveis.

“A plataforma construída desde a década de 90 para PNE, no espaço do Fórum Nacional em defesa da Escola Pública, está organizada em torno da visão de que deve haver um sistema educacional no país articulando todas as esferas, todos os graus de ensino e todas as modalidades educacionais. Essa luta confronta com a idéia de fragmentar graus de ensino em ministérios diferentes. A responsabilidade do governo federal de exercer o papel articulador, já ficará segmentada dentro dele mesmo com a divisão proposta no PLS 518/2009”, observa Luiz Herinque Schuch, vice presidente do Sindicato Nacional.

Fonte: ANDES-SN

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

CTNBio liberada feijão transgênico para o nosso prato



Numa sessão recheada de aplausos emociados, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou nesta quinta-feira (15 de setembro) uma variedade de feijão transgênico resistente ao vírus do mosaico dourado desenvolvido pela EMBRAPA.

A variedade foi aprovada com 15 votos favoráveis, cinco votos pedidos de mais estudos (votos de ONGs e movimentos sociais) e duas abstenções, entre elas, a do representante do Ministério de Ciência e Tecnologia, órgão a qual a CTNBio é vinculado. 

A liberação inclui o plantio e o consumo do grão a partir de 2014.


Leia também: Feijão transgênico é aprovado, com abstenção do Min. da Ciência e Tecnologia

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Delfim Netto critica "exageros" de Mercadante em defesa de tese sobre o governo Lula

Futuro ministro da Ciência e Tecnologia no governo Dilma, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) defendeu nesta sexta-feira (17), no Instituto de Economia da Unicamp, em Campinas (SP), tese de doutorado sobre a política econômica do governo Lula. Depois de quatro horas de debates, a tese de 519 páginas foi aprovada, mas recebeu críticas da banca, formada pelos economistas Delfim Netto, Luiz Carlos Bresser Pereira, Ricardo Abramovay e João Manuel Cardoso de Mello.

A defesa da tese foi presenciada por cerca de 300 pessoas – duas centenas espremidas num auditório lotado, e mais cem, por meio de um telão, num espaço anexo. Mercadante, que se desligou da Unicamp na década de 90 sem concluir o doutorado, pediu reingresso na universidade no final de 2009, um procedimento previsto pelo regimento interno.

Sua tese defende a ideia de que o governo Lula estabeleceu um novo modelo de crescimento econômico, o “neo-desenvolvimentismo”, diferente do “nacional-desenvolvimentismo”, que vigorou na década de 70, e do neoliberalismo, a partir dos anos 90. Este novo modelo, disse, se construiu a partir do primado da política social sobre a econômica.

Dizendo-se à vontade para defender o governo Lula na universidade, depois de fazer isso por oito anos no Senado, Mercadante desfiou dezenas de números e estatísticas sobre o desempenho da economia nos últimos oito anos, enalteceu a política externa e detalhou as diferentes políticas sociais do governo, nas áreas de saúde, educação e previdência.Empolgado, falou por quase uma hora, o dobro do tempo que lhe foi concedido. Em algumas passagens, a apresentação de Mercadante lembrou a propaganda da então candidata Dilma Rousseff durante a campanha eleitoral.

Delfim Netto não perdoou. Começou sua arguição logo provocando: “Sua história é muito boa, Aloizio”, disse. “Mas há alguns exageros”, apontou, provocando gargalhadas da plateia, formada basicamente por alunos e professores da Unicamp.

Delfim lembrou que as premissas desta política econômica “inclusiva” do governo Lula estão dadas pela Constituição de 1988 – apenas não haviam sido colocadas em prática, disse, pelos governos Sarney, Collor, Itamar e FHC.

“Fidelidade tribal a Lula”
Conselheiro econômico do governo (“Tenho fidelidade tribal, inexplicável, ao Lula”, afirmou), Delfim questionou a avaliação de Mercadante sobre a política econômica do governo FHC. Segundo a tese, os tucanos teriam se submetido ao chamado “Consenso de Washington”, que ditou as regras de uma política econômica neoliberal.

“O governo Fernando Henrique não usou Consenso de Washington nenhum”, disse Delfim. “O governo sabia que 30% dos problemas são insolúveis e 70% o tempo resolve”, completou, arrancando mais gargalhadas.

Delfim criticou a política cambial do governo Lula e o crescimento muito modesto do volume de exportações em relação ao PIB do país no período. “Do ponto de vista externo, não fizemos nada”, observou Delfim, usando a primeira pessoa do plural. “Nossa política monetária também não foi muito melhor que a do Fernando Henrique”, criticou. “Houve conservadorismo na política monetária”, concordou Mercadante.

“Nesta história tenho lado”
Em sua réplica a Delfim, Mercadante fez menção às “ironias” do economista e rechaçou a crítica sobre os exageros de sua defesa do governo. “Nesta história tenho lado”, disse, defendendo a ideia de que não é necessário dissociar “razão de emoção” mesmo num trabalho acadêmico.

Bresser Pereira, autor do termo “neo-desenvolvimentismo”, adotado por Mercadante, elogiou a tese, mas criticou a falta de um debate teórico no trabalho. O economista criticou as falhas do governo Lula na área de gestão, um problema também apontado por Delfim. E igualmente lamentou a ausência de críticas à política cambial, “claramente um fracasso deste governo”.

A economista Maria da Conceição Tavares, que também faria parte da banca, não compareceu. Enviou um bilhete, elogiando o trabalho do “discípulo” e aprovando a tese central do trabalho: “O novo desenvolvimentismo não se parece nada com o nacional-desenvolvimentismo”, disse, em sua mensagem.

“Um trabalho de combate”
Único professor da Unicamp na banca, João Manoel Cardoso de Mello elogiou o “aluno” Mercadante e aprovou o viés político da tese. “Não vejo nenhum problema em ser um trabalho de combate”, disse, defendendo-o das ironias de Delfim Netto.“O trabalho se equilibra bem entre a apologia do governo e o diálogo imaginário dos opositores”, disse. “Fernando Henrique se achava o Juscelino (Kubitscheck), mas se revelou um (Eurico Gaspar) Dutra”, afirmou, sendo aplaudido pela plateia.

João Manoel também mencionou as “barbeiragens terríveis da política monetária” do governo Lula, não tratadas na tese. Criticou o tamanho do trabalho e lamentou que Mercadante não tenha feito uma reflexão sobre o futuro. “Acho que faltou olhar para frente”, disse.

Na plateia, muitos estudantes acompanharam o debate de pé ou sentados no chão. Convidados a assistir no espaço anexo, pelo telão, não se moveram. “É igual ver jogo da Copa. Você prefere ver ao vivo ou pela tevê?”, perguntou o estudante Diego Santiago Lopez. Diante do espanto de seus colegas, rapidamente se corrigiu: “Quer dizer, jogo de Copa é muito melhor que defesa de tese”. Verdade inquestionável.

Fonte: Uol

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Ministro veta cientista contrário aos transgênicos na CNTBio.

O ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Resende, vetou a recondução do professor Rubens Nodari, indicado pelo Ministério de Meio Ambiente para voltar a ocupar a vaga do ministério na CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), que é responsável pela análise, restrição e liberação de Organismos Geneticamente Modificados, os transgênicos.

O sistema de nomeação dos membros da CTNBio é tão estapafúrdio que permite que isso aconteça mesmo... Funciona assim: dos 27 membros, 12 são indicados diretamente pelo MCT, 10 são indicados por ministérios relevantes e ratificados pelo MCT, e 5 são indicados pela sociedade civil e ratificados pelo MCT. Ou seja, na prática, o MCT dá sempre a palavra final sobre quem vai compor a CTNBio.

No final do ano passado, o professor teve que deixar a Comissão porque o prazo de seu primeiro mandato na comissão estava expirando. Mas segundo as regras que regem a CTNBio, ele poderia ser renomeado por mais 2 anos. E foi exatamente isso que o MMA fez: indicou o prof. Nodari novamente, para representar o ministério por mais 2 anos.

Acontece que o prof. Nodari há muito tempo vem colocando o dedo na ferida daqueles que defendem os transgênicos a qualquer custo. Na verdade, ele tem pedido aquilo que qualquer um que preze pela imparcialidade e pelo rigor científico pediria: estudos de impacto ambiental, garantias científicas de que não há riscos para a saúde, informações precisas sobre as modificações genéticas, etc. Coisa que qualquer empresa que investiu milhões em uma variedade transgênica deveria ter.

Agora, a pergunta mais sem resposta no momento é por que o novo Min. do Meio Ambiente, Carlos Minc, não reclamou? Por que acatou o veto do min. Sérgio Rezende sem falar nada? A fila de transgênicos a ser liberados pode responder!

Fontes: Correios eletrônicos.