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sábado, 6 de dezembro de 2014

“Guelleria” de horrores em Itanhangá-Tapurah (MT)

Márcio Santilli*

ministro Neri Gueller | Antônio Cruz - Agência Brasil

Operação da Polícia Federal revela esquema de compra de lotes de assentamento no Mato Grosso que, segundo policiais, seria liderado por irmãos do atual ministro da Agricultura. Segundo Justiça Federal, há indícios de que o titular da pasta, também pode ter participado de organização que financiou campanhas de líderes ruralistas, como Kátia Abreu, e da própria presidente Dilma Rousseff. 

O assentamento Itanhangá-Tapurah, em Itanhangá (MT), está no epicentro da operação “Terra Prometida”, deflagrada pela Polícia Federal, com foco no Mato Grosso, na semana passada, para desarticular uma vasta quadrilha de grilagem de lotes da reforma agrária. A operação decorreu de decisão da Justiça, em Diamantino. Foram executados mais de 50 mandados de prisão, além de várias outras diligências.

A quadrilha envolve cerca de 80 fazendeiros, além de políticos, sindicalistas e funcionários do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), e teria se apossado de cerca de mil lotes do assentamento, por meio de compra, por baixo valor, dos anteriormente assentados pela reforma agrária, ou por sua expulsão por meio de violência. Estima-se que a quadrilha apropriou-se de mais de R$ 1 bilhão em terras da União, além de ter praticado vários outros crimes, inclusive de predação ambiental.

Entre os presos, estão dois irmãos do ministro da Agricultura, Neri Gueller (PMDB), e, tendo sido constatado o seu provável envolvimento pessoal, a investigação do caso foi transferida para o Supremo Tribunal Federal (STF), pois ministros de estado dispõem de foro privilegiado (veja aqui). Estima-se que sua família, que possui várias outras propriedades rurais na região, apropriou-se de pelo menos 15 lotes do assentamento, o que equivaleria a 1,5 mil hectares, por meio de parentes e laranjas.

A quadrilha financiou várias campanhas eleitorais neste ano, de conhecidos escroques locais e também a do deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT), vice-presidente da frente parlamentar da agropecuária, do governador eleito Pedro Taques (PDT), da senadora Kátia Abreu (PMBD-TO), convidada para ser a próxima ministra da agricultura, e até a da presidente reeleita Dilma Rousseff (PT). Trata-se de um esquema eclético de sustentação política.

O assentamento Itanhangá-Tapurah é um dos maiores já realizados pela reforma agrária. Foi criado em 1995, com uma extensão de 115 mil hectares e permitiu assentar 1.120 famílias em lotes com 100 hectares cada. Mais de 400 quilômetros de estradas foram abertos dentro dele e milhões de reais foram investidos na sua implantação. Estima-se que apenas 10% dos lotes permanecem na posse dos legítimos assentados.

O município de Itanhangá (significa “pedra viva”, em Guarani), constituído fundamentalmente pelo assentamento, emancipou-se recentemente do município de Tapurah (nome de tuxaua do povo Irantxe). Um dos irmãos do ministro que estão presos foi o primeiro prefeito do novo município. Estima-se que a quadrilha atue há quinze anos na reconcentração das terras anteriormente distribuídas.

O caso Itanhangá-Tapurah é emblemático. Mostra bem o porquê dos ruralistas defenderem a “emancipação” dos assentamentos e a titulação dos lotes, criando condições legais para regularizar os grilos de terra já efetivados ou ainda pretendidos em áreas destinadas à reforma agrária. Ilustra, de forma didática, o programa de trabalho que a senadora Kátia Abreu tentará executar como possível ministra e a natureza da sua afinidade com a presidente. E permite entender porque, objetivamente, inexiste reforma agrária no país.


Leia também: Juiz concede liberdade provisória para irmãos de ministro da Agricultura

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Nenhum dia mais é dia do índio

Fotografia: Ana Lucia Gonçalves-ISA
Por Marcio Santilli*

Com o fim da ditadura, o Dia do Índio foi adotado como ocasião oportuna para os governos apresentarem um balanço do que andam fazendo a respeito e, via de regra, aproveitarem a visibilidade do assunto para anunciar demarcações de terras indígenas (TIs). Cumprimento, ainda que lento, da Constituição.

Há também os que consideram a homenagem uma forma hipócrita de afagar aqueles a quem se negam direitos nos demais dias do ano: “todo dia era dia de índio”. Ou, deveria ser, pois são atores vivos do presente e do futuro, não apenas do passado. Em 2012, no entanto, a presidente Dilma preferiu nem realizar qualquer cerimônia, muito menos anunciar alguma demarcação. Pouco depois, homologou sete TIs, num total de pouco mais de 900 mil hectares. E seguiu-se um ano duro para os índios, com os processos fundiários quase paralisados, nenhum investimento sério na gestão das terras demarcadas, imposição de obras impactantes sem consulta e com condicionantes fictícios.

Nunca antes na história deste país, porém, havíamos assistido a uma semana do índio como esta, de 2013, antecedida do envio da Força Nacional para aterrorizar aldeias dos índios Munduruku, que se opõem à implatanção de mais de hidrelétricas no Rio Tapajós (PA), o que o transformará numa sequência de lagos mortos que inundariam parte das suas terras. Enquanto isso, o presidente da Câmara, Henrique Alves, anunciou a instalação de uma comissão para analisar uma proposta de emenda à Constituição visando travar, no Congresso, a demarcação de TIs. Uma emenda para descumprir o princípio constitucional. Depois da ocupação do plenário da Câmara por manifestantes revoltados com a medida, Alves suspendeu a discussão do assunto por seis meses.

Vale destacar o esforço da Fundação Nacional do Índio (Funai), neste ano, para identificar as terras dos Guarani Kaiowá, etnia mais numerosa do Brasil e que dispõe de menor extensão de áreas do que as destinadas aos assentados da reforma agrária do Mato Grosso do Sul. Já o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em vez de tomar a decisão política de oficializar essas terras, que cabe a ele e não à Funai, prefere receber ruralistas, acolher interesses contrariados e fragilizar a posição da órgão vinculado ao seu ministério. Em 28 meses de governo, ele delimitou apenas duas TIs, num total de 5 mil hectares. Até o momento, é o ministro mais omisso, desde o final da ditadura, no que se refere ao provimento de justiça.

Pior ainda foi a atuação da Advocacia Geral da União (AGU), que, na esteira de escandalosos pareceres produzidos para atender interesses escusos, também expediu uma portaria para generalizar restrições às demarcações. Em vista de intensos protestos, a AGU acabou suspendendo a norma, sem, no entanto, reconhecer e revogar o dano pretendido às TIs, que são bens da União.

Também cabe um destaque positivo para a retirada de invasores da terra Marãiwatséde, dos Xavante (MT), para a qual foi decisiva a ação articulada de vários órgãos, por meio da Secretaria Geral da Presidência. Mas não há como atender à demanda acumulada por uma secretaria sem estrutura executiva. Os pontos de apoio que restam aos índios dentro desse governo estão remando contra a corrente.

Atravessamos conjunturas diversas e adversas para os direitos indígenas no período democrático mais recente. Mas o atual governo é o primeiro a renunciar à responsabilidade histórica e à obrigação constitucional de tutelar os direitos das minorias, cujo destino foi relegado às correlações locais de força e à sanha dos seus inimigos. 
Assim, nenhum dia mais será dia de índio.

*Publicado originalmente na seção Tendências e Debates do jornal Folha de S. Paulo, de 19 de abril de 2013. Coordenador de Política e Direito Socioambiental do Instituto Socioambiental (ISA).Formado em Filosofia, foi deputado federal pelo PMDB-SP (1983-1986) e presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), entre 1995 e 1996. Texto publicado originalmente no sítio do Instituto Socioambiental

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