Por Roberto Malvezzi (Gogó)*
Quando os Mapuches conseguiram pôr as mãos em Pedro Valdívia, o levaram para uma de suas aldeias. Primeiro cortaram suas orelhas e seu nariz, para que se recordasse de todos os narizes e orelhas que cortara dos Mapuches e despachara em cestos rio abaixo para exibir sua crueldade.
Em seguida, num ritual solene, acenderam uma fogueira e o assaram brandamente, retirando e comendo pequenas lascas de carne assada do conquistador Espanhol.
Finalmente, derreteram um pote de ouro e despejaram garganta abaixo de Valdívia, para saciá-lo da sede de ouro que possuía, motivo fundamental de suas chacinas sobre os Mapuches.
Esse é, em outras palavras, o relato que nos faz a escritora chilena Isabel Allende, em seu livro “Inés de Minha Alma”, onde relata a conquista do território chileno por Pedro Valdívia. Os Mapuches mataram Valdívia, com vingança cruel e requintada, mas perderam a guerra. Hoje há um punhado de Mapuches que resiste em território chileno.
Uma Bíblia foi o pretexto para Cortés massacrar os Astecas. O ouro foi motivo para Pizarro dizimar os Incas, para Valdívia arrasar os Mapuches. Em nome das terras, da fé e do ouro os portugueses dizimaram os índios brasileiros. Sobraram alguns, poucos, como na região do Xingu.
Quando eles pensavam que iriam ter paz, uma hidroelétrica, um presidente, uma candidata a presidente, as corporações nacionais e transnacionais, em nome do progresso, do desenvolvimento, da segurança energética – mas, poderia ser da Bíblia, do ouro, ou qualquer outro pretexto – vão dizimar o que lhes restou de espaço na sua turbulenta história.
São as leis da história e do progresso, não é mesmo? Afinal, como disse um jornalista da TV, “ou se devolve o Brasil aos índios, ou se pensa nos outros 195 milhões de brasileiros”.
O capital tem seus deuses e sua voracidade. E eles pedem sacrifícios contínuos dos povos, nesse caso os indígenas, em qualquer época da história. Quando se perde o sentido do humano, sempre há um argumento para justificar a crueldade, seja contra a natureza, seja contra a pessoa humana.
*Roberto Malvezzi (Gogó), articulista do Ecodebate, é Assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT
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quinta-feira, 22 de abril de 2010
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Cutrale devolve terras griladas
Por Roberto Malvezzi, Gogó - de São Paulo*Num gesto único na história brasileira, a Cutrale vai devolver as terras públicas que grilou para plantar laranja. Segundo uma pessoa que ocupa cargo decisivo, "mais importante que 7 mil pés de laranja derrubados, são as cem mil
famílias de brasileiros que estão na beira das estradas". O único condicionante da empresa é que as terras sejam destinadas à reforma agrária, dando preferência às famílias que ocuparam o lugar dias atrás.
Para maior surpresa, admitiu que é inconcebível que, "num país de 8,5 milhões de Km2, haja tantas pessoas sem um lugar para trabalhar e até mesmo para morar".
Com esse gesto, continuou, "contribuiremos para fazer uma justiça histórica nesse país, já que desde a chegada dos portugueses, a terra tornou-se um pesadelo para nossos índios, negros e pequenos camponeses. Queremos, de uma vez por todas, superar essa injustiça histórica, criar a paz no campo e que essa paz se estenda também por nossas cidades".
Para concluir, afirmou que "espero que todas as pessoas e
empresas que grilaram terras públicas, como aquelas do Pontal do Paranapanema, ou na Amazônia, ou em qualquer outro canto do Brasil, repliquem o nosso gesto, devolvendo ao país o que é do país. Afinal, todos os brasileiros têm direito a um lugar digno para viver, sem precisar de favores governamentais. Além do mais, uma vez feita a justiça no campo, não vamos mais precisar de ocupações de terras".
O gesto da Cutrale, sem dúvida, é histórico e pegou de surpresa todos aqueles que querem criar uma CPI para investigar o MST. Afinal, ao reconhecer que o primeiro crime cometido foi a grilagem das terras, não há mais porque buscar culpados onde eles não existem.
*Roberto Malvezzi, Gogó, é agente pastoral da Comissão Pastoral da Terra. Publicado originalmente no Correio da Cidadania.
terça-feira, 28 de julho de 2009
O caráter e a política
Por Roberto Malvezzi*
De tanto ouvir políticos eleitos nos mandarem esquecer tudo que tinham dito, até tudo que tinham escrito, ficou difícil esperar por ética na política brasileira. Parece que a primeira exigência do poder aos eleitos é despir-se do caráter.
Na década de 80, pelas Comunidades Eclesiais de Base, fizemos muitos trabalhos no sentido de educar nosso povo para uma nova ética na política. Vários políticos que hoje estão no poder, até enchendo suas roupas íntimas com dinheiro, participavam dessas formações. Por um momento foi possível sonhar com uma nova classe política, com um novo comportamento perante a coisa pública. Porém, bastou a chegada ao poder.
Ninguém pode dizer que não é corruptível enquanto não tiver dinheiro e poder. Essa é a prova dos nove da qual poucos escapam, embora sempre haja honrosas exceções.
Sarney já foi cassado pelo povo do Maranhão e refugiou-se no Amapá. Sua filha perdeu a eleição de governadora no voto, mas reconquistou o poder no tapetão. Quem não sabe a trajetória política e ética de Sarney? A grande mídia, que hoje tanto o condena? O problema dele não é a "contratação do namorado da neta que quer ocupar o lugar do irmão deposto pelo não sei o que do não sei o que lá". Sarney está no lado errado.
Quer ficar com Lula. Agora é um estorvo. Logo ele, que conseguiu moldar Lula à sua imagem e semelhança.
Nesse jogo de moral farisaica que permeia o mundo da política é preciso não perder de vista o verdadeiro escândalo que assolou o país esses dias: a entrega de 67 milhões de hectares de terras públicas nas mãos de grileiros privados, além da aplicação de bilhões de reais em obras públicas do PAC que degradam o ambiente e agridem as comunidades tradicionais.
Quanto ao senado, salvo as exceções de sempre, é melhor ressuscitar Calígula e indicar Incitatus como senador. Cavalo se vende por um molho de capim, mas, ao menos, não sabe o que faz.
*Roberto Malvezzi (Gogó), ex-coordenador da CPT, é agente pastoral. Publicado originalmente no Correio da Cidadania em 27-Jul-2009.
De tanto ouvir políticos eleitos nos mandarem esquecer tudo que tinham dito, até tudo que tinham escrito, ficou difícil esperar por ética na política brasileira. Parece que a primeira exigência do poder aos eleitos é despir-se do caráter.
Na década de 80, pelas Comunidades Eclesiais de Base, fizemos muitos trabalhos no sentido de educar nosso povo para uma nova ética na política. Vários políticos que hoje estão no poder, até enchendo suas roupas íntimas com dinheiro, participavam dessas formações. Por um momento foi possível sonhar com uma nova classe política, com um novo comportamento perante a coisa pública. Porém, bastou a chegada ao poder.
Ninguém pode dizer que não é corruptível enquanto não tiver dinheiro e poder. Essa é a prova dos nove da qual poucos escapam, embora sempre haja honrosas exceções.
Sarney já foi cassado pelo povo do Maranhão e refugiou-se no Amapá. Sua filha perdeu a eleição de governadora no voto, mas reconquistou o poder no tapetão. Quem não sabe a trajetória política e ética de Sarney? A grande mídia, que hoje tanto o condena? O problema dele não é a "contratação do namorado da neta que quer ocupar o lugar do irmão deposto pelo não sei o que do não sei o que lá". Sarney está no lado errado.
Quer ficar com Lula. Agora é um estorvo. Logo ele, que conseguiu moldar Lula à sua imagem e semelhança.
Nesse jogo de moral farisaica que permeia o mundo da política é preciso não perder de vista o verdadeiro escândalo que assolou o país esses dias: a entrega de 67 milhões de hectares de terras públicas nas mãos de grileiros privados, além da aplicação de bilhões de reais em obras públicas do PAC que degradam o ambiente e agridem as comunidades tradicionais.
Quanto ao senado, salvo as exceções de sempre, é melhor ressuscitar Calígula e indicar Incitatus como senador. Cavalo se vende por um molho de capim, mas, ao menos, não sabe o que faz.
*Roberto Malvezzi (Gogó), ex-coordenador da CPT, é agente pastoral. Publicado originalmente no Correio da Cidadania em 27-Jul-2009.
terça-feira, 2 de junho de 2009
Informações sobre a Transposição
Por Roberto Malvezzi*
Muitas pessoas escrevem perguntando sobre a situação da Transposição do São Francisco. Na verdade, se hoje a obra estivesse pronta, não haveria como levar uma única gota d´água do São Francisco para os estados receptores. Todos estão se afogando em águas. Em todo caso, em vista do calendário eleitoral, as obras deram um avanço, ainda que pequeno para sua magnitude. Estive na região de Floresta (PE) esses dias e repasso as seguintes informações:
1) Segundo o bispo de Floresta, D. Adriano, as obras do eixo leste avançaram aproximadamente 20 km desde a tomada da água. É só terraplanagem, não há revestimento dos taludes.
2) A obra pára quando chega na reserva biológica de Serra Negra, território dos índios Pipipã e Kambiowá.
3) A obra é retomada depois da reserva, de Ibimirim a Sertânia. Um trecho de aproximadamente mais de 100 km. Apenas se avista o canteiro de obras. Tudo indica que é apenas terraplanagem.
4) No Eixo Norte temos menos informações. Tudo indica que a obra vai da beira do rio até a barragem do Trucutu, distante 6 quilômetros. Após a estrada, a obra já tem alguns revestimentos.
5) Vale a pena esclarecer a questão da reserva biológica de Serra Negra. Segundo o professor João Luís, da cidade de Floresta, foi a primeira criada no Brasil, em 1950, por um pioneiro da ecologia brasileira, o pernambucano Vasconcelos Sobrinho. É uma área de Mata Atlântica de 1.100 hectares incrustada na caatinga. Foi uma das bases para que Aziz Ab’ Saber criasse sua teoria dos "refúgios". Além disso, é uma área sagrada para os índios, onde moram os "encantados", há muito tempo espaço de celebrações ocultadas da civilização branca. Portanto, uma área de importância inestimável.
6) Moradores de Floresta, em um seminário promovido pela equipe da Cultura da Paz da diocese de Floresta, mostraram-se estarrecidos com o desmatamento da caatinga e o envio da madeira para carvão. Também a retirada da areia do rio Pajeú, inclusive dos barrancos, gerou inundação na cidade nas últimas chuvas, fato nunca antes acontecido.
7) O Coronel do Exército, responsável pelas obras, que não compareceu ao evento, disse ao pessoal responsável pelo evento que os canais serão rodeados por uma estrada de cada lado e, após a estrada, haverá uma cerca. Nessa estrada haverá guardas motorizados fazendo a vigilância dos canais para que ninguém se aproxime. É o mesmo esquema do "Eixão" no Ceará, que é o mesmo adotado em outros países, como a Índia, onde a água foi privatizada.
8) Quanto à revitalização, estão acontecendo obras de saneamento em quase todo o vale do São Francisco, o que é muito importante para a vida do rio e saúde do povo. Entretanto, o próprio bispo de Floresta disse que "chegaram a refazer a obra na avenida central da cidade quatro vezes". Como em outras cidades, não há nenhum controle de qualidade dessas obras, muito menos controle dos investimentos. Como tudo vai para debaixo da terra, fica difícil fazer qualquer avaliação. Em todo caso, se os canais forem concluídos, o São Francisco será novamente abandonado à sua própria sorte.
*Publicado originalmente no Correio da Cidadania em 30-Mai-2009 .
Muitas pessoas escrevem perguntando sobre a situação da Transposição do São Francisco. Na verdade, se hoje a obra estivesse pronta, não haveria como levar uma única gota d´água do São Francisco para os estados receptores. Todos estão se afogando em águas. Em todo caso, em vista do calendário eleitoral, as obras deram um avanço, ainda que pequeno para sua magnitude. Estive na região de Floresta (PE) esses dias e repasso as seguintes informações:
1) Segundo o bispo de Floresta, D. Adriano, as obras do eixo leste avançaram aproximadamente 20 km desde a tomada da água. É só terraplanagem, não há revestimento dos taludes.
2) A obra pára quando chega na reserva biológica de Serra Negra, território dos índios Pipipã e Kambiowá.
3) A obra é retomada depois da reserva, de Ibimirim a Sertânia. Um trecho de aproximadamente mais de 100 km. Apenas se avista o canteiro de obras. Tudo indica que é apenas terraplanagem.
4) No Eixo Norte temos menos informações. Tudo indica que a obra vai da beira do rio até a barragem do Trucutu, distante 6 quilômetros. Após a estrada, a obra já tem alguns revestimentos.
5) Vale a pena esclarecer a questão da reserva biológica de Serra Negra. Segundo o professor João Luís, da cidade de Floresta, foi a primeira criada no Brasil, em 1950, por um pioneiro da ecologia brasileira, o pernambucano Vasconcelos Sobrinho. É uma área de Mata Atlântica de 1.100 hectares incrustada na caatinga. Foi uma das bases para que Aziz Ab’ Saber criasse sua teoria dos "refúgios". Além disso, é uma área sagrada para os índios, onde moram os "encantados", há muito tempo espaço de celebrações ocultadas da civilização branca. Portanto, uma área de importância inestimável.
6) Moradores de Floresta, em um seminário promovido pela equipe da Cultura da Paz da diocese de Floresta, mostraram-se estarrecidos com o desmatamento da caatinga e o envio da madeira para carvão. Também a retirada da areia do rio Pajeú, inclusive dos barrancos, gerou inundação na cidade nas últimas chuvas, fato nunca antes acontecido.
7) O Coronel do Exército, responsável pelas obras, que não compareceu ao evento, disse ao pessoal responsável pelo evento que os canais serão rodeados por uma estrada de cada lado e, após a estrada, haverá uma cerca. Nessa estrada haverá guardas motorizados fazendo a vigilância dos canais para que ninguém se aproxime. É o mesmo esquema do "Eixão" no Ceará, que é o mesmo adotado em outros países, como a Índia, onde a água foi privatizada.
8) Quanto à revitalização, estão acontecendo obras de saneamento em quase todo o vale do São Francisco, o que é muito importante para a vida do rio e saúde do povo. Entretanto, o próprio bispo de Floresta disse que "chegaram a refazer a obra na avenida central da cidade quatro vezes". Como em outras cidades, não há nenhum controle de qualidade dessas obras, muito menos controle dos investimentos. Como tudo vai para debaixo da terra, fica difícil fazer qualquer avaliação. Em todo caso, se os canais forem concluídos, o São Francisco será novamente abandonado à sua própria sorte.
*Publicado originalmente no Correio da Cidadania em 30-Mai-2009 .
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Desmatamento Zero
Por Roberto Malvezzi*
Foi com relutância – até que fiquem mais claras todas as conseqüências – que a Comissão Pastoral da Terra assumiu, em sua XXI Assembléia, a bandeira do "Desmatamento Zero". O receio de que ela venha de grandes ONGs, que limite a reforma agrária, que seja uma generalização para pequenos e grandes, foi a base dos argumentos levantados.
De fato, é preciso reconhecer que o desmatamento zero trás consigo inúmeras implicações ainda não totalmente investigadas. É provável que contribua para uma reinvenção da reforma agrária, já que a posta atualmente tem mostrado muitos ângulos de inviabilidade, inclusive ambiental.
Ainda dependendo de uma investigação mais profunda, o certo é que só dão certo os assentamentos que respeitam as leis de cada bioma. Por exemplo, só dão certo no semi-árido os assentamentos que vêm na lógica da convivência com o semi-árido, captando a água de chuva para beber e produzir, garantindo áreas de pastagens coletivas, mantendo a caatinga em pé para a criação de pequenos animais e para a apicultura. Nesse bioma, os assentamentos que desmataram para plantar grãos faliram.
Por conseqüência, o povo migra. As CPTs da Amazônia, também para exemplificar, já decidiram que reforma agrária na floresta só faz sentido "para mantê-la em pé".
O "Desmatamento Zero" deveria fazer parte da agenda de todos os movimentos sociais, inclusive dos que lutam pela terra e reforma agrária. Justificar o desmatamento como necessidade da reforma agrária é contribuir com o latifúndio e o agronegócio. Esses, sim, só podem sobreviver pelo desmatamento e pelo descomunal subsídio governamental que recebem.
O Brasil já está excessivamente desmatado para comportar mais derrubadas e queimadas. A reforma agrária tem que acontecer em áreas já desmatadas, ocupadas pelo agronegócio, onde as terras ainda são férteis. Fazer a reforma em áreas degradadas só se for como apoio explícito aos pequenos agricultores para zelarem do meio ambiente, restaurando a natureza degradada, não para sobreviverem da agricultura naquele espaço.
O Ministério Público do Acre acaba de entrar com uma ação para que qualquer derrubada ou queimada de floresta seja proibida a partir de 2011. Ótima medida, mas longe demais. A bandeira do "Desmatamento Zero" tem que ser erguida já.
A razão é simples: o Brasil é o quarto maior contribuinte mundial para o aquecimento global. Não são nossos carros que poluem o mundo. Nesse item somos insignificantes.
É a queima e a derrubada de nossas florestas que nos põem nesse patamar, contribuindo com 75% de todas as nossas emissões. Portanto, além de defendermos o patrimônio natural que nos resta, rompendo com uma inércia civilizatória que vem do primeiro dia da história do Brasil, daremos uma contribuição monumental para evitar a hecatombe do aquecimento global, além de preservarmos nossa biodiversidade e clima. É preciso ainda considerar que a Terra também precisa de sua cota de vegetação para respirar e continuar viva. Do contrário, se vinga.
Todos ao desmatamento zero. Agarremos essa chance antes que cheguemos ao ponto sem volta.
*Roberto Malvezzi (Gogó), ex-coordenador da CPT, é agente pastoral. Texto publicado originalmente no Correio da Cidadania.
Foi com relutância – até que fiquem mais claras todas as conseqüências – que a Comissão Pastoral da Terra assumiu, em sua XXI Assembléia, a bandeira do "Desmatamento Zero". O receio de que ela venha de grandes ONGs, que limite a reforma agrária, que seja uma generalização para pequenos e grandes, foi a base dos argumentos levantados.
De fato, é preciso reconhecer que o desmatamento zero trás consigo inúmeras implicações ainda não totalmente investigadas. É provável que contribua para uma reinvenção da reforma agrária, já que a posta atualmente tem mostrado muitos ângulos de inviabilidade, inclusive ambiental.
Ainda dependendo de uma investigação mais profunda, o certo é que só dão certo os assentamentos que respeitam as leis de cada bioma. Por exemplo, só dão certo no semi-árido os assentamentos que vêm na lógica da convivência com o semi-árido, captando a água de chuva para beber e produzir, garantindo áreas de pastagens coletivas, mantendo a caatinga em pé para a criação de pequenos animais e para a apicultura. Nesse bioma, os assentamentos que desmataram para plantar grãos faliram.
Por conseqüência, o povo migra. As CPTs da Amazônia, também para exemplificar, já decidiram que reforma agrária na floresta só faz sentido "para mantê-la em pé".
O "Desmatamento Zero" deveria fazer parte da agenda de todos os movimentos sociais, inclusive dos que lutam pela terra e reforma agrária. Justificar o desmatamento como necessidade da reforma agrária é contribuir com o latifúndio e o agronegócio. Esses, sim, só podem sobreviver pelo desmatamento e pelo descomunal subsídio governamental que recebem.
O Brasil já está excessivamente desmatado para comportar mais derrubadas e queimadas. A reforma agrária tem que acontecer em áreas já desmatadas, ocupadas pelo agronegócio, onde as terras ainda são férteis. Fazer a reforma em áreas degradadas só se for como apoio explícito aos pequenos agricultores para zelarem do meio ambiente, restaurando a natureza degradada, não para sobreviverem da agricultura naquele espaço.
O Ministério Público do Acre acaba de entrar com uma ação para que qualquer derrubada ou queimada de floresta seja proibida a partir de 2011. Ótima medida, mas longe demais. A bandeira do "Desmatamento Zero" tem que ser erguida já.
A razão é simples: o Brasil é o quarto maior contribuinte mundial para o aquecimento global. Não são nossos carros que poluem o mundo. Nesse item somos insignificantes.
É a queima e a derrubada de nossas florestas que nos põem nesse patamar, contribuindo com 75% de todas as nossas emissões. Portanto, além de defendermos o patrimônio natural que nos resta, rompendo com uma inércia civilizatória que vem do primeiro dia da história do Brasil, daremos uma contribuição monumental para evitar a hecatombe do aquecimento global, além de preservarmos nossa biodiversidade e clima. É preciso ainda considerar que a Terra também precisa de sua cota de vegetação para respirar e continuar viva. Do contrário, se vinga.
Todos ao desmatamento zero. Agarremos essa chance antes que cheguemos ao ponto sem volta.
*Roberto Malvezzi (Gogó), ex-coordenador da CPT, é agente pastoral. Texto publicado originalmente no Correio da Cidadania.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
O Escândalo D. Luís
por Roberto Malvezzi (Gogó*)
Vivemos uma época onde o bom senso não diz mais nada. É preciso oescândalo. Assim como o escândalo do pregado na cruz. Por isso os discursos formais tornam-se insignificantes diante do gesto dele.
Frei Luís não quer chamar a atenção sobre si mesmo. Quer que olhemos para nós e para nossos filhos. Afinal, em que país nossos filhos viverão? Em que planeta? Um país de rios devastados, sem florestas, sem biodiversidade, dominado por monoculturas, apropriado por uma elite nababesca e indiferente, tecnicista e predadora. Talvez em um planeta tórrido, onde a vida humana sobreviva em um número restrito e novamente primitivo.
Não há horizonte à vista, não há luz no fim do túnel. Ele costuma dizer que "um gesto profético a gente sabe onde começa, mas nunca onde termina". Pelos sinais até o momento, na sua própria morte. Se for, será vida dada, não tirada. Ele é o responsável pelo que acontecer. Mas a tarja preta do luto irá acompanhar definitivamente as autoridades que não se abrem para entender seu gesto.
Há outras possibilidades. Os 12 milhões do governo tornam-se pouco diante da possibilidade de beneficiar 44 milhões de pessoas com as obras do Atlas do Nordeste (34 milhões beneficiados por adutoras) e da Articulação do Semi-árido (10 milhões beneficiados pela coleta de água de chuva), tudo pela metade do custo e sem impactar ainda mais o rio São Francisco.
Ele sabe o que faz, sabe o que diz. As gerações futuras, num futuro muito breve, terão como referência dessa geração apenas pessoas como Chico Mendes, Anselmo, Dorothy, Frei Luís. Os omissos, ninguém saberá sequer que existiram. Quanto aos predadores, particularmente os que ocupam o poder, serão execrados pela crueldade da história, tamanha sua pequenez.
Roberto Malvezzi (Gogó) é Assessor da Comissão Pastoral da Terra - CPT, colaborador e articulista do EcoDebate
Fonte: http://www.ecodebate.com.br/
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