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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Santarém: Assessor da Presidente do Incra assume publicamente que Superintendência Regional foi negociada em troca de votos contra o impeachment de Dilma


Vídeo: Terra de Direitos

Na maior naturalidade e sem nenhum constrangimento, o assessor Gustavo Souto Noronha da Presidente do Incra, Maria Lúcia Falcón, assumiu publicamente que a mandatária do órgão não tem qualquer gerência nas nomeações de cargos a ela subordinados e que a Superintendência Regional do Incra de Santarém foi negociada pelo Palácio do Planalto com o deputado federal Chapadinha (PTN-PA), em troca de votos contrários ao processo de  impeachment da Presidente da República, Dilma Rousseff.

Souto Noronha foi enviado no dia 05 de abril pela Presidência do Incra para supostamente dialogar com movimentos sociais que ocupavam a sede da Superintendência desde o anúncio da exoneração do ex-Superintendente Regional, Claudinei Chalito e  a nomeação de Adaías Cardoso Gonçalves, ligado ao deputado federal Chapadinha.  

Leia em Presidência do Incra envia para Santarém um representante para dialogar com movimentos sociais que ocupam sede da Superintendência

Mas, para surpresa de todos, além de dizer que não tinha autonomia para negociar nada e que estava ali apenas “como um trabalhador”, Souto Noronha espantou a todos pela sua “sinceridade”. Sem meias palavras, discursou no acampamento montado em frente à Superintendência, assumindo sem nenhum constrangimento o que só era ventilado pela imprensa: “O governo, na negociação contra a votação do impeachment, negociou com o deputado Chapadinha.”

Em outros trechos de sua fala, o assessor da presidente que não preside, diz que “a questão da exoneração do Chalito não foi uma decisão da Presidência do Incra e sequer uma decisão do MDA, essa foi uma decisão do Palácio do Planalto”. Após comentar sobre o “menor orçamento da história do Incra em 45 anos de Incra”, Souto Noronha foi indago por uma trabalhadora rural “se esse governo não era pra nós?” obtendo como resposta que o movimento fosse negociar com o Deputado Chapadinha para indicar outro nome.



Enquanto o assessor elaborava suas teses sobre a pouca efetividade daquele movimento diante da “atual conjuntura”, quase vinte agentes da Polícia Federal adentravam ao prédio do Incra. Em diligência, os agentes disseram que estavam atrás das “lideranças dos servidores do Incra” e que queriam fazer uma vistoria no local. Contudo, após entrarem no prédio do Incra, os agentes demoraram menos de um minuto e foram embora. Alguns jornais locais, chegaram a divulgar anteriormente a falsa notícia que servidores haviam promovido o trancamento de salas internas do órgão antes da ocupação do prédio pelos movimentos sociais para evitar a posse do superintedente nomeado pelo deputado.

Chegada da Polícia Federal ao Incra

Questionado se como representante da direção da presidência do Incra ele não queria conversar com os polícias sobre a situação de tranquilidade no local, Souto Noronha disse que “não precisava, pois eles [policiais] já estão conversando com outras pessoas”.

Noronha não promoveu reunião com os servidores do Incra  enquanto esteve na cidade, no que pese os servidores terem manifestado publicamente repúdio  a este processo em curso no Incra de Santarém por meio de uma carta onde exigem que a direção nacional da instituição cumpra o Decreto Presidencial n° 3.135/1999, que determina o caráter técnico para o cargo de Superintendente Regional do Incra.

Nesta quarta-feira, 06 de abril, os movimentos sociais que ocupavam a sede do Incra resolveram “dar um passo atrás” para garantirem o voto do deputado Chapadinha contra o impeachment de Dilma. 

Adaias Cardoso fala ao que sobrou do movimento, antes da reza.

O novo Superintendente Regional, Adaias Cardoso Gonçalves, compareceu ao que restava do acampamento por volta das 16 horas desta quarta-feira. Numa fala de dez minutos, disse que era “natural” que “alguém” o tivesse indicado, prometeu continuar as ações em curso e rezou um Pai Nosso com os dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém e daFederação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará.

Após a divulgação do vídeo da Terra de Direitos,  a direção nacional do Incra fez publicar no sítio da autarquia uma nota em que afirma  “(...) que a nomeação do superintendente de sua regional no Oeste do Pará tem caráter estritamente administrativo e está mantida” .

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Lorota: "Nós vamos sempre fortalecer o MDA, o Incra", afirma Dilma


"Quando perguntei àqueles que querem fechar ministérios quais queriam fechar, me deram alguns nomes. O primeiro foi o MDA. Porque eles acham que o Ministério do Desenvolvimento Agrário não tem nada diferente do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Essa é a posição deles e não a nossa. Nós sabemos que foi o crescimento, a parceria e o diálogo com os agricultores familiares e sem terra que fez evoluir a nossa política. Nós vamos sempre fortalecer o MDA, o Incra"  disse nesta quinta-feira, 28 de agosto, a presidente e candidata a reeleição, Dilma Rousseff (PT).

Dilma participou de ato de campanha na sede da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), em Brasília, onde destacou a política do PT para o campo e afirmou ainda que pretende “reformar órgãos ligados à agricultura familiar e à reforma agrária”. A candidata tenta um esforço para consolidar os laços com movimentos sociais que apoiaram os últimos três governos petistas.

Para além do discurso, no governo Dilma, o número de áreas desapropriadas para reforma agrária e de famílias assentadas foi o menor desde o início da Nova República e os servidores do Incra ganham em média 40% do que ganham os mesmos servidores no ministério de Dilma para o agronegócio.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

PCO diz que “imperialismo”, “direita” e “esquerda pequeno-burguesa” derrotaram a seleção de Futebol

Numa “análise” pequena e surpreendente, o Partido da Causa Operária (PCO) divulgou em seu sítio um “duro balanço” da derrota da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo que ocorre no Brasil. 

Para o PCO, os 7 gols aplicados pela Alemanha na semifinal ocorrida em Belo Horizonte não se deve a superioridade do time germânico, aos erros táticos dos brasileiros ou a qualquer “apagão”.

Num texto intitulado "Eles" conseguiram... e agora?”,  assinado pelo candidato à Presidência da República, Rui Costa Pimenta, uma “tese” conspiratória de dimensões surreais vem à tona.

A vexatória derrota foi explicada como algo preparado pela "direita nacional organizada pelo imperialismo, pelos monopólios capitalistas do esporte, pela imprensa “nacional” (vendida para o capital estrangeiro) e, inclusive pela esquerda pequeno-burguesa que trabalha a serviço da direita como o Psol, o PSTU e outros grupos menores do mesmo quilate."

A "conspiração" teria atingido em cheio os jogadores, que foram poupados de qualquer crítica, já que segundo o texto, representam “o retrato do povo brasileiro e da classe trabalhadora da qual vieram: são grandes jogadores, lutaram muito contra tudo e contra todos e foram esmagados e humilhados”.

Veja abaixo o texto na íntegra:

“A derrota esmagadora da seleção brasileira aconteceu muito tempo antes deste fatídico 8 de julho no Mineirão.

Foi preparada pela direita nacional organizada pelo imperialismo, pelos monopólios capitalistas do esporte, pela imprensa “nacional” (vendida para o capital estrangeiro) e, inclusive pela esquerda pequeno-burguesa que trabalha a serviço da direita como o Psol, o PSTU e outros grupos menores do mesmo quilate.

Acuaram os brasileiros para não torcer pelo Brasil, buscaram de todos os meios desestabilizar o time brasileiro.

A seleção foi derrotada pela política, mais precisamente pela pressão política.

Os jogadores brasileiros, todos muito jovens, provavelmente a seleção mais jovem que o Brasil já teve fez o que pode, não pode ser culpada de nada. Foi perseguida pela imprensa, caçada em campo, teve que lutar contra os juízes e todas as tramoias obscuras e não conseguiu. Tiraram da Copa o seu melhor jogador com o apoio cínico da imprensa. Desarticularam o time e a seleção verdeamarela lutou como pode até o gol de honra contra a Alemanha no final do jogo. São o retrato do povo brasileiro e da classe trabalhadora da qual vieram: são grandes jogadores, lutaram muito contra tudo e contra todos e foram esmagados e humilhados.

O povo brasileiro que torceu pela seleção brasileira com todo o coração está sofrendo desta mesma humilhação.

Há os chacais, como a direita, que quer agora tirar proveito desta humilhação e desmoralização. Há os pequeno-burgueses de esquerda e de direita que vão festejar a tristeza do povo e a sua humilhação. É o seu ofício, por isso, merecem o justo desprezo do povo. O ódio é reservado à burguesia.

As apostas foram feitas. O jogo bruto de sempre, dentro e fora do campo, atropelou o Brasil, seu futebol e seu povo. Os que esperam ganhar têm que aguardar a reação real do povo a toda a operação política que conduziu o Brasil e seu futebol a um desastre ainda maior do que o de 1950 no Maracanã.

Aos jogadores e ao povo, nossa saudação.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Amâncio, presente!


Faleceu de parada cardiorrespiratória nesta manhã, 18 de novembro, em Natal, o cartunista Antônio Amâncio, aos 40 anos. Ele estava internado desde o dia 14, quando sofreu um acidente de caro na BR-406, no interior do Rio Grande do Norte.

Atualmente trabalhando no jornal “O Jornal de Hoje”, periódico de Natal, Amâncio contribui para o jornal “Opinião Socialista” do PSTU e para vários sindicatos, sempre com charges ligadas à questões políticas e sociais. Devido ao conteúdo de suas charges, foi demitido do jornal “Tribuna do Norte”.

Em 2008, durante o I Congresso da então Conlutas, em Betim (MG) registrei em fotografias algumas algumas de suas charges. 


Abaixo algumas delas:




quarta-feira, 23 de outubro de 2013

No twitter...


Convidada por um personagem fictício (fake) do Incra no twitter, a senadora e presidente da Confederação Nacional da Agricultura, Kátia Abreu (PMDB-TO) aceitou que seu nome vá para um projeto de assentamento de Reforma Agrária a ser criado por um dos 100 decretos anunciados pela presidente Dilma Rousseff na semana passada. A senadora condicionou, para aceitar o convite, a inexistência de impedimentos legais.

Após a repercussão e piadas nas redes sociais, a senadora apagou a resposta de sua conta.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Frases

"Se hoje é o Dia das Crianças, ontem eu disse que criança... o dia da criança é dia da mãe, do pai e das professoras, mas também é o dia dos animais. Sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás." Trecho alusivo ao Dia da Criança em discurso da Presidenta Dilma Rousseff (PT) durante cerimônia do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Rio Grande do Sul. A íntegra do discurso encontra-se AQUI.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Exclusivo: identificados os vândalos que veem destruindo tudo

Fotos obtidas por nossas equipes de reportagem nas principais cidades do país identificam os vândalos, um pequeno grupo infiltrado, que vem promovendo atos de vandalismo e todo tipo de baderna. Eles usam máscaras na época das eleições, depois, nada escapa da sua fúria: comunidade são removidas, museus e escolas destruídas, hospitais já foram seriamente danificados, muitos deles repassados para grupos privados. Uma verdadeira depredação do patrimônio público. Cidadãos de bem repudiam esse tipo de atitude.



Se você encontrar qualquer uma dessas pessoas na rua, cuidado!

sábado, 15 de junho de 2013

Baderna: ruralistas fecham estradas em vários estados

Manifestação tinha conotação política
Uma ação orquestrada por ruralistas em vários estados provocou sérios prejuízos à população que tinha que se deslocar por importantes rodovias do país.  O protesto incluía o fechando de vias públicas, impedindo assimo direito de ir e vir de cidadãos de bem.

A manifestação foi organizada por um grupo chamado “Frente Parlamentar da Agropecuária”. Ocorreu no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso Sul, Mato Grosso e Bahia e tinha como alvo impedir que índios tenham acesso a direitos constitucionais, mas a população foi a maior prejudicada.

Uma das líderes do movimento, uma senadora chamada Kátia Abreu, não foi presa, indiciada ou recebeu balas de borracha e spray de pimenta por esse ato de baderna.      

“Se os índios foram injustiçados, hoje os injustiçados somos nós”, afirmou a senadora que não ficou no meio do sol com os demais manifestantes e sim numa tenda montada para o ato.
    
Apesar dos transtornos à população, nenhuma autoridade condenou o ato, pelo contrário. Muitas estavam lá apoiando a manifestação, mostrando que a mesma tinha conotações políticas.       

O Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, não enviou a Polícia Federal ou a Força Nacional de Segurança para pacificar os ânimos, mas anunciou para breve um pacote de auxílio aos manifestantes.                                                                                                         

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Kátia Abreu, antropóloga, criadora da abreugrafia

Por José Ribamar Bessa Freire*

Nelson Rodrigues só se deslumbrou com "a psicóloga da PUC" porque não conheceu "a antropóloga da Folha". Mas ela existe. É a Kátia Abreu. É ela quem diz aos leitores da Folha de São Paulo, com muita autoridade, quem é índio no Brasil. É ela quem religiosamente, todos os sábados, em sua coluna, nos explica como vivem os "nossos aborígenes". É ela quem nos ensina sobre a organização social, a distribuição espacial e o modo de viver deles.

Podeis obtemperar que o caderno Mercado, onde a coluna é publicada, não é lugar adequado para esse tipo de reflexão e eu vos respondo que não é pecado se aproveitar das brechas da mídia. Mesmo dentro do mercado, a autora conseguiu discorrer sobre a temática indígena, não se intimidou nem sequer diante de algo tão complexo como a estrutura de parentesco e teorizou sobre "aborigenidade", ou seja, a identidade dos "silvícolas" que constitui o foco central de sua - digamos assim - linha de pesquisa.

A maior contribuição da antropóloga da Folha talvez tenha sido justamente a recuperação que fez de categorias como "sílvicola" e "aborígene", muito usadas no período colonial, mas lamentavelmente já esquecidas por seus colegas de ofício. Desencavá-las foi um trabalho de arqueologia num sambaqui conceitual, que demonstrou, afinal, que um conceito nunca morre, permanece como a bela adormecida à espera de alguém que o desperte com um beijo. Não precisa nem reciclá-lo. Foi o que Kátia Abreu fez.

Com tal ferramenta inovadora, ela estabeleceu as linhas de uma nova política indigenista, depois de fulminar e demolir aquilo que chama de "antropologia imóvel" que seria praticada pela Funai. Sua abordagem vai além do estudo sobre a relação observador-observado na pesquisa antropológica, não se limitando a ver como índios observam antropólogos, mas como quem está de fora observa os antropólogos sendo observados pelos índios. Não sei se me faço entender. Mas em inglês seria algo assim como Observing Observers Observed.  

Os argonautas do Gurupi
Todo esse esforço de abstração desaguou na criação de um modelo teórico, a partir do qual Kátia Abreu sistematizou um ousado método etnográfico conhecido como abreugrafia que, nos anos 1940, não passava de um prosaico exame de raios X do tórax, uma técnica de tirar chapa radiográfica do pulmão para diagnosticar a tuberculose, mas que foi ressignificado. Hoje, abreugrafia é a descrição etnográfica feita com o método inventado por Kátia Abreu, no caso uma espécie de raio X das sociedades indígenas.

Esse método de coleta e registro de dados foi empregado na elaboração dos três últimos artigos assinados pela antropóloga da Folha: Uma antropologia imóvel (17/11), A Tragédia da Funai(03/11/) e Até abuso tem limite (27/10) que bem mereciam ser editados, com outros, num livro intitulado "Os argonautas do Gurupi". São textos imperdíveis, que deviam ser leitura obrigatória de todo estudante que se inicia nos mistérios da antropologia. A etnografia refinada e apurada que daí resulta quebrou paradigmas e provocou uma ruptura epistemológica ao ponto de não-retorno.

A antropóloga da Folha aplicou aqui seu método revolucionário - a abreugrafia - que substituiu o tradicional trabalho de campo, tornando caducas as contribuições de Boas e Malinowski. Até então, para estudar as microssociedades não ocidentais, o antropólogo ia conviver lá, com os nativos, tinha de "viver na lama também, comendo a mesma comida, bebendo a mesma bebida, respirando o mesmo ar" da sociedade estudada, numa convivência prolongada e profunda com ela, como em  'Lama', interpretada por Núbia Lafayette ou Maria Bethania.

A abreugrafia acabou com essas presepadas. Nada de cantoria. Nada de anthropological blues.Agora, o antropólogo já não precisa se deslocar para sítios longínquos, nem viver um ano a quatro mil metros de altura, numa pequena comunidade nos Andes, comendo carne de lhama, ou se internar nas selvas amazônicas entre os huitoto, como fez um casal de amigos meus. E tem ainda uma vantagem adicional: com a abreugrafia, os antropólogos nunca mais serão observados pelos índios.

Em que consiste, afinal, esse método que dispensa o trabalho de campo? É simples. Para conhecer os índios, basta tão somente pagar entrevistadores terceirizados. Foi o que fez a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) que, por acaso, é presidida por Kátia Abreu. A CNA encomendou pesquisa ao Datafolha que, por acaso, pertence à empresa dona do jornal onde, por acaso, escreve Kátia. Está tudo em casa. Por acaso.

Terra à vista
Os pesquisadores contratados, sempre viajando em duplas - um homem e uma mulher - realizaram 1.222 entrevistas em 32 aldeias com cem habitantes ou mais, em todas as regiões do país. Os resultados mostram que 63% dos índios têm televisão, 37% tem aparelho de DVD, 51% geladeira, 66% fogão a gás e 36% telefone celular. "A margem de erro" - rejubila-se o Datafolha - "é de três pontos percentuais para mais ou para menos".

"Eu não disse! Bem que eu dizia" - repetiu Kátia Abreu no seu último artigo, no qual gritou "terra à vista", com o tom de quem acaba de descobrir o Brasil. O acesso dos índios aos eletrodomésticos foi exibido por ela como a prova de que os "silvícolas" já estão integrados ao modo de vida urbano, ao contrário do que pretende a Funai, com sua "antropologia imóvel" que "busca eternizar os povos indígenas como primitivos e personagens simbólicos da vida simples". A antropóloga da Folha, filiada à corrente da "antropologia móvel", seja lá o que isso signifique, concluiu:

- "Nossos tupis-guaranis, por exemplo, são estudados há tanto tempo quanto os astecas e os incas, mas a ilusão de que eles, em seus sonhos e seus desejos, estão parados, não resiste a meia hora de conversa com qualquer um dos seus descendentes atuais".

Antropólogos da velha guarda que persistem em fazer trabalho de campo alegam que Kátia Abreu, além de nunca ter conversado sequer um minuto com um índio, arrombou portas que já estavam abertas. Qualquer aluno de antropologia sabe que as culturas indígenas não estão congeladas, pois vivem em diálogo com as culturas do entorno. Para a velha guarda, Kátia Abreu cometeu o erro dos geocêntricos, pensando que os outros estão imóveis e ela em movimento, quando quem está parada no tempo é ela, incapaz de perceber que não é o sol que dá voltas diárias em torno da terra.

No seu artigo, a antropóloga da Folha lamenta que os índios "continuem morrendo de diarreia". Segundo ela, isso acontece, não porque os rios estejam poluídos pelo agronegócio, mas "porque seus tutores não lhes ensinaram que a água de beber deve ser fervida". Esses tutores representados pela FUNAI - escreve ela - são responsáveis por manter os índios "numa situação de extrema pobreza, como brasileiros pobres". Numa afirmação cuja margem de erro é de 3% para mais ou para menos, ela conclui que os índios não precisam de tutela.

- Quem precisa de tutela intelectual é Kátia Abreu - retrucam os antropólogos invejosos da velha guarda, que desconhecem a abreugrafia. Eles contestam a pobreza dos índios, citando Marshall Sahlins através de postagem feita no facebook por Eduardo Viveiros de Castro:
"Os povos mais 'primitivos' do mundo tem poucas posses, mas eles não são pobres. Pobreza não é uma questão de se ter uma pequena quantidade de bens, nem é simplesmente uma relação entre meios e fins. A pobreza é, acima de tudo, uma relação entre pessoas. Ela é um estatuto social. Enquanto tal, a pobreza é uma invenção da civilização. Ela emergiu com a civilização..."

Miss Desmatamento
A conclusão mais importante que a antropóloga da Folha retira das pesquisas realizadas com a abreugrafia é de que os "aborígenes", já modernizados, não precisam de terras que, aliás, segundo a pesquisa, é uma preocupação secundária dos índios, evidentemente com uma margem de erro de três pontos para mais ou para menos.

- "Reduzir o índio à terra é o mesmo que continuar a querer e imaginá-lo nu" - escreve a antropóloga da Folha, que não quer ver o índio nu em seu território. "Falar em terra é tirar o foco da realidade e justificar a inoperância do poder público. O índio hoje reclama da falta de assistência médica, de remédio, de escola, de meios e instrumentos para tirar o sustento de suas terras. Mais chão não dá a ele a dignidade que lhe é subtraída pela falta de estrutura sanitária, de capacitação técnica e até mesmo de investimentos para o cultivo".

A autora sustenta que não é de terra, mas de fossas sépticas e de privadas que o índio precisa. Demarcar terras indígenas, para ela, significa aumentar os conflitos na área, porque "ocorre aí uma expropriação criminosa de terras produtivas, e o fazendeiro, desesperado, tem que abandonar a propriedade com uma mão na frente e outra atrás".

Ficamos, então, assim combinados: os índios não precisam de terra, quem precisa são os fazendeiros, os pecuaristas e o agronegócio. Dados apresentados pela jornalista Verenilde Pereira mostram que na área Guarani Kaiowá existem 20 milhões de cabeças de gado que dispõem de 3 a 5 hectares por cabeça, enquanto cada índio não chega a ocupar um hectare.

Um discípulo menor de Kátia Abreu, Luiz Felipe Pondé, também articulista da Folha, tem feito enorme esforço para acompanhar a produção intelectual de sua mestra, usando as técnicas da abreugrafia, sem sucesso, como mostra artigo por ele publicado com o título Guarani Kaiowá de boutique (9/11), onde tenta debochar da solidariedade recente aos Kaiowá que explodiu nas redes sociais.

Kátia Regina de Abreu, 50 anos, empresária, pecuarista e senadora pelo Tocantins (ex-DEM,atual PSD), não é apenas antropóloga da Folha. É também psicóloga formada pela PUC de Goiás, reunindo dois perfis que deslumbrariam Nelson Rodrigues.

Bartolomé De las Casas, reconhecido defensor dos índios no século XVI, contesta o discurso do cronista do rei, Gonzalo Fernandez de Oviedo, questionando sua objetividade pelo lugar que ele ocupa no sistema econômico colonial:  

- “Se na capa do livro de Oviedo estivesse escrito que seu autor era conquistador, explorador e matador de índios e ainda inimigo cruel deles, pouco crédito e autoridade sua história teria entre os cristãos inteligentes e sensíveis”.

O que é que nós podemos escrever na capa do livro "Os Argonautas do Gurupi" de Kátia Abreu, eleita pelo movimento ambientalista como Miss Desmatamento? Que crédito e autoridade tem ela para emitir juízos sobre os índios? O que diriam os cristãos inteligentes e sensíveis contemporâneos? Respostas em cartas à redação, com a margem de erro de 3% para mais ou para menos.

Fonte: Portal Pátria Latina, 25 de novembro de2012