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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Agentes da Abin estão infiltrados em movimentos contra aumento de passagens, afirma ‘O Globo’

Matéria de  “O Globo” do dia 07 de junho revela, sem nenhum constrangimento, que membros da Agência Nacional de Inteligência (Abin) monitoram e se infiltram nas manifestações contra o aumento das passagens em ônibus urbanos que ocorrem em várias partes do país.

Segundo a matéria, “os líderes do movimento, identificados nas redes sociais, passaram a ser monitorados, assim como possíveis vínculos deles com sindicatos e partidos políticos.” Haveria até a produção a diária de boletins a partir de informes de servidores da agência infiltrados em manifestações populares.

A matéria em nenhum momento se escandaliza com a notícia e adota a linha do governo de “aumento de risco para grandes eventos.”

No ano passado, matéria da Revista IstoÉ revelou que o governo Dilma infiltrou agentes em assembleias dos servidores públicos federias e monitorava a vida pessoal das principais lideranças sindicais das várias categorias.

Em fevereiro deste ano, um homem foi flagrado gravando com uma caneta espiã uma reunião do movimento Xingu Vivo, em Altamira, no Pará. O espião relatou o material gravado e informações do movimento e dos trabalhadores da hidrelétrica serian analisado pela inteligência da Consórcio Construtor de Belo Monte, e que, para isso, contaria com a participação da Abin, que negou a informação

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Indígenas ocupam canteiro de obras de Belo Monte e lançam carta contra hidrelétricas na Amazônia

Fotografia: Agência Raízes
Cerca de 200 indígenas afetados pela construção de hidrelétricas ocuparam nesta quinta-feira, 2, o principal canteiro de obras da Usina Hidrelétrica Belo Monte no município de Vitória do Xingu, Pará. Eles reivindicam a regulamentação da consulta prévia e a suspensão imediata de todas as obras e estudos relacionados às barragens nos rios Xingu, Tapajós e Teles Pires. A tropa de choque da Polícia Militar já esperava pelos indígenas, porém não conseguiu os barrar.

Os povos presentes são: Munduruku, Juruna, Kayapó, Xipaya, Kuruaya, Asurini, Parakanã, Arara, além de pescadores e ribeirinhos – leia carta do movimento abaixo. Ao menos seis mil trabalhadores, segundo estimativas do movimento, deixarão de atuar no canteiro. A ocupação, de acordo com os indígenas, se manterá por tempo indeterminado – ou até que o governo federal atenda as reivindicações apresentadas.

Ocupações contra a UHE Belo Monte e mobilizações contra empreendimentos hidrelétricos se tornaram comuns na Amazônia. No último dia 21 de março, cerca de 100 indígenas, ribeirinhos e pequenos agricultores expulsos afetados pela obra ocuparam o canteiro Pimental, um dos pontos de construção mantido pelo Consórcio Construtor de Belo Monte (CCBM).

Nos canteiros da UHE Belo Monte, greves de trabalhadores também vêm tirando o sossego da CCBM. No último dia 5 de abril, cinco mil trabalhadores do canteiro de obras Pimental paralisaram as atividades por conta das condições de trabalho e da demissão de 80 funcionários, no final do ano passado. Até um espião que levava informações para a Agência Brasileira de Informações (ABIN) foi descoberto.

Ao invés do diálogo, a saída apresentada pelo governo federal para trabalhadores, indígenas, ribeirinhos, pescadores e demais comunidades tradicionais afetadas pelos empreendimentos foi o Decreto da presidente Dilma Rousseff nº 7957/2013 (leia aqui sobre o decreto). De caráter “preventivo ou repressivo”, a medida cria a Companhia de Operações Ambientais da Força Nacional de Segurança Pública, tendo como uma de suas atribuições “prestar auxílio à realização de levantamentos e laudos técnicos sobre impactos ambientais negativos”.

Ainda no Pará, na divisa com o estado do Mato Grosso, o povo Munduruku e comunidades tradicionais estão mobilizadas contra o Complexo Hidrelétrico do Tapajós, que envolve um conjunto de usinas e barragens (leia aqui histórico). Durante o último mês de abril, cerca de 250 soldados da Força Nacional e da Marinha foram deslocados, por solicitação do Ministério de Minas e Energia, com base nos dispositivos do Decreto 7957, para municípios onde incidem áreas afetadas pelos empreendimentos, além de território de ocupação tradicional reivindicado pelo povo Munduruku.

Para outras informações e entrevistas, os telefones disponíveis são: (93) 8811-9226 ou (61) 2106-1670 ou (61) 9979-6912. Leia na íntegra a carta apresentada pelo movimento que nesta quinta-feira, 02, ocupou um dos canteiros de Belo Monte.

Carta da ocupação de Belo Monte

Nós somos a gente que vive nos rios em que vocês querem construir barragens. Nós somos Munduruku, Juruna, Kayapó, Xipaya, Kuruaya, Asurini, Parakanã, Arara, pescadores e ribeirinhos. Nós somos da Amazônia e queremos ela em pé. Nós somos brasileiros. O rio é nosso supermercado. Nossos antepassados são mais antigos que Jesus Cristo.

Vocês estão apontando armas na nossa cabeça. Vocês sitiam nossos territórios com soldados e caminhões de guerra. Vocês fazem o peixe desaparecer. Vocês roubam os ossos dos antigos que estão enterrados na nossa terra.

Vocês fazem isso porque tem medo de nos ouvir. De ouvir que não queremos barragem. De entender porque não queremos barragem.

Vocês inventam que nós somos violentos e que nós queremos guerra. Quem mata nossos parentes? Quantos brancos morreram e quantos indígenas morreram? Quem nos mata são vocês, rápido ou aos poucos. Nós estamos morrendo e cada barragem mata mais. E quando tentamos falar vocês trazem tanques, helicópteros, soldados, metralhadoras e armas de choque.

O que nós queremos é simples: vocês precisam regulamentar a lei que regula a consulta prévia aos povos indígenas. Enquanto isso vocês precisam parar todas as obras e estudos e as operações policiais nos rios Xingu, Tapajós e Teles Pires. E então vocês precisam nos consultar.

Nós queremos dialogar, mas vocês não estão deixando a gente falar. Por isso nós ocupamos o seu canteiro de obras. Vocês precisam parar tudo e simplesmente nos ouvir.

Vitória do Xingu (PA), 02 de abril de 2013

sábado, 27 de abril de 2013

MP investigará espionagem da Vale sobre movimentos sociais


Por Wilson Tosta e Mônica Giaretti*

O Ministério Público Federal (MPF) abriu procedimento sigiloso para investigar denúncia de supostas atividades de espionagem - inclusive grampos telefônicos e infiltração em movimentos sociais - feita contra a Vale por seu ex-gerente de Inteligência André Almeida. O presidente da Vale, Murilo Ferreira, confirmou ontem, a abertura de auditoria interna para apurar as acusações do ex-funcionário.

Almeida fez a denúncia - referente à gestão de Roger Agnelli na presidência da companhia -por escrito à Procuradoria da República. O procurador Carlos Aguiar informou ontem, por meio de assessores, que busca "elementos para confirmar a credibilidade das informações", que incluem a violação do sigilo telefônico de uma jornalista.

De acordo com o advogado Ricardo José Régis Ribeiro, representante e porta-voz de Almeida, os arapongas obtiveram ilegalmente um extrato telefônico de uma repórter especializada no acompanhamento da Vale para saber quem vazava informações internas para a imprensa. O ex-gerente também relatou que o então chefe da área de Comunicação da empresa teve o seu telefone grampeado, assim como "pessoas estratégicas" de fora da companhia.

O presidente da Vale revelou que a área de segurança da empresa passou por uma reestruturação logo que ele assumiu o comando da companhia, há cerca de dois anos. "Fizemos uma reavaliação completa. Inclusive a área de que fazia parte o senhor André Almeida não existe mais", disse.

E apesar de ressaltar que prefere esperar a conclusão da auditoria interna para esclarecer "a verdade dos fatos", Ferreira destacou que o ex-funcionário foi demitido por justa causa há cerca de um ano por "largo uso" do cartão corporativo para despesas pessoais.

O advogado Ricardo Ribeiro disse que o cartão foi usado por engano, por ser da mesma bandeira que o cartão pessoal de Almeida, que teria devolvido o dinheiro à companhia. O advogado lembrou que a lei proíbe a divulgação do motivo de demissão (imotivada ou por justa causa) e prometeu que o ex-gerente processará a Vale no campo trabalhista.

Ainda de acordo com Ribeiro, Almeida disse que até políticos teriam sido investigados por espiões da Vale que, segundo o ex-gerente, contratou dois agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), agência sucessora do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI), outra possível ilegalidade.

"A maioria dos integrantes deste setor de segurança é de ex-membros do CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) e NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva)", disse o advogado. Ele explicou que o ex-gerente serviu no CPOR e é oficial temporário (ou seja, por estar então em curso superior, prestou serviço militar como oficial e deu baixa nessa condição), tendo sido recrutado dessa forma para trabalhar com espionagem.

Almeida trabalhou oito anos para a empresa: dois para uma terceirizada e seis diretamente para a Vale. O ex-gerente, segundo o advogado, também apresentou ao MPF os nomes de empresas que seriam terceirizadas pela Vale para serviços ilegais de arapongagem. Uma teria infiltrado informantes no Movimento dos sem terra e na organização Justiça nos Trilhos, que afetariam interesses da mineradora.

Almeida também relatou visitas feitas à empresa pelo ex-mi-nistro-chefe da Casa Civil José Dirceu e pelo ex-tesoureiro Delúbio Soares, embora não tenha informado os motivos da presença dos visitantes, condenados ano passado no processo do mensalão.

"Temos de esperar a auditoria concluir as análises", disse ontem Murilo Ferreira, em entrevista por teleconferência; Ele esclareceu que o trabalho da auditoria responde diretamente ao presidente do conselho de administração da empresa e não à diretoria executiva. "Aguardo o resultado da auditoria para tirarmos todas as conclusões sobre o caso", disse.
*Fonte: OEstado de S. Paulo republicado no sítio do MST

domingo, 21 de abril de 2013

A espionagem contra o movimento sindical e os entulhos da ditadura


Preso com Lula por liderar greves no ABC, presidente do PSTU critica infiltração de arapongas nos movimentos sociais, cobra coerência do PT e pede a Dilma a extinção da Abin
Por Zé Maria Almeida*
Neste mês de abril, completaram-se 49 anos do golpe militar que colocou o país sob o jugo de uma ditadura por duas décadas. Foram anos de prisões arbitrárias, execuções e torturas. Não só contra aqueles que se insurgiram por meio das armas, mas também, o que nem sempre é lembrado, contra o movimento sindical e popular. Nos arquivos dos organismos de repressão, como o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), há farta documentação sobre como os movimentos sociais eram permanentemente vigiados e monitorados. A ditadura caiu, mas muitos de seus aspectos ainda não.
Uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo mostra como alguns entulhos autoritários insistem em seguir existindo. De acordo com o jornal, que teve acesso a documentos sigilosos, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) contatou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para monitorar o movimento sindical nos portos do país, com ênfase no porto de Suape, em Pernambuco. A preocupação do governo era as mobilizações contra a Medida Provisória (MP 595) que alterou o marco regulatório da exploração dos portos.
Como nos tempos da ditadura, a Abin infiltrou agentes, ou melhor, “arapongas”, para monitorarem o movimento dos trabalhadores nos portos, de acordo com a reportagem. Segundo consta, foi utilizado até mesmo tecnologia israelense de última geração para enviar imagens até uma central da inteligência em Brasília. O ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, foi tentar explicar à imprensa a situação insólita e acabou piorando o caso. Para ele, o monitoramento é algo normal e não se deu por razões políticas, mas “econômicas”.  Ele afirmou o seguinte ao Estado: “Era mais que legítimo que a Abin passasse para nós informações dos riscos: ‘Olha, pode paralisar o porto.’ E a repercussão disso na economia, qual é?’”.
Ou seja, para o ministro, a espionagem do movimento sindical é justificável, já que poderia causar algum tipo de prejuízo. Ora, qual greve não causa prejuízo? Qual mobilização de trabalhadores por direitos não causa algum impacto econômico, seja para o governo, seja para a iniciativa privada? Pela lógica de Gilberto Carvalho, qualquer monitoramento do movimento sindical ou de qualquer movimento social seria legítimo. Na verdade, parece ser exatamente esse o pensamento do governo, que determina o acompanhamento sistemático do movimento por órgãos de inteligência.
Em 2012, por exemplo, os servidores federais realizaram uma das maiores greves de sua história, enfrentando uma postura arrogante e autoritária do governo. Foram três meses de manifestações e protestos, como ocupações de prédios públicos em Brasília. Soube-se depois que a Abin, a Polícia Militar e até o Exército foram mobilizados para se infiltrarem em atividades dos servidores e monitorarem até mesmo a vida pessoal dos dirigentes sindicais. A espionagem naquela greve chegou a ser capa da revista Istoé.
Essa violência não se limita ao movimento sindical. Mais recentemente, descobriu-se um agente infiltrado nas reuniões do “Movimento Xingu Vivo”, que luta pela preservação do rio Xingu e contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte. O homem, que carregava uma “caneta espiã” capaz de gravar áudio e vídeo, confessou haver sido aliciado pelo Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM) para espionar o movimento. A ação teria o suporte técnico da própria Abin.
Essa política não é de agora. Ainda no governo Lula, determinou-se o monitoramento sistemático de movimentos como o MST e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). O “alvo” a ser protegido eram as grandes construções de infraestrutura. Há muito a espionagem dos órgãos de repressão no movimento é naturalizada pelo governo do PT.
Sob o governo do PT, nas obras de Santo Antônio e Jirau, em Rondônia, uma espécie de delegacia de polícia permanece dentro dos canteiros para vigiar e coibir os trabalhadores que, agora, trabalham como se estivessem em uma prisão.
Ao mesmo tempo, para conter as ondas de mobilizações em Belo Monte, Dilma publicou o Decreto nº 7.957/13, que legaliza a intervenção e a repressão da Força Nacional de Segurança a todo e qualquer ato de resistência dos trabalhadores em obras de infraestrutura. Na mais recente mobilização dos operários de Belo Monte, foi a FNS que diretamente reprimiu, prendeu e recolheu os crachás dos trabalhadores para demissões.
Mas a prática de infiltrar agentes da repressão em movimentos sociais não é exclusividade do governo federal. Nos estados, o monitoramento é prática recorrente por parte dos chamados “P2″, geralmente policiais militares disfarçados em atividades que vão de greve de professores a manifestações de jovens e estudantes contra o aumento da passagem de ônibus ou ocupações de reitoria.
A ditadura realmente acabou?
A Comissão Nacional da Verdade, assim como as comissões que estão se formando nos estados e até mesmo as comissões formadas nos sindicatos, estão se debruçando sobre o processo de monitoramento que os órgãos de repressão realizaram no movimento sindical da época. Quase sempre, o trabalho dos “arapongas” era feito de forma coordenada com o setor de Recursos Humanos das empresas, compartilhando informações para perseguir funcionários e elaborando “listas negras” de trabalhadores que não poderiam ser contratados.
Eu mesmo, preso três vezes pela ditadura, em 1977, 1978 e 1980, nesta última junto com Lula quando era militante do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e eleito pela categoria para o comando das greves realizadas naquele período, tive de me mudar de Santo André, na região do ABC, para Minas. Meu nome constava nas listas de funcionários proibidos de serem contratados pelas empresas da região. Como muitos companheiros na época, estava “queimado” para as fábricas.
Pois bem, mais de 30 anos depois, vemos as mesmas coisas acontecendo. O mesmo monitoramento das agências de inteligência contra os movimentos socais. As mesmas relações espúrias com o capital privado. Só mudou o nome: de SNI para Abin, mas as práticas continuam as mesmas. Sabemos que, na verdade, elas nunca cessaram. Nos anos 1980 e 1990, os agentes da repressão estiveram infiltrados nas organizações de esquerda e movimentos, como o MST. Mas não é de se espantar que governos como Sarney, Collor e FHC vejam os sindicatos, as organizações de esquerda e os movimentos sociais como um inimigo e ameaça a ser debelada. O que é de estranhar mesmo, é que o governo do PT haja da mesmíssima forma.
Lula e o PT, que sofreram o monitoramento e a repressão das greves dos metalúrgicos do ABC, não poderiam apoiar a repetição desta prática nas mobilizações dos trabalhadores durante o seu governo. Dilma, que foi perseguida politicamente e presa na ditadura militar, não poderia permitir que esse entulho autoritário que é a Abin continue existindo e espionando os movimentos sociais.
O único jeito de o governo Dilma, que sofreu na pele as agruras da ditadura, mostrar que isso não é verdade seria acabar de vez com a Abin, assim como proibir a espionagem aos movimentos, seja de qual órgão repressivo for.
Afinal, o que o governo Dilma preza mais: as liberdades democráticas de organização e manifestação ou as “questões econômicas” – das grandes empresas, é bom lembrar – que tanto preocupam Gilberto Carvalho?
*Artigo publicado originalmente no Congresso em Foco 
Leia também: Governo brasileiro espiona movimentos sociais e de trabalhadores

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Governo brasileiro espiona movimentos sociais e de trabalhadores

Por Raphael Tsavkko Garcia* 

Um escândalo de espionagem a mando do governo brasileiro estourou no meio do canteiro de obras da usina de Belo Monte. Um agente infiltrado foi flagrado colhendo informações sobre o movimento contrário à instalação da hidrelétrica. Porém, essa não é a única obra onde a oposição a projetos governamentais está sob vigilância da Agência Brasileira de Inteligência.

O alerta aconteceu a 24 fevereiro de 2013, numa reunião de planejamento anual do Movimento Xingu Vivo Para Sempre, um coletivo de organizações e movimentos sociais e ambientalistas da região de Altamira, Pará, que se opõe à instalação da terceira maior hidrelétrica do mundo no rio Xingu. Segundo o relato no website do movimento, foi detectado que “um dos participantes, Antônio, recém integrado ao movimento, estava gravando a reunião com uma caneta espiã”:

Em dezembro [de 2012], segundo o depoente, ele passou a espionar o Xingu Vivo, onde se infiltrou em função da amizade de sua família com a coordenadora do movimento, Antonia Melo. Neste período, acompanhou reuniões e monitorou participantes do movimento, enviando fotos e relatos para o funcionário do CCBM [Consórcio Construtor de Belo Monte], Peter Tavares.

Foi Tavares que, segundo Antonio, lhe deu a caneta para gravar as discussões do planejamento do movimento Xingu Vivo. O espião também relatou que este material seria analisado pela inteligência da CCBM, e que, para isso, contaria com a participação da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), que estaria mandando um agente para Altamira esta semana.

No seu depoimento, gravado pelo Xingu Vivo, o funcionário e espião do CCBM/ABIN, confessa que recebia 5 mil reais para passar informações à agência sobre atividades do movimento:

O movimento pediu ao Ministério Público Federal para garantir a segurança deste e de membros do Xingu Vivo, além de pedir a investigação das denúncias.

Já em junho de 2011, a ABIN havia divulgado um relatório sobre o Movimento Xingu Vivo Para Sempre, afirmando que a organização recebia financiamento estrangeiro. A nota de reposta do movimento foi citada pelo Instituto Humanitas Unisinos:

O relatório sigiloso da Abin é “patético” porque as verdades que ele arrola “são mais do que públicas”. Estão no sítio web do Movimento que são seus parceiros e apoiadores. “Não precisava o governo gastar dinheiro dos contribuintes com essa “investigação’”, diz nota do Xingu Vivo. “Constrangedoras, porém, são as mentiras pelas quais o contribuinte também paga”, agrega. O Movimento desafia a Abin a comprovar que recebe apoio de governos.

Diversas organizações e movimentos sociais assinaram uma nota conjunta de repúdio à espionagem da ABIN e em solidariedade ao Movimento Xingu Vivo.

A agência, criada em 1999 enquanto instrumento do Governo Federal, é apontada como sucessora do SNI (Serviço Nacional de Informações, extinto em 1990), que durante a Ditadura Militar brasileira (1964-1985) ativamente espionava organizações populares e de trabalhadores a fim de informar ao governo ditatorial seus passos, mobilizações e reivindicações e facilitar que fossem controlados e mesmo esmagados.

O Partido da Causa Operária, em nota divulgada pelo Diário Liberdade a 9 de abril, diz:

A espionagem dos movimentos populares e sindicais não é exclusividade dos regimes militares. Em realidade, nunca foi erradicada, já que a “transição democrática” de 1985 manteve a maior parte dos privilégios dos militares e políticos ligados à ditadura. De uma só vez, a serviço dos empresários e do imperialismo, o governo do PT dá espaço para a ala direita da burguesia, que sempre esteve no comando dos órgãos de repressão, fazer o que bem entende contra o povo trabalhador.

Em uma minúscula nota (.pdf), a ABIN negou envolvimento com qualquer tipo de espionagem em conjunto com o Consórcio Construtor de Belo Monte.
O blogueiro Cândido Cunha denunciou que o próprio site da ABIN informa um convênio, desde 2009, entre a agência e a Eletronorte, estatal que faz parte do CCBM:

Além do trabalho voltado a salvaguardar os conhecimentos de interesse estratégico para o Brasil, a Abin assessora a Eletronorte na elaboração do planejamento estratégico de segurança para a proteção de suas infraestruturas críticas – instalações, serviços e bens que, se forem interrompidos ou destruídos, provocarão sério impacto social, econômico e/ou político.

Estivadores sob vigilância
Porém a ABIN não se limitou a espionar o Movimento Xingu Vivo. Denúncias dão conta de que a agência também tem espionado trabalhadores no porto pernambucano de Suape, na cidade do Cabo de Santo Agostinho, próximo a Recife.

Segundo informações, a espionagem data de março de 2013 e tem por objetivo “investigar uma possível greve dos trabalhadores contra a Medida Provisória dos Portos, que retiraria o poder dos governos estaduais de licitar novos terminais de carga e reduz direitos trabalhistas”.

A Medida Provisória dos Portos, MP 595/12,prevê, segundo diversos movimentos sociais, a privatização dos portos brasileiros.

O blogueiro José Accioly reproduziu nota do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) – coordenador das investigações subordinado à Presidência da República – que repudiou as acusações de que estaria espionando o movimento sindical de Suape. Porém documentos sigilosos da própria ABIN, subordinada ao GSI, o desmentem.

O Ofício “Ordem de Missão 022/82105”, de 13 de março de 2013, também conhecida como Operação “Gerenciamento de Risco”, não apenas desmente o GSI, como informa que a espionagem se dá em todos os 15 estados litorâneos brasileiros e seus portos com o objetivo de evitar greves e reações contrárias à Medida Provisória dos Portos.
O professor aposentado e engenheiro Ossami Sakamori comparou o clima durante a Ditadura Militar e o clima hoje que vivem os opositores do governo:

O clima que os opositores ao regime vivia, era o mesmo clima que os opositores do poder da República vive hoje.  Não sabemos de onde virão as represálias, porque estamos sendo monitorados, sim. Os achincalhamentos que recebemos, via rede social é a parte visível do processo.  O que temo são as ações desenvolvidos pelos órgãos de inteligências contra os opositores do regime de hoje, pelos agentes invisíveis aos olhos do cidadão comum.

Diversos partidos, dentre eles o PDT, o PSB e o PSDB, informaram que irão “convocar o ministro do Gabinete de Segurança Institucional general José Elito Carvalho Siqueira, e o diretor-chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Wilson Roberto Trezza, para dar explicações na  Comissão de Trabalho da Câmara sobre a ação da Abin  em  monitorar e intimidar o movimento sindical.”

Mesmo funcionários da ABIN, representados pela Associação Nacional dos Oficiais de Inteligência (Aofi), informaram em nota se sentir desconfortáveis com o foco definido pelo General José Elito, do GSI, em espionar movimentos sociais. O sindicato Força Sindical emitiu nota na qual considera inadmissível que um partido com origem nos movimentos sindicais possa usar “órgãos da repressão” contra estes trabalhadores.

*Publicado originamente no Global Voices

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Abin monitora movimento sindical no Porto de Suape

De acordo com a publicação, texto sigiloso revela ‘missão’ de fiscalizar possível reação de trabalhadores contra MP dos Portos

O jornal O Estado de S. Paulo publicou, nesta segunda-feira (8), matéria sobre documento sigiloso obtido pelo veículo com a confirmação de que o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência (GSI) mobilizou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para monitorar portuários e sindicatos contrários a Medida Provisória 595, conhecida como MP dos Portos. Segundo o jornal, o ofício desmente o ministro-chefe do GSI, general José Elito, que chamou de “mentirosa” a reportagem do Estado que revelava a ação da Abin no Porto de Suape, em Pernambuco.

De acordo com O Estado de S. Paulo, o ofício encaminhado a superintendências da Abin em 15 Estados litorâneos, identificado como “Ordem de Missão 022/82105”, de 13 de março de 2013, traz em destaque o alvo dos agentes: “Mobilização de Portuários”. Segundo o jornal, o GSI confirma a autenticidade do documento.

A matéria informa ainda que a “missão” da Abin, de acordo com o documento, é identificar ações grevistas como reação à medida provisória que altera o funcionamento dos portos. O Estado de S. Paulo afirma que o alvo central são sindicalistas ligados à Força Sindical e que a central sindical se uniu às críticas feitas pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), contra a MP dos Portos. Campos é possível candidato à Presidência em 2014.

A reportagem mostrou, na última quinta-feira (4), que a Abin vigia os passos dos portuários de Suape, em Pernambuco. Segundo o jornal, na ocasião, o general Elito, após reunião com a presidente Dilma Rousseff, divulgou nota dizendo ser “mentirosa a afirmação de que o GSI/Abin tenha montado qualquer operação para monitorar o movimento sindical no Porto de Suape ou em qualquer outra instituição do País”.

A matéria afirma ainda que a ordem contida no ofício 022/82105, porém, é clara sobre o monitoramento de sindicatos que atuam em portos e reproduz trecho do documento sigiloso: “dirigentes sindicais ligados à Força Sindical pretendem promover paralisação nacional de 24 horas no dia 19 mar. 2013”. O Estado de S. Paulo divulga ainda outro trecho do documento, que cita a Federação Nacional dos Portuários e a Central Única dos Trabalhadores (CUT): “portuários filiados a essas entidades devem começar a se reunir em assembleias a partir de 15 mar. 2013 para definir os rumos da mobilização - ações paredistas não podem ser descartadas”.

Segundo a reportagem, pouco antes de deflagrada a Ordem de Missão, em 13 de março, uma equipe formada por agentes de Brasília percorreu os estados alvo para uma ação de vigilância prévia que incluiu, pela primeira vez, a utilização de um equipamento de filmagem israelense que permite a transmissão, em tempo real e em alta resolução, de imagens captadas nos portos.

“No bunker montado em Brasília para a análise da movimentação dos portuários e associações da categoria, os agentes, nos dias que antecederam à data considerada como de provável paralisação, foram colocados em plantão permanente, distribuídos em quatro turnos de seis horas (19h-1h; 1h-7h; 7h-13h e 13h-19h). A estrutura utilizada para mapear a ação dos portuários e sindicatos foi semelhante, em tamanho, utilização de recursos humanos e até mesmo na montagem de uma sala especial para os analistas envolvidos na operação, à montada para a Rio + 20. Além das equipes mobilizadas nas superintendências para a espionagem de campo, oficiais lotados em outros Estados foram deslocados para Brasília e incorporados à força-tarefa de espionagem sindical. Todos os reforços foram alojados na Escola de Inteligência (Esint), localizada dentro da própria Abin, no Setor Policial Sul, na capital”, diz a matéria.

 De acordo com a apuração do Estado de S. Paulo, nas superintendências a Ordem de Missão expedida pela direção da Abin, comandada pelo analista Wilson Trezza, foi desdobrada em novas missões, algumas mais intensas, com infiltrados, como a desencadeada em Suape. A publicação afirma que o porto pernambucano foi considerado um epicentro pela capacidade de movimentação de cargas e potencial de irradiação da greve a outros Estados.

A reportagem afirma que nove dias antes de desencadeada a operação nacional pela Abin, o presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (PDT-SP), reuniu-se com portuários e com o governador Eduardo Campos, quando a paralisação foi discutida e que antes, apesar de invasões de navios em Santos e do bloqueio, em 22 de fevereiro, de 16 navios em Paranaguá (PR), nenhuma ação, conforme revelou o Estado, fora desencadeada.

De acordo com O Estado de S. Paulo, dirigentes da Força Sindical reagiram à ação da Abin e ontem (7), em evento da central em São Paulo do qual Eduardo Campos foi convidado a comparecer, o tema Abin voltou à tona.

Segundo a reportagem, o aparato utilizado e o objetivo da missão provocou tensão dentro do próprio governo, entre os órgãos que compõem o Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin). Acionada, a Diretoria de Inteligência da Polícia Federal se recusou a participar da operação. A característica da missão e a prioridade dada à movimentação dos sindicatos e portuários é sintoma, segundo agentes ouvidos reservadamente pela reportagem, da “militarização” da Abin, sob o comando hierárquico do general Elito.

A matéria diz ainda que boa parte das superintendências é hoje chefiada por R-2, como no jargão interno os oficiais de inteligência identificam os militares com passagem pelos serviços de informação das Forças Armadas e que foram incorporados à Abin, e essa estrutura de comando dá prioridade a uma “pauta ideológica”, segundo oficias de inteligência ouvidos pelo Estado, com foco no acompanhamento de movimentos sindicais e sociais.

* Fonte: O Estado de São Paulo - Com edição do ANDES-SN

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Xingu Vivo questiona Abin sobre espionagem. Abin nega. Suposto agente confirma


Após consulta, via Lei de Acesso à Informação, sobre o monitoramento do Xingu Vivo, Abin nega participação. E-mail de suposto agente do órgão, no entanto, desmente versão do governo

Após o flagrante de espionagem do Movimento Xingu Vivo para Sempre por parte de um funcionário do Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM) no final de fevereiro, e da confissão do mesmo de que estava recolhendo material para análise da Abin, o movimento solicitou ao órgão, via Lei de Acesso à Informação, que lhe enviasse todos os documentos nos quais o Xingu Vivo ou seus membros fossem mencionados.

No prazo estipulado de 20 dias, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência enviou um comunicado no qual afirma que “ 1) Não foram encontrados nos arquivos da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), documentos relativos especificamente ao ‘Movimento XINGU Vivo para Sempre (MXPVS) e seus integrantes e parceiros’. 2) Os documentos relativos à Estrutura Estratégica UHE Belo Monte encontram-se sob restrição de acesso, por classificação em grau de sigilo, conforme a legislação vigente. A ABIN não tem envolvimento com a execução da UHE Belo Monte. 3) Não existem operações conjuntas e outras atividades afins entre ABIN e CCBM”.

Apesar de não haver surpresas quanto à resposta negativa sobre a participação da Abin no esquema de espionagem do movimento, o Xingu Vivo tem elementos para acreditar que as informações do comunicado não correspondem à verdade.

Poucos dias após a divulgação da descoberta do espião em sua reunião de planejamento, o Xingu Vivo recebeu um e-mail de uma pessoa que se identificou como oficial de inteligência da ABIN , ativo em um setor de operações desde 2010, e que confirmou a atuação do órgão em esquemas de inteligência envolvendo a construção de Belo Monte.

De acordo com o suposto agente, que utilizou o codinome Elito Trezza, “no caso da ação de Belo Monte, apesar de não ter participado diretamente dela, soube que existe uma operação em andamento por lá através de amigos que participam, ainda que contrariados, da mesma. E ainda que eu não tivesse esta confirmação testemunhal, não me resta nenhuma dúvida da participação da ABIN, após analisar o modus operandi empregado nesta operação”.

Em seguida, “Trezza” elenca alguns argumentos que sustentariam sua afirmação: “1) O recrutamento do infiltrado junto a empresa: é muito provável que a ABIN tenha bancado, total ou parcialmente, a remuneração do mesmo através de verba secreta ou outra rubrica semelhante, pois é exatamente assim que a agência age em situações semelhantes. Saliento que não existe nenhuma fiscalização rigorosa ou supervisão externa sobre a forma com que esse dinheiro é gasto, o retorno que proporciona ou mesmo se as tais fontes existem mesmo ou se são “criadas” por algum servidor interessado em majorar seus proventos;
2) A caneta espiã [utilizada pelo funcionário do CCBM para gravar a reunião do Xingu Vivo] e outras quinquilharias do gênero: causou-nos espécie quando fomos apresentados pela primeira vez às nossas ferramentas de trabalho: as canetas e relógios espiões, chaveiros-filmadoras e outros equipamentos comprados no Paraguai e na 25 de Março e totalmente ultrapassados no universo da inteligência profissional. (…) Logo, o material apreendido pelos advogados é coerente com o que a ABIN utiliza em suas ações.
3) O grande furo. Não haveria nada de errado em a ABIN monitorar a situação de Belo Monte visando assessorar a presidência com informações precisas sobre o caso. Até aí, nada demais. Agora, colocar um agente infiltrado, pago pelo Estado, para espionar e atrapalhar um movimento legalmente constituído de oposição à construção da represa é um grave atentado à democracia. Por que eu tenho certeza de que o agente foi recrutado pela ABIN através da empresa? Porque na doutrina de inteligência existem dois princípios básicos que norteiam os trabalhos em todos os escalões: o compartilhamento de informações e a necessidade de conhecer. Segundo estes dois princípios, o agente infiltrado, ainda que a cargo da ABIN, jamais deveria saber que estava trabalhando para ela. Ou seja, para todos os efeitos, a empresa deveria ser a cobertura do agente no caso de o mesmo vir a ser plotado como aconteceu. Assim, além de terem planejado uma operação inadequada sob o ponto de vista da legalidade, ainda fizeram uma tremenda trapalhada no sentido profissional, ao permitir que o recrutado soubesse que estava operando numa missão patrocinada pela ABIN”.

Diante do anonimato do suposto agente – cujo pseudônimo “Elito Trezza” provavelmente remete ao general José Elito, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, e ao diretor-geral da Abin, Wilson Trezza -, o Xingu Vivo enviou alguns questionamentos sobre o processo, ao que “Trezza” sugeriu que o Ministério Publico Federal solicite ao judiciário “que proceda a oitiva dos agentes empregados nesta missão que foi desenvolvida pela Coordenação de Operações de Inteligência do Departamento de Inteligência Estratégica, COI/DIE/ABIN, que fica em Brasília”. Também alertou que “a ABIN desenvolveu uma metodologia própria de classificação de documentos que funciona de forma paralela ao que determina a lei. Ou seja, enquanto a legislação classifica o documentos nos graus ultrassecreto (U), secreto (S) ou reservado (R), os milicos da ABIN, para burlar a lei de acesso à informação, determinaram que os documentos internos do órgão deveriam apenas conter a nomenclatura de documento interno sigiloso. Desta forma, pensaram eles, tais informações não estariam vinculadas às novas regras estabelecidas pela lei de acesso à informação. Por isso, é importante que o MP, quando oficiar a ABIN para revelar o que consta em seus registos sobre a operação de belo monte, leve em consideração este subterfúgio inventado pelo órgão para se furtar ao cumprimento da lei”.
Sabemos que não há comprovação de que o e-mail que recebemos – e que foi enviado também a vários veículos de comunicação – é de fato de um agente da Abin. Mas, após o testemunho do espião flagrado em nossa reunião, e do reforço de “Elito Trezza”, não temos muita dúvida de que as atividades do órgão de inteligência do governo, como diz “Trezza” em seu e-mail, se resumem em monitorar “movimentos sociais, greves, supostos terroristas de origem árabe e alguns oficiais de inteligência estrangeira de passagem pelo Brasil”.

Na nota enviada ao Xingu Vivo, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência nega “operações conjuntas” com o CCBM, mas não com a Norte Energia. 

Contraditoriamente, afirma que “os documentos relativos à Estrutura Estratégica UHE Belo Monte encontram-se sob restrição de acesso, por classificação em grau de sigilo, conforme a legislação vigente”. Dessa forma, fica claro que nenhum instrumento democraticamente constituído servirá para proteger ou esclarecer as atividades das quais os movimentos sociais e suas lideranças são alvos.

Veladamente vítimas de espionagem e abertamente de repressão, via Força Nacional de Segurança e interditos proibitórios da Justiça, vivemos os novos tempos da “democracia” brasileira sem ilusões do que esperar deste governo. Ele, por outro lado, não espere que deixaremos de lutar por justiça para nós, nossos povos e nosso país.


Leia aqui a informação completa sobre o flagrante de espionagem do Xingu Vivo

Fonte: Movimento Xingu Vivo para Sempre

sexta-feira, 15 de março de 2013

Xingu Vivo é alvo de novo ato de repressão em Altamira

Juiza defere mandado proibitório contra o movimento e sua coordenadora por considerar, entre outros, que militantes “amedrontaram” funcionários de Belo Monte em protesto no dia das mulheres

A coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre, Antonia Melo, foi vítima de um novo mandado proibitório expedido pela justiça estadual do Pará na manhã desta quinta, 14. O mandado atendeu a uma ação do Consórcio Norte Energia (NESA) e do Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM) contra o Xingu Vivo e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), proibindo as organizações e seus representantes de fazer qualquer ação em áreas ou imóveis das empresas, sob pena de multa de R$ 50 mil. Com este, são cinco os interditos proibitórios já expedidos pela justiça estadual contra a coordenador a do Xingu Vivo.
Antonia Melo foi abordada por um oficial de justiça quando deixava o escritório do movimento por volta das 8 h da manhã. No mandado entregue pelo oficial, a juíza substituta Caroline Slongo Assad argumenta que, como o dia 14 de março foi designado pelos movimentos sociais como Dia Internacional de Luta contra as Barragens, “o receio de que as áreas de posse da autora [NESA e CCBM] sejam invadidas é ainda mais palpável para a UHE Belo Monte, pois se trata de empreendimento de grande importância para o país e de grandes proporções, sendo por isso um dos alvos prioritários dos réus neste momento, dada a notoriedade que os manifestantes alcançam com os seus atos, inclusive por parte da mídia”.
Para justificar sua decisão, a juíza elencou ainda algumas ações do MAB em anos passados, mas destacou a manifestação do Xingu Vivo no dia 8 de março, quando um grupo de 30 mulheres protestou contra os abusos de crianças e adolescentes, casos de exploração sexual, inundação da região por traficantes e usuários de drogas, entre outros problemas, causados por Belo Monte. Como parte dos protestos ocorreu em frente à sede da Norte Energia, a juíza afirmou que “dizem que naquele dia os funcionários do escritório da autora foram impedidos de desempenhar seus trabalhos normalmente e puderam trabalhar somente no período da tarde, em função do receio de iminente invasão diante da manifestação que se desenvolvia”.
Criminalização do movimento X impunidade para empresas
A nova ameaça de criminalizar e punir com multa o Xingu Vivo e sua coordenadora ocorreu poucas semanas após a descoberta de um funcionário da CCBM pago para se infiltrar e espionar o movimento. De acordo com o próprio espião, o material recolhido seria repassado à Agencia Brasileira de Inteligência (ABIN).
Segundo o site da Abin, uma parceria entre a agencia e a Eletronorte foi firmada em 2009 “com a assinatura de um Termo de Cooperação Técnica. As ações da Abin se inserem no âmbito do Programa Nacional de Proteção do Conhecimento (PNPC), uma iniciativa que, desde 1997, auxilia instituições públicas ou privadas que possuam ou custodiem conhecimentos sensíveis de interesse para o Estado Brasileiro”. “É brutal que um movimento social seja espionado a mando de uma agência do governo por um lado, e tratado como criminoso pela Justiça, por outro”, desabafa Antonia Melo.
Ameaças não cancelaram protesto
Apesar da intimidação dos construtores de Belo Monte e da juíza substituta, cerca de 40 pessoas, entre militantes do Xingu Vivo, pescadores, indígenas e ribeirinhos foram até a barragem do canteiro de obras do Pimental e fizeram um protesto em frente ao sistema de transposição de barcos no rio Xingu.
A comitiva deixou Altamira por volta das 10 h da manhã com três barcos e, de acordo com os manifestantes, foi acompanhada de longe por homens a paisana que filmaram e fotografaram durante todo o tempo. No local da transposição, os manifestantes abriram cartazes e discursaram contra a obra de forma pacífica. Vestida de deusa das águas, a jovem Maini, cuja família foi despejada, sem indenização, de suas terras nas proximidades do Pimental, simbolizou a força da resistência dos povos do Xingu.

No ato, os manifestantes aproveitaram para denunciar a precariedade do sistema que transporta os barcos de um lado a outro da barragem, uma vez que o rio não é mais navegável. De acordo com os pescadores, embarcações de madeira, mais frágeis, não agüentam o tranco. “A gente se sente aqui em um cativeiro. Nós não temos mais a nossa liberdade. Antes a gente pescava livremente nesta área; agora esta essa situação aqui do sistema de transposição, colocando em risco a nossa vida, nosso motor, nossa mercadoria. Quem vai pagar isso pra nós se o nosso governo não quer pagar nem os nossos direitos? O prejuízo fica pra nós, então nós nos sentimos massacrados, ilhados, desrespeitados como seres humanos filhos desta terra”, denunciou o pescador juruna Leonardo Batista.
Belém
Cerca de 40 pessoas também fizeram um protesto contra Belo Monte em frente ao escritório da Norte Energia em Belém.  Os manifestantes protestaram contra o recente escândalo de trafico de pessoas e escravidão sexual ocorrido em meio às obras da usina, a espionagem do movimento Xingu Vivo patrocinada pelo governo, a precarização das condições de trabalho nas obras e a perseguição, demissão ou prisão de trabalhadores, entre outros.
 Fonte: Movimento Xingu Vivo para Sempre

No Dia Internacional de Luta contra as barragens, Movimentos e Organizações denunciam exploração sexual, criminalização e espionagem em Belo Monte


Em 1997 ocorreu no Brasil o 1º encontro internacional dos povos atingidos por barragens. A partir deste ano ficou decidido que o dia 14 de março ficaria definido como o Dia Internacional de Luta Contra as Barragens.

Em Belém o ato alusivo a esta data ocorreu em frente ao Consorcio Construtor Belo Monte (CCBM), denunciando os graves problemas que a construção da UHE Belo Monte já está causando, mesmo estando apenas no início das obras, aproximadamente 15% da parte infra-estrutural.

Diversas organizações denunciaram neste momento a expulsão de mais de 40 mil pessoas de suas casas, considerando o campo e a cidade; a destruição de milhares de hectares de floresta; a morte de um número incalculável de pequenos animais; a exaustão de mais de 100 km do rio Xingu; e a geração de energia barata apenas para indústrias de fora da região e empresas de mineração como VALE e Alcoa.

O número de homicídios em Altamira aumentou em 500%; um prato feito, o famoso PF, está custando R$17,00; o aluguel de uma casa com 02 quartos não sai por menos de R$1.500,00; e a população da cidade já aumentou em aproximadamente 60%, com isso os serviços de saúde e educação estão cada vez mais precários.

No mês passado uma jovem de 16 anos conseguiu fugir de uma boite localizada próximo aos canteiros de obras. Quando a polícia chegou ao local encontrou 14 mulheres, incluindo varias menores, que estavam sendo exploradas sexualmente, sem poder sair do lugar.

Em novembro de 2012 dezenas de trabalhadores do CCBM/Norte Energia S.A (NESA) foram demitidos, e cinco foram presos, acusados de dano ao patrimônio e formação de quadrilha. O motivo foi às reivindicações por melhores condições de trabalho.

Neste mês de março novas manifestações ocorreram, agora motivadas pelo corte nas chamadas “horas itinerantes”, levando a uma considerável redução nos salários recebidos pelos trabalhadores. Resultado: novas demissões e mais 02 trabalhadores presos.

Para o Governo e CCBM/NESA trabalhador que luta por seus direitos em Belo Monte é criminoso.

No mês de fevereiro/2013 foi descoberto um espião em uma reunião do Movimento Xingu Vivo Para Sempre. Pego em flagrante o mesmo confessou que foi contratado por 5 mil reais para espionar os trabalhadores e os movimentos sociais. O espião disse que foi responsável por mais de 80 demissões e 05 prisões.

Segundo o próprio agente, no processo de espionagem havia a participação do CCBM/NESA e do Governo Federal, através da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). Afirmando ainda o referido espião que - pasmem - até um agente vindo de Israel estava sendo esperado em Altamira para analisar os materiais coletados.

O Movimento Xingu Vivo fez uma denuncia e repassou todas as provas da espionagem ao Ministério Público Federal. Agora é só aguardar as providencias, pois não se pode aceitar que o direito constitucional que todos têm de se manifestar seja vigiado e tornado crime pelo Governo Federal e pelo Consorcio Construtor Belo Monte/Norte Energia S/A.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Abin nega envolvimento em espionagem de Movimento Xingu Vivo, mas Eletronorte possui acordo com Agência


Em uma pequena nota, a Agência Brasileira de Informação (Abin) negou envolvimento nas ações de espionagem promovida contra o Movimento Xingu Vivo. “A Agência Brasileira de Inteligência informa serem totalmente improcedentes as acusações de seu envolvimento em ações atribuídas ao Consórcio Construtor de Belo Monte”, diz o texto da nota.

No dia 24 de fevereiro, durante uma reunião, integrantes do Movimento Xingu Vivo detectaram a presença de um homem gravando a reunião com uma caneta espiã. O homem, que havia sido integrado ao movimento recentemente, confessou que sua atividade de espionagem tinha sido contratada pelo
 Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM) e que o material seria analisado pela Agência Brasileira de Inteligência.

Leia: Funcionário de Belo Monte é flagrado espionando reunião do Xingu Vivo


sítio da Abin  trás também a informação de um  “trabalho de cooperação entre a Abin e a Eletronorte”. Veja a matéria na íntegra:

Trabalho de cooperação da Abin-Eletronorte


O trabalho de cooperação entre a Abin e a Eletronorte foi destaque da edição 229 da Revista Corrente Contínua, publicação especializada da estatal de energia da Região Norte, com periodicidade bimestral. O trabalho da Abin para assessorar na proteção das instalações e conhecimentos estratégicos e críticos da empresa foi objeto de reportagem de 5 páginas. Confira.

A  parceria entre as duas instituições foi formalizada em 2009 com a assinatura de um Termo de Cooperação Técnica. As ações da Abin se inserem no âmbito do Programa Nacional de Proteção do Conhecimento (PNPC), uma iniciativa que, desde 1997, auxilia instituições públicas ou privadas que possuam ou custodiem conhecimentos sensíveis de interesse para o Estado Brasileiro. Para saber mais sobre o PNPC, clique aqui.

Além do trabalho voltado a salvaguardar os conhecimentos de interesse estratégico para o Brasil, a Abin assessora a Eletronorte na elaboraração do planejamento estratégico de segurança para a proteção de suas infraestruturas críticas - instalações, serviços e bens que, se forem interrompidos ou destruídos, provocarão sério impacto social, econômico e/ou político.

Desde de que começou a formalizar os trabalhos de cooperação com instituições de interesse, a Abin já assinou, apenas no ano de 2009, 6 termos de Cooperação Técnica com institutos de pesquisa, empresas privadas, estatais e públicas, além de várias autarquias e órgãos federais.

Caso você queira verificar a possibilidade da sua instituição trabalhar em parceria com a Abin, entre contato pelo e-mail, pnpc@abin.gov.br.

Se você é jornalista e esta pauta interessa ao seu veículo, entre em contato conosco.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

MPF recebe denúncia de espionagem contra movimentos sociais e sindicais em Belo Monte


O Ministério Público Federal recebeu denúncia de que o Consórcio Construtor de Belo Monte (CCBM) organizou esquema de espionagem contra movimentos sociais e sindicais que se opõem à construção da Hidrelétrica de Belo Monte.

A reclamação foi encaminhada pelo Movimento Xingu Vivo, que flagrou um empregado do consórcio infiltrado na reunião de planejamento realizada neste domingo, 24, gravando o encontro com uma caneta espiã. Questionado, ele se disse arrependido e concordou em gravar o depoimento em vídeo detalhando sua atuação. Além disso, apresentou crachá e carteira profissional na qual consta o registro da empresa, que foram fotografados pelos integrantes do grupo.

Leia aqui a íntegra da reclamação

A procuradora Thais Santi Cardoso da Silva, acionada pelo advogado do Xingu Vivo, Marco Apolo Santana Leão, diz que ainda não foi decidido o encaminhamento que será dado ao caso, mas manifesta preocupação sobre a gravidade do que foi relatado. “Os movimentos sociais têm todo direito de reivindicar [a interrupção da obra] e essa atitude é extremamente preocupante”, afirma a procuradora em matéria da Repórter Brasil. O empregado do CCBM se declarou arrependido e chegou a concordar na noite de domingo, 24, em prestar depoimento ao MPF.

Após gravarem o vídeo com o relato, representantes do movimento chegaram a acompanhá-lo a sua casa, onde apresentou registro profissional comprovando ser empregado do consórcio e confirmou que faria a denúncia ao MPF, voltando atrás em seguida.


Infiltração para demissão e infiltração de trabalhadores
Em sua denúncia, o empregado do consórcio diz ter começado a atuar como agente infiltrado no segundo semestre do ano passado em canteiros de obra para identificar lideranças operárias, de modo a desmobilizar novas greves.
O agente acredita que o trabalho que realizou desde então foi decisivo para a prisão dos cinco acusados de terem comandado a última revolta de trabalhadores nos canteiros de Belo Monte, ocorrida em novembro do ano passado, e na demissão de cerca de 80 trabalhadores.
Consórcio nega
A assessoria de imprensa do consórcio enviou a seguinte nota no começo da tarde desta segunda-feira, 25 de fevereiro, ao sítio da Repórter Brasil: “O Consórcio Construtor Belo Monte, que até o momento não foi informado sobre o suposto fato, não tem como prática o envio de observadores a eventos promovidos por outros órgãos ou instituições”.

Sítio do Movimento Xingu Vivo sai do ar
Logo após a denúncia de espionagem, o sítio do Movimento Xingu Vivo saiu do ar.  No início da noite desta segunda, a página do movimento na internet foi restabelecida.