sábado, 6 de setembro de 2014

Amazônia, Reforma Agrária, quilombolas, indígenas e meio ambiente no programa eleitoral de Marina Silva (PSB)


Foi verificada no documento  “Programa de Governo – Plano de Ação para Mudar o Brasil”  (241 páginas) da candidata Marina Silva (PSB) a ocorrência das seguintes temáticas:

Amazônia: as palavras Amazônia e região amazônica são citadas ao todo 27 (vinte e sete vezes) no documento, entre diagnósticos e propostas.  Algumas vezes a palavra aparece ligada a temáticas como meio ambiente, reforma agrária e indígenas, sendo aqui tratadas nestes temas.

No Plano de Marina, no Eixo 1 (“Estado e Democracia”) é criticado o fato de o Brasil ter perdido o protagonismo internacional nos debates sobre desenvolvimento sustentável. Em contrapartida, o plano defende um Pacto Amazônico entre os países da Pan-Amazônia destinado à proteção dos biomas em comum e ao desenvolvimento regional.

A Amazônia é citada no documento também no Eixo 2: “Economia para o desenvolvimento sustentável", onde se diz:

“A agropecuária brasileira teve importantes ganhos de produtividade nas últimas décadas. A produção cresce mais rápido do que a área cultivada/ pastoreada, mas há importantes desafios a enfrentar para torná-la adequada do ponto de vista socioambiental. Isso porque, apesar de o desmatamento para conversão de áreas florestais para uso agropecuário na Amazônia ter caído de forma expressiva na última década, a expansão ainda avança sobre áreas de florestas e outras formações de vegetação natural em todos os biomas brasileiros, especialmente no Cerrado.”

“(...) será garantir os aportes necessários para o atendimento dos objetivos do Plano de Agricultura de Baixo Carbono (ABC), que deverão ser financiados pelo poder público ou por meio de linhas de crédito. Os recursos serão destinados a estimular o manejo e a recuperação de pastagens, especialmente na Amazônia Legal.”

No mesmo Eixo 2, mas agora capítulo “Conservação e uso sustentável da biodiversidade” é dito:

“Apesar desse enorme potencial, que eleva o Brasil à condição de ‘potência ambiental’, os processos de degradação evoluem em ritmo extremamente acelerado no país. Segundo os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável publicados pelo IBGE em 2012, o país já eliminou 88% da Mata Atlântica, 54% da Caatinga, 49% do Cerrado, 54% do Pampa, 20% da Amazônia e 15% do Pantanal.” 

Sobre a questão do desmatamento na região amazônica, é dito também:

“Tivemos avanços nos últimos 20 anos, como a redução expressiva do desmatamento na Amazônia, historicamente nossa principal fonte de emissões de GEE; a aprovação da Política Nacional de Mudanças Climáticas, com metas de redução de emissões; a criação do Fundo Amazônia; e a implementação do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemadem). Porém, os avanços estagnaram nos últimos três anos e, de fato, já há indícios de regressão nessas conquistas.”

“Esses fatos, que por si só já justificariam uma ação enérgica do governo, são agravados pela constatação de que grande parte do desmatamento é ilegal, realizado sem autorização dos órgãos públicos ou autorizado de forma fraudulenta ou com base em informações imprecisas e insuficientemente analisadas. Para reverter essa situação, a bem-sucedida experiência do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm) – que integrou a ação de 13 ministérios e órgãos do governo federal a partir de 2004, reduzindo o desmatamento na região em mais de 80% − será estendida aos demais biomas terrestres brasileiros (Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pantanal e Pampas).”

A Amazônia é lembrada ainda em várias propostas ligadas ao Eixo de “Educação, Cultura e Ciência, Tecnologia e Inovação”.

Reforma Agrária: Aparece como um capítulo de 4 páginas dentro eixo programático “Economia para o desenvolvimento sustentável”. É citada em outros trechos do documento como nas áreas de direitos humanos, agricultura e movimentos sociais.  A expressão aparece 20 (vinte) vezes ao longo do programa.

É dito no programa que num governo Marina Silva seria adotada uma política onde a pequena propriedade seria uma atividade econômica complementar ao agronegócio de escala global. Como se daria isso? Não é especificado.

É afirmado que será adotada uma reforma agrária para além da “questão social” (resolução de conflitos, distribuição de terras e redução do êxodo rural). É criticada a queda no número de famílias assentadas, a concentração na criação de assentamentos em regiões mais isoladas, como a Amazônia, a redução no orçamento dos órgãos agrários e os baixos resultados no número de famílias assentadas durante o governo Dilma Rousseff.

Destaca a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre a malha fundiária brasileira, e defende a unificação do Cadastro Nacional de Imóveis Rurais do Incra, com o Cadastro de Imóveis Rurais (Cafir), da Receita Federal e o Cadastro Ambiental Rural (CAR), do Ministério do Meio Ambiente. A proposta de unificação dos cadastros aparece também entre as propostas ligadas a agriculta, incluindo ainda o cadastro de florestas do Serviço Florestal Brasileiro. O novo cadastro de terras seria chamado Cadastro Federal Integrado de Terras Públicas e Privadas.

Para a reforma agrária, há ainda as propostas que destaco:

Lançar uma força tarefa para solucionar os conflitos fundiários, assentando as 85 mil famílias hoje à espera de lotes, segundo estimativas dos movimentos sociais;
Incorporar à economia cerca de 1 milhão de famílias que vivem em minifúndios de agricultura de subsistência oferecendo-lhes assessoria técnica e crédito público subsidiado. A partir daí, elas poderão ter renda, gerando efeito multiplicador na comunidade local;
Priorizar, ao fazer novos assentamentos, a proximidade com as cidades médias do interior, que podem ser a base tanto para polos regionais como para oferta de serviços vinculados à atividade rural;
Atualizar os indicadores de produtividade agrícola e acelerar o diagnóstico da função social da propriedade rural nos aspectos produtivo, ambiental e trabalhista, permitindo a rápida desapropriação nos casos previstos em lei ou premiando aqueles que fazem uso correto da terra, por meio da criação de um Selo da Função Social;
Profissionalizar a gestão da política agrária, não permitindo o aparelhamento político de seus órgãos (Incra, MDA etc.).
Reorganizar o Incra e dotá-lo de recursos e competências que lhe permitam atuar no apoio aos assentamentos rurais e desenvolver programas de assistência aos assentados.

Também há um capítulo inteiro (2 páginas) dedicado à agricultura familiar em que a reforma agrária também é citada.  Para este segmento são 11 (onze) propostas, entre as quais está destinar 10% dos recursos orçamentários da Embrapa em pesquisas relacionadas à agricultura familiar, melhorar o acesso ao Programa de Aquisição de Alimentos e destinar mais recursos ao Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf).

No Eixo 6: “Cidadania e identidades”, no item  “Em defesa dos direitos humanos”, o programa da candidata propõe regulamentar uma bandeira histórica de movimentos de luta pela terra e de direitos humanos:

“Regulamentar o confisco de todo e qualquer bem de valor econômico encontrado nas propriedades que sejam flagradas utilizando trabalho escravo e verificar a possibilidade de usar imóvel na reforma agrária ou em programas sociais.”

Dos três candidatos, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra é citado apenas no programa de Marina. Isso ocorre no Eixo 6, no capítulo “A Sociedade como Protagonista”. O MST é caracterizado como um movimento legítimo, com quem o seu governo manterá interlocução:

“Dentre os movimentos populares com maior força e peso político, podemos destacar, atualmente, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). O MST lançou bases entre 20 e 22 de janeiro de 1984, no 1º Encontro Nacional dos Sem Terra, em Cascavel, no Paraná. A reunião visava a organizar as ocupações de terra que estavam ocorrendo em 12 estados. O encontro definiu que a ocupação era um dos instrumentos legítimos de trabalhadores e trabalhadoras rurais para a democratizar a terra. Embora os ruralistas tenham imposto emendas à Constituição de 1988, que significaram retrocesso em relação ao Estatuto da Terra, os movimentos sociais tiveram importantes conquistas nessa arena. Os artigos 184 e 186 fazem referência à função social da terra e determinam que, se for violada, a área seja desapropriada para fins de reforma agrária.”

O documento propõe um “diálogo permanente” com os movimentos sociais, por meio de “canais de comunicação mais ágeis e acessíveis” e “implantar efetiva Política Nacional de Participação Social”. É afirmado que um governo Marina se compromete a combater a repressão e a criminalização de movimentos sociais e populares e que seriam adotadas políticas de proteção aos direitos de manifestações pacíficas dos movimentos populares para evitar repressão e criminalização pelos órgãos do Estado.

Quilombos/ quilombolas: Os dois termos aparecem ao todo 41 (quarenta e uma) vezes ao longo do programa, também contando com um subcapítulo específico dentro do Capítulo “Povos e comunidades tradicionais”, no Eixo “Cidadania e identidades”. Neste capítulo, é destacado a importância destes povos para a riqueza humana e cultura do Brasil, suas contribuições a sociobiodiversidade e a importância na proteção dos ecossistemas.

“Povos indígenas e quilombolas deveriam ter seu território garantido, como prevê a Constituição Federal, o que ainda não acontece totalmente. Outros vivem em territórios cuja situação legal é precária, que são diretamente atingidos por uma colonização agressiva e um pseudodesenvolvimento não planejado, resultando em graves danos ambientais, culturais e sociais.”, afirma trecho deste capítulo que diz ainda:

“Índios e quilombolas são o exemplo mais visível de problemas de acesso à saúde e garantia de territórios, dos quais depende seu modo de vida.”

Há dentro deste capítulo, trechos didáticos sobre o número de comunidades quilombolas pelo país, seu processo de formação, o histórico de conquistas sociais e jurídicas e o que é o critério de autodefinição, além de trazer logo a seguir várias questões associadas a estes povos como políticas de igualdade racial, políticas de cotas, combate ao racismo, etc. Neste trecho, destaco:

“O debate sobre racismo ganhou espaço a partir do governo Lula, mas diminuiu no governo Dilma. O mesmo pode-se dizer sobre as políticas de ação afirmativa. O Estatuto da Igualdade Racial, instituído no governo Lula, foi negligenciado pela sucessora. A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) foi criada na gestão de Lula, mas o orçamento se tornou incipiente no atual governo. Houve reconhecimento e titulação de Terras Quilombolas nas gestões de Lula, mas na de Dilma, os avanços foram tímidos. Houve também, no governo Dilma, a cooptação dos líderes dos movimentos negros organizados. Realizaram-se encontros com lideranças, sem a presença de setores organizados dos movimentos. Essa postura da secretaria se deu em comum acordo com a Presidência da República e resultou no afastamento das entidades que deveriam representar o anseio da população negra menos favorecida.”

O programa afirma que vai assegurar e garantir os direitos dos povos e comunidades tradicionais. Especificamente para os quilombolas, é proposto:

“Acelerar os processos de reconhecimento e titulação de Terras Quilombolas”
“Criar programa de fomento à criação de cooperativas de artistas indígenas e quilombolas, como forma de aliar a valorização da tradição à geração de renda.”
“Oferecer mais espaço para o ensino sobre os povos indígenas, quilombolas e sobre os povos e comunidades tradicionais no sistema nacional de educação.”

Como parte do Plano de Reforma Agrária da candidata, é apontada a paralisia na regularização de território quilombolas e se propõe “qualificar” os processos de titulação destas áreas:

“Em outra frente, o governo vem perdendo as possibilidades de regularizar os territórios quilombolas. Em 2012, havia 193 comunidades quilombolas tituladas, e outras 1.167 aguardavam titulação de terras no Incra. De 2003 a 2010, expediram-se 75 títulos, em 66 territórios, para 99 comunidades. Entre 2011 e 2012, foram expedidos outros 19 títulos, em 17 territórios, para 18 comunidades quilombolas.”

E é proposto:
 “Priorizar e qualificar os processos de regularização fundiária, especialmente na Amazônia, no Nordeste, na faixa de fronteira e nos territórios quilombolas.”

No eixo de Educação, o programa ressalta as desigualdades étnicas e cita o crescimento no número de matrículas de estudantes em “aldeias e quilombos”, mas ressalta a “grande perda de alunos quando se compara o total de estudantes nos anos iniciais e finais do Ensino Fundamental”.

No Eixo 4, que trata de “Inclusão Social”, é dito:
“As comunidades quilombolas, por exemplo, cujas trajetórias são marcadas pelo racismo e pela negação da sua diferença cultural, não podem ser classificadas simplesmente como “pobres” e atendidas por meio de políticas genéricas de Estado”. A frase aparece no contexto da necessidade de políticas específicas para públicos específicos.

No Eixo 1 (“Estado e democracia”), os quilombolas são lembrados também como um setor excluído e não representado no atual sistema político, caracterizado pela candidata como em crise:

“O show eleitoral de grandes partidos é um empreendimento milionário. Isso se reflete na composição atual do Parlamento: segundo registros do Tribunal Superior Eleitoral, em 2010, das 513 campanhas mais caras, para uma vaga na Câmara dos Deputados, 390 garantiram sucesso nas eleições. Com isso, a representação não se dá de forma equilibrada, excluindo grupos inteiros de cidadãos, como indígenas, negros, quilombolas e mulheres.”


Índios/ indígenas: As duas palavras aparecem ao todo 48 (quarenta e oito vezes) ao longo do programa. Assim como no caso dos quilombolas, onde a palavra aparece associadas várias vezes, há um subcapítulo exclusivo para tratar da questão indígenas dentro do Eixo 6: “Cidadania e Identidades” e várias outras citações em outros eixos do programa.

Neste Eixo 6,  é feito uma caracterização geral dos 241 povos indígenas existentes no país, sua diversidade cultural e sua importância para o país. A atual política indigenista do governo federal é caracterizada da seguinte forma:

“No governo Lula, discutiu-se amplamente uma Política Nacional de Gestão Ambiental das Terras Indígenas (PNGATI). A presidente Dilma Rousseff, por sua vez, assinou o decreto que institui a PNGATI, mas até agora não houve investimento significativo na implementação. Há alguns planos de gestão de terras específicas ainda em elaboração, mas quase nada está efetivamente sendo executado. Na região amazônica, onde a demarcação avançou significativamente, ainda não há solução consistente para gerir os extensos territórios demarcados. Ocorrem conflitos pela posse de recursos naturais, motivados quer pela pressão de frentes garimpeiras e madeireiras, quer pela execução de obras públicas sem planejamento nem consulta aos povos afetados. Em outras regiões, como o Mato Grosso do Sul, a paralisação do processo demarcatório e a ocupação de território por não-índios fazem agravar as disputas por terra.

Os maiores conflitos envolvem terras de ocupação indígena tradicional que foram tituladas em favor de terceiros em diferentes ocasiões, seja pela União, seja pelos estados. No caso de demarcações tardias, a Constituição previa que se concluíssem até cinco anos após a promulgação; havendo incidência de títulos legítimos, os portadores deveriam ser indenizados para reconstruir nos mesmos padrões a vida em outros lugares, sobretudo quando há demanda por ampliação de terras antes demarcadas em extensão insuficiente. Os cinco anos, no entanto, não foram cumpridos pelo governo federal: a demarcação não foi feita.”

O documento critica também a gestão da saúde indígena e ausência de um sistema federal específico de educação indígena. É afirmado que a Funai “está enfraquecida e a CNPI é inconstante, convocada apenas em momentos de crise, conforme a conveniência do governo.”

No eixo “Cidadania e identidade”, é dito:
“O processo de expropriação de povos e comunidades tradicionais acabou agravado por mudanças em marcos legais, como o Código da Mineração, o Código Florestal e o Projeto de Lei Mineração em Área Indígena, entre outros. Em nome do crescimento econômico, tais modificações flexibilizaram os direitos territoriais dos povos tradicionais e a mercantilização dos recursos naturais.”

 Dentre as propostas apresentadas, destacam-se:

Estabelecer mecanismos de gestão de conflitos para finalizar a demarcação das Terras Indígenas, como previsto na Constituição Federal.
Reconhecer os povos e comunidades tradicionais do Brasil como sujeitos de direito perante a OIT, no que se refere ao direito de consulta normatizado pela Convenção 169.
Regulamentar o processo de consulta prévia e informada aos povos indígenas – prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) – sobre obras públicas e projetos de desenvolvimento regional que afetem as suas terras.
Completar a demarcação das terras indígenas, com indenização aos atuais proprietários, quando cabível, como alternativa para reduzir conflitos.
Fortalecer técnica e politicamente a Funai, a fim de que possa mediar os atuais conflitos e cumprir sua parte na gestão das terras demarcadas.
Reestruturar o Ministério da Justiça para que atue com rigor ao decidir sobre os limites das terras a demarcar, provendo justiça, tutelando os direitos coletivos dos índios e articulando os ministérios envolvidos na política indigenista.
Dar maior atenção à formação de profissionais de saúde indígena e adotar metas para melhorar os indicadores de saúde dos índios.
Transformar a Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI) em Conselho, com poderes deliberativos e força de lei, prevendo recursos para que representantes indígenas exerçam sua função.
Criar um fundo de regularização fundiária para indenizar povos que ocupam terras originalmente indígenas por erro do Estado que os assentou nessas localidades, reduzindo conflitos e reparando injustiças bem como acelerando as demais demarcações de terras”

No Eixo 3 (“Educação, Cultura e Ciência, Tecnologia e Inovação”),  é dito da necessidade de preservar conhecimentos e memórias (patrimônio imaterial), e é dado como exemplo de patrimônio salvaguardado arte kusiwa– técnica de pintura e arte gráfica dos índios wajãpi, do Amapá. Neste mesmo eixo, o documento critica a apropriação de conhecimentos de grupos tradicionais por grupos econômicos, sem qualquer benefício para as comunidades:
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Sobre isso, é proposto, entre outros pontos:
“• Propor legislação específica para o reconhecimento e proteção de conhecimentos tradicionais, tema que leis atuais de propriedade intelectual não podem abranger”.

Meio ambiente: Dos cinco temas aqui tratados, é o único que aparece em todos os eixos do programa de Marina. Também, dos cinco temas aqui escolhidos, é aquele em que a candidata Marina Silva apresenta as maiores contradições.

No Eixo 1: “Estado e democracia”, fala-se em uma gestão “socioambiental”  da administração pública e práticas sustentáveis em todos os níveis de governo, o que na prática se materializaria na adoção obrigatória da  “Agenda Ambiental na Administração Pública (A3P)”, cursos de educação ambiental para gestores,  obrigatoriedade de os órgãos públicos elaborarem inventário de emissões de gases de efeito estufa e de definirem meta para reduzi-las, mudanças legislativas  e administrativas, “compras verdes” de produtos ambientalmente corretos, entre outros.

O “meio ambiente saudável” é tratado como um dos “objetivos indissociáveis da “nova estratégia federativa”. Também é abordado com  parte de uma “agenda socioambiental e cultural” de integração econômica na América do Sul, via fortalecimento da Unasul, ao mesmo tempo em que se fala em “abrir as portas para o Pacífico” para a economia.  O documento defende  “a inclusão da questão ambiental na agenda do G-20”. Ainda em relação a política externa, é dito sobre os BRICS:

“Não podemos, todavia, desconsiderar as diferenças nas agendas econômica, política, cultural e ambiental dos Brics, assim como na pauta de direitos humanos e liberdades civis de cada um dos países do bloco. A fim de que o diálogo no grupo seja construtivo e realista, é preciso reconhecer essas diferenças.”

Ainda no Eixo 1, no capítulo sobre Forças Armadas, é afirmado:  

“Em sua missão de defender a pátria, as Forças Armadas devem incorporar a missão de proteção do meio ambiente – particularmente da biodiversidade contra a biopirataria (...).”

No Eixo 2 (“Economia para o desenvolvimento sustentável”) fala-se de uma reforma tributária “do ponto de vista socioambiental”.

A matriz energética brasileira é caracterizada como “otimizada do ponto de vista socioambiental, de forma segura, competitiva e sustentável”. É dito sobre a energia proveniente de hidrelétricas:

“A geração, contudo, se baseia em fontes hídricas, o que representa um desafio à segurança energética e impõe desafios socioambientais importantes, que precisam ser superados.”

Sobre os biocombustíveis:

“A política de apoio à revitalização dos biocombustíveis será associada ao estímulo à implementação de programas de certificação socioambiental a fim de garantir que sua produção se dê de forma social e ambientalmente sustentável, respeitando os diretos trabalhistas.”

As unidades de conservação aparecem como item do Eixo 2, ou seja, são vistas como estratégicas para a implantação de uma “Economia para o Desenvolvimento Sustentável”. Enquanto por um lado o programa de Maria fala em priorizar a criação de unidades de conservação de forma que pelos menos 10% de cada um dos biomas nacionais devam estar protegidos, por outro, propõe, por meio de parcerias públicas privadas, entregar a gestão de parques nacionais para grupos empresariais.

 “O plano deverá especificar as unidades prioritárias a partir de sua viabilidade econômica, priorizando, inicialmente, as que já atraem grande número de visitantes e considerando estratégias de atração de investimentos como o modelo de parceria público-privada (PPP). É preciso também implementar esses modelos de gestão nos parques da Amazônia, transformando o turismo sustentável em importante fonte de renda para a região.”

O item “Economia Global Florestal”, expressa novamente o viés neoliberal (capitalismo verde) de concessão de florestas públicas para exploração madeireira:

Cerca de 60% da exploração florestal na Amazônia ainda ocorre de forma ilegal e concorre de forma desleal com a produção oriunda de planos de manejo sustentável. Tal descontrole fez do setor uma fonte de degradação e um catalisador do desmatamento. Por outro lado, as concessões florestais lentamente estão se tornando a principal fonte de manejo florestal em bases sustentáveis na região e devem atingir 1 milhão de hectares em 2014. Um avanço tímido diante do potencial de 13 milhões de hectares estimado pelo Serviço Florestal Brasileiro.”

Diante deste diagnóstico é proposto:
Zerar a perda de cobertura florestal no Brasil.
Ampliar para 5% a participação do Brasil no comércio mundial de produtos florestais.
Aumentar em 40% a área de florestas plantadas.
Duplicar a área sob Manejo Florestal Sustentável (Amazônia e Caatinga).
Atingir 8 milhões de hectares de concessão florestal, incluindo as concessões para reflorestamento e recuperação florestal.
Dobrar a área de florestas públicas destinadas ao uso sustentável.
Implementar amplo programa de tecnologia de refinamento de biomassa florestal visando à produção de combustíveis, polímeros, fertilizantes, fármacos, essências e outros produtos.

As reservas extrativistas (resex), modalidade de unidade de conservação para comunidades tradicionais, recebem um correto destaque dentro do Eixo 6: “Identidade e Cidadania” e não de “Economia para o desenvolvimento sustentável”, onde outras unidades de conservação são citadas. Neste eixo 6, aparece a seguinte proposta:

“Retomar os processos de criação de Unidades de Conservação de Uso Sustentável – especialmente Reservas Extrativistas e Reservas de Desenvolvimento Sustentáveis.”

No Eixo 3: “Educação, Cultura e Ciência, Tecnologia e Inovação”  aborda-se a ideia de uma nova abordagem de educação ambiental, como tema transversal de todos os currículos.  O meio ambiente também aparece como parte integrante da política de proteção (não seria mercantilização?) do patrimônio imaterial:

“Propor lei de compensação antropológica, científica e arqueológica, similar à lei de compensação ambiental, que traga recursos para ações em comunidades tradicionais e sítios arqueológicos afetados por obras.”

No Eixo 5: “Novo urbanismo”, a questão ambiental aparece vinculada também à qualidade de vida nas cidades e ao saneamento básico.

Leia ainda as propostas para as 5 temáticas dos candidatos Dilma Rousseff  e Aécio Neves

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Governo Dilma: dois projetos de lei anti-indígenas sob regime de urgência em plena campanha eleitoral?

Por Cleber César Buzatto - Secretário Executivo do Cimi*

O governo Dilma vai mesmo aproveitar-se do período eleitoral, quando as atenções voltam-se para este tema, para tentar aprovar dois Projetos de Lei com conteúdo flagrantemente anti-indígena junto ao Congresso Nacional? Embora pareça estranha e contraditória, esta é uma questão que está posta na conjuntura político indigenista no Brasil.

Apresentado pelo Poder Executivo ao Congresso Nacional, no dia 24 de junho de 2014, para tramitação em regime de urgência, o Projeto de Lei 7735/2014 regulamenta o inciso II do § 1º e o § 4º do art. 225 da Constituição; os arts. 1, 8, “j”, 10, “c”, 15 e 16, §§ 3 e 4 da Convenção sobre Diversidade Biológica, promulgada pelo Decreto nº 2.519, de 16 de março de 1998; dispõe sobre o acesso ao patrimônio genético; sobre a proteção e o acesso ao conhecimento tradicional associado; sobre a repartição de benefícios para conservação e uso sustentável da biodiversidade; e dá outras providências.

Com tramitação acelerada, em 45 dias, o PL 7735/14 já tranca a pauta do Congresso Nacional. Os povos indígenas do Brasil desconhecem por completo o conteúdo do Projeto de Lei que foi elaborado nos gabinetes do Ministério do Meio Ambiente (MMA). No caso, tanto o Poder Executivo, quanto o Legislativo simplesmente ignoraram, até o momento, o direito dos povos à consulta prévia, livre e informada preconizado pela Convenção 169 da OIT e ratificada pelo Estado brasileiro. O abuso é tamanho que nem mesmo uma Comissão interna do MMA que trata sobre povos indígenas e comunidades tradicionais e a própria Fundação Nacional do Índio (Funai), órgãos do próprio Executivo, foram ouvidos sobre o tema. 

Feito sob medida para atender interesses econômicos, dentre outros, da indústria farmacêutica e de cosméticos, o PL 7735/14 viabiliza o acesso de forma facilitada ao patrimônio genético e aos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas. Dentre tantos outros pontos problemáticos, o referido Projeto de Lei não reconhece aos povos indígenas e comunidade tradicionais o direito de negar acesso ou tomar decisão sobre o tema, assim como, promove uma mudança de paradigma referente ao tratamento dado às atividades de acesso, não havendo mais separação entre as atividades de pesquisa científica, bioprospecção e desenvolvimento tecnológico, simplificando todos os processos. A consequência prática da potencial aprovação deste projeto é a vulnerabilização do  patrimônio genético e conhecimento dos povos.

Caso não for retirado o regime de urgência na sua tramitação, o PL 7735/14 voltará a Ordem do dia, no Plenário da Câmara dos Deputados, no início do mês de outubro próximo. Diante disso nos perguntamos: o governo Dilma manterá o pedido de tramitação em regime de urgência de matéria que diz respeito à vida e futuro dos povos indígenas sem que ao menos estes povos saibam do que está sendo tratado no respectivo Projeto de Lei?

O segundo projeto de lei anti-indígena pode ser enviado, pelo Executivo ao Congresso, também em regime de urgência, nos próximos dias. Trata-se da proposta para a criação do Instituto Nacional de Saúde Indígena (INSI), uma empresa paraestatal que assumiria a responsabilidade pela atenção à saúde dos povos indígenas em substituição à recém criada Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), esta vinculada ao ministério da Saúde.

Gestada por técnicos dos Ministérios do Planejamento e da Saúde, o INSI tem sido “apresentado” aos povos em reuniões que, segundo uma liderança indígena, parece “os tempos dos coronéis”. Na contramão do que preconiza a Convenção 169 da OIT, agentes do governo Dilma, gestores da Sesai, com apoio de diretores e funcionários de organizações terceirizadas que atuam no setor, realizam um verdadeiro arrastão país afora buscando a adesão dos Conselhos Distritais de Saúde Indígena (Condisi) ao INSI. Como denunciado pelos próprios povos, os agentes do governo estão fazendo isso de forma atropelada e usando o expediente da pressão político-econômica e psicológica desinformada e de má fé, intimidando e amedrontando os conselheiros indígenas, o que, por óbvio, retira toda e qualquer legitimidade, ainda que limitada, que porventura poderia haver nestas “consultas”.

O que poderia justificar uma atitude explicitamente antidemocrática, colonialista e desrespeitosa às lideranças, povos e organizações indígenas por parte do governo Dilma em pleno processo eleitoral? Seria a ânsia por aprovar uma forma de administrar cerca de um bilhão de reais de recurso público de forma “livre” de instrumentos de controle do Estado? Seria a ânsia por aprovar uma forma de gestão que permita o uso de recurso público para a contratação de aproximadamente doze mil pessoas sem as garantias preconizadas pelo concurso público?

Mesmo com informações públicas de que o concurso não abrangeria os Agentes Indígenas de Saúde e os Agentes Indígenas de Saneamento e que as atuais deficiências nos processos licitatórios deve-se à falta de estruturação dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas por parte do governo, agentes deste governo continuam fazendo ameaças de que se o INSI não for aceito haverá desabastecimento e demissão em massa dos servidores, inclusive indígenas.

Como sabemos os instrumentos da licitação e do concurso foram criados pelo Estado na perspectiva de evitar atos de corrupção e o clientelismo com uso do recurso público. Diante disso nos perguntamos: porque tantas mentiras sendo usadas recorrentemente no duro ataque a estes dois instrumentos na tentativa de convencer os conselheiros distritais indígenas a aderir ao INSI? Porque tanta insistência do governo nesse processo conturbado que tem alto potencial para gerar divergências e divisões entre povos e lideranças indígenas e organizações aliadas exatamente numa conjuntura de ataque aos direitos destes povos por parte de setores econômicos anti-indígenas no país,dentre as quais, os ruralistas?

Por fim, devemos ficar atentos à resposta que será dada pelo Palácio do Planalto à questão que se impõe no momento, a saber: o governo Dilma vai mesmo enviar ao Congresso Nacional o Projeto de Lei para a criação da paraestatal enfrentando, desrespeitando e tentando humilhar as diversas lideranças e organizações indígenas, de âmbitos nacional, regional e local que vem se posicionando contra o INSI?

Certamente, os desdobramentos da conjuntura político indigenista no Brasil dependerá sobremaneira das respostas do governo Dilma a estas questões. 

Fonte: Cimi

Índios realizam operação para conter desmatamento em área do Maranhão

Guerreiros Ka’apor atuaram no interior da Terra Indígena Alto Turiaçu. Madeireiros ilegais foram ‘detidos’; acampamentos foram desmontados.


Imagens divulgadas nesta quinta-feira (4) pela agência Reuters mostram índios da etnia Ka’apor em operação realizada por eles contra madeireiros que agiam no interior da Terra Indígena Alto Turiaçu, nas proximidades de Centro do Guilherme, cidade com pouco mais de 12 mil habitantes localizada no Maranhão.
O fotógrafo Lunaé Parracho acompanhou um grupo de indígenas na operação, realizada em 7 de agosto. Segundo a Reuters, os índios agiram de maneira independente como forma de protesto à falta de assistência do governo para expulsar os madeireiros ilegais de suas terras.
As imagens mostram os indígenas correndo atrás dos madeireiros, que foram rendidos e tiveram as mãos amarradas. Alguns tiveram parte das roupas retiradas.
A TI Alto Turiaçu tem 5.305 km² de área e compreende seis cidades do Maranhão. A ação acabou com um caminhão queimado e a abordagem de não indígenas envolvidos no desflorestamento. Os guerreiros Ka’apor contaram com a ajuda de outras quatro tribos da região. Os acampamentos encontrados foram destruídos.


A Fundação Nacional do Índio (Funai) informou ao G1 que os indígenas, chamados de “guardiões da floresta”, tem realizado naquela região ações de apreensão de madeireiros ilegais. Em nota, a Funai disse ainda que “tem conhecimento destas ações e já solicitou apoio policial para evitar que ocorram excessos ou conflitos”.
Fonte: G1 – Fotos: Reuters

Análise espacial mostra degradação ambiental em Altamira, recordista de desmatamento na Amazônia

O maior município do Brasil é também o que mais desmata na Amazônia. Entenda quem está condenando Altamira a liderar o ranking dos que mais desmatam em toda a história da Amazônia

Por Instituto Socioambiental*

Em novembro de 2013, informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) colocaram Altamira (PA) na cabeça da lista dos maiores desmatadores do país: quase 300 km² de floresta desmatados no ano. A esperança de melhoria em 2014 acabou de virar fumaça com os dados publicados recentemente dos sistemas de alerta do Imazon (SAD) e do Inpe (Deter). Para desespero dos gestores locais, o cenário é de aumento da devastação no município este ano.

O corajoso viajante que decida ir da cidade de Altamira até a sede do distrito de Castelo dos Sonhos, no mesmo município, terá que enfrentar quase 1000 quilómetros de estradas em péssimo estado, atravessando boa parte do Pará pela Transamazônica e pela Cuiabá-Santarém (BR-163). Depois de dois dias de viagem e muita poeira (ou lama, dependendo da época), o nosso viajante terá avistado centenas de caminhões carregados de madeira, gado e soja e chegará ao seu destino final, uma pequena cidade fundada por imigrantes do sul há mais de 30 anos e atualmente sob a esfera econômica de sua poderosa vizinha, Novo Progresso, mas ligada administrativamente a Altamira. A ocupação intensiva, de fato, se deu, nos últimos dez anos.

A história da região de Novo Progresso e Castelo dos Sonhos é uma soma de histórias individuais de ocupação e avanço sobre as florestas, diante da total ausência do Estado. Castelo dos Sonhos mais especialmente teve como origem um garimpo de mesmo nome, que ficou célebre por conta de seu dono. Reza a lenda que Rambo, como era chamado, teria desafiado as forças policiais durante anos e teria sido morto em embate com a Polícia Militar do Pará.

O asfaltamento anunciado
O anúncio do asfaltamento da BR-163 (que liga Cuiabá no Mato Grosso a Santarém no Pará), em 2002, entusiasmou os moradores locais, pois tiraria a região do atraso e do isolamento, mesmo que a motivação principal da obra fosse a viabilização do corredor logístico Mato Grosso-Pará e a consequente redução dos custos na exportação de commodities agrícolas (basicamente soja). Frente às vozes que alertaram sobre o risco de aumento do desmatamento nas florestas da região, ainda bem preservada, o governo idealizou, em 2006, o plano BR-163 Sustentável, que continha uma série de medidas para possibilitar que ‘o império da lei chegasse ao coração do Pará’.

Pois bem, o asfaltamento só decolou no ano passado e o plano BR-163 Sustentável não teve avanços significativos especialmente no que se refere à regularização fundiária. Mesmo assim vale ressaltar que durante a gestão de Marina Silva à frente do Ministério do Meio Ambiente (2002-2009) várias Unidades de Conservação (UCs) foram criadas. Parte das UCs da Terra do Meio entraram nessa conta. Apesar disso, a ausência do Estado continuou e favoreceu assim a grilagem e as ocupações ilegais.

Hoje, com o asfaltamento em fase de conclusão, milhares de caminhões carregados com soja transitam diariamente pela parte paraense da BR-163, atravessando territórios sem ordenamento fundiário, glebas federais sem destinação nem gerenciamento e assentamentos da reforma agrária deixados ao abandono.

Piora começou em 2011
O caos fundiário e o súbito enriquecimento de grupos locais devido à chegada do asfalto foram os ingredientes principais desse quadro desolador que será analisado a seguir e cujos efeitos se traduzem no maior surto de desmatamento da história da Amazônia.

No gráfico a seguir é possível constatar o momento em que o desmatamento no entorno da BR-163 dispara: é a partir de 2011 que a quantidade de floresta removida no distrito de Castelo dos Sonhos, de tamanho comparativamente pequeno, aumenta, para em 2012 superar a área desmatada no resto do município.


Para estudar o que aconteceu do ano passado para cá, é preciso analisar os focos de calor e os alertas de desmatamento naquela área. No gráfico abaixo pode-se observar a progressão de focos de incêndio, indicativos das atividades de desmatamento, de 2013 a 2014, na região estudada. Fica evidente a explosão em 2014, de focos de calor na região da BR-163 (Novo Progresso e distritos de Altamira).


Os mapas a seguir mostram a localização dos focos de calor no mês de agosto que registra maior incidência de queimadas em 2013 e em 2014.


Além dos focos de calor, o ISA analisou a incidência de alertas de desmatamento na região e inferiu o total de desmatamento previsto para 2014.



Os mapas e gráficos mostram a destruição provocada pelo desmatamento sistemático e ano a ano de regiões inteiras de florestas, em um processo de varredura aparentemente irrefreável.

A partir desta análise, fica evidente que é da região da BR-163 que partem as maiores ameaças ao território altamirense, e, por extensão, às florestas preservadas do oeste do Pará. A abundância de terras não destinadas e não ocupadas em territórios afastados dos eixos principais de transporte atua como um ímã para as máfias do desmatamento.

A operação Castanheira
Depois de meses de trabalho de inteligência a Polícia Federal, a mando do MPF e junto com o Ibama e a Receita Federal, deflagrou em 27 de agosto, a chamada ‘Operação Castanheira’, para desarticular os grupos que têm promovido grande parte do desmatamento na região por meio de um esquema de grilagem e venda de terras. O surto de desmatamento na região de Castelo dos Sonhos teria sido consequência direta da atuação desses grupos, que grilavam, desmatavam e vendiam grandes fragmentos de floresta, auferindo enormes lucros nesse esquema criminoso. As ações de fiscalização ordinárias (multa e embargo) não teriam sido efetivas, conforme revelado pelos próprios infratores, que declaram que as multas ou embargos não afetam o preço da terra desmatada.

Diante desse quadro desolador, a sociedade brasileira deve cobrar a efetividade das medidas a serem tomadas, daqui em diante para evitar que as terras assim devastadas possam de alguma maneira beneficiar os autores da destruição. Um sistema de embargo, por exemplo, poderia ser atrelado à localização espacial da destruição e não ao CPF do ocupante da terra, normalmente um ”laranja” ou vítima de engano. Se medidas como essas forem tomadas é possível que em 2015 haja uma diminuição significativa do desmatamento na região da BR-163, e, por extensão, no município de Altamira.

*Leia na íntegra no sítio do ISA.

Desmate na Amazônia Legal tem alta de 9,8% ao longo de um ano, diz Inpe

Dados divulgados esta semana pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontaram que a Amazônia Legal perdeu 3.036 km² de floresta entre agosto de 2013 e julho de 2014, 9,8% a mais em relação ao período anterior. Os meses integram o chamado “calendário do desmatamento”, relacionado com as chuvas e atividades agrícolas.
Segundo informações do sistema de detecção em tempo real, o Deter, o montante desmatado é equivalente a duas vezes o tamanho da cidade de São Paulo.
O mecanismo do Inpe analisa a degradação (desmatamento parcial) e o corte raso (desmatamento total) da floresta nos estados que possuem vegetação amazônica (todos os da Região Norte, além de Mato Grosso e parte do Maranhão).
Os números apontados ajudam órgãos de controle e fiscalização. No entanto, para calcular a taxa anual do desmatamento por corte raso na Amazônia, o Inpe utiliza o Prodes que trabalha com imagens de melhor resolução espacial e mostram ainda pequenos desmatamentos. Sua divulgação deve ocorrer até o fim deste ano.
Em novembro passado, esse sistema apontou perda de 5.843 km² de floresta entre agosto de 2012 e julho de 2013, aumento de 28% em relação ao período anterior. O tamanho é equivalente a quase quatro vezes o município de São Paulo.
Levantamento de junho e julho
Os dois últimos meses divulgados pelo governo foram junho e julho. O primeiro período registrou desmatamento de 535,31 km², enquanto no segundo mês, a floresta perdeu 728,56 km² de vegetação. Nos dois últimos meses do calendário do desmatamento, o Pará foi o estado que mais derrubou vegetação, seguido de Mato Grosso e Rondônia.
Em comunicado divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente, o diretor do Departamento de Proteção Ambiental do Ibama, Luciano Evaristo, avaliou que a expectativa é que em setembro os alertas caiam. “Eles (os desmatadores) agora não terão acesso ao dinheiro que financia o desmatamento. Quem estiver derrubando a floresta vai interromper o corte porque não terá como receber pelo trabalho ilegal”, disse.

Fonte: G1

Truco: Cala-boca em Belo Monte


Abrindo a série “Cartas na Mesa”, em que cidadãos criticam os candidatos, a Agência Pública publicou extensa matéria do jornalista Alceu Castilho sobre a hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, maior obra em curso do governo Dilma Rousseff (PT).

A série de reportagem faz parte do  “Truco” , iniciativa em que a partir do horário eleitoral gratuito na TV se verifica se os dados mais relevantes apresentados pelos presidenciáveis são verdadeiros e consistentes.

“Também podemos “pedir o truco”, um desafio público às campanhas para que expliquem promessas ou dados importantes aparentemente insustentáveis .Também podemos discordar frontalmente dos candidatos quando acharmos suas propostas perigosas para a democracia e direitos humanos. Aí vamos carimbar um “Que medo” e fazer uma materinha explicando por quê”, informa a página da iniciativa que aborda cada programa eleitoral e agora produz a sua primeira matéria.

Confira:  “Cala-boca em Belo Monte”

Quase 80% das usinas hidrelétricas em construção estão atrasadas, diz TCU


Por: Michèlle Canes*
O Tribunal de Contas da União (TCU) levou ao plenário do tribunal, nesta quarta-feira (3), o resultado de uma Auditoria Operacional sobre o Sistema Elétrico Brasileiro. O ministro-relator, José Jorge, disse que 79% das usinas hidrelétricas em construção no país não cumpriram com o cronograma inicial, apresentando algum tipo de atraso. No caso da energia eólica, o número chega a 88% e nas térmicas, 75%.
A Auditoria Operacional sobre o Sistema Elétrico Brasileiro, elaborada pela Secretaria de Fiscalização de Desestatização e Regulação de Energia e Comunicações (SefidEnergia) do TCU, traz uma análise sobre o cumprimento e a sincronia entre cronogramas para que obras de geração e de transmissão de energia no país comecem a operar. O relatório, avaliou obras feitas desde 2005 e traz ainda os impactos causados pelos atrasos e descompasso dos projetos.
Segundo os dados levantados pela equipe que elaborou o estudo, entre as causas dos atrasos estão pontos como questões ambientais e a ausência de estudos sobre os prazos que seriam mais adequados para cada tipo de construção. “O primeiro elemento fundamental é o tempo que a engenharia pode fazer aquela obra. Se tem uma hidrelétrica de tamanho tal pode ser construída em três anos e se você colocar em dois anos, certamente ela vai atrasar”, disse o ministro-relator.
Outra possível causa para a falta de cumprimento dos prazos é a inexistência de um banco de dados que permita um acompanhamento das obras por parte do Ministério de Minas Energia. “Hoje o que se nota é a grande dificuldade em se identificar potenciais casos de descompasso entre os empreendimentos. Não é possível identificar, por exemplo, via banco de dados, quais empreendimentos de transmissão devem estar concluídos para permitir a entrada em operação”, disse no voto.
Como consequência, de acordo com o relatório, tais atrasos e descompassos podem gerar, tanto a falta de oferta de energia no país como também ter impactos no valor cobrado diretamente do consumidor. A equipe responsável pelo estudo avaliou 11 casos e detectou que, se os cronogramas iniciais para a entrega das obras fossem cumpridos, gastos de R$ 8 bilhões entre 2009 e 2013, poderiam ter sido evitados.
Marcelo Cunha, secretário da SefidEneregia explica que isso acontece porque, mesmo não havendo uma linha de transmissão para escoar a energia, por exemplo, a geradora recebe o valor previsto no contrato. “Ele vai receber se ele concluir a obra no prazo correto, mesmo que a linha de transmissão não exista. Se não, o gerador seria penalizado por um problema com o empreendedor que atrasou a obra de transmissão”. O valor é pago pelas distribuidoras e repassado para os consumidores. “A auditoria avaliou 11 casos em que amostramos de que forma os atrasos, ou na geração ou na transmissão, impactaram nas tarifas pagas pelos consumidores. É daí que vem o valor de R$ 8 bilhões”.
Ao fim do voto, o ministro José Jorge estabeleceu algumas determinações a serem cumpridas pelos órgãos competentes. Ao Ministério de Minas Energia foi dado um prazo de 60 dias para elaboração de um plano de ação para evitar que, em 2015, ocorram problemas no escoamento de energia do Complexo do Rio Madeira para as regiões Sudeste e Sul.
Para a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), 60 dias para enviar uma relação de decisões tomadas sobre diferentes aspectos relacionados ao tema, entre eles, um estudo com os reais prazos para implantar os serviços de geração e transmissão de energia e as causas de atrasos. Caso as determinações não sejam cumpridas, o TCU poderá aplicar sanções aos órgãos.
Foram feitas também algumas recomendações como a regulamentação da Lei Complementar Federal 140/2011, que fixa regras para a cooperação entre União, estados, municípios e o Distrito Federal com relação ao licenciamento ambiental. Essa ação será encaminhada à Casa Civil da Presidência da República. Com relação ao banco de dados com informações das obras, o TCU recomendou à Aneel a interconexão das informações.
*Fonte: Agência Brasil – EBC - Edição: Fábio Massalli